15 julho 2008

A ARTE DO MOTOR . Paul Virilio
Tradução de Paulo Roberto Pires . Estação Liberdade, 1996, pg 91-96

A questão da técnica é inseparável da do lugar da técnica. Da mesma forma que é impossível apreender a NATUREZA, sem abordar ao mesmo tempo a questão do TAMANHO NATURAL, tornou-se inútil falar do desenvolvimento das tecnologias, sem se perguntar imediatamente sobre a dimensão, o dimensionamento das novas técnicas.
Depois da superestrutura e da infra-estrutura ontem, pode-se prever a partir de então um terceiro termo, a intra-estrutura, já que a recente miniaturização nano-tecnológica favorece agora a intrusão fisiológica, ou mesmo a inseminação do ser vivo pelas biotecnologias.
Depois de, já há muito tempo, ter contribuído para a colonização da extensão geográfica do corpo territorial e da espessura geológica de nosso planeta, o recente desenvolvimento das ciências e das tecnologias chega hoje à progressiva colonização dos órgãos e das vísceras do corpo animal do homem; a invasão da microfísica concluindo a da geofísica. Última figura política de uma domesticação em que, depois das espécies animais geneticamente modificadas e das populações humanas submetidas em seus comportamentos sociais, o que começa agora é a época dos componentes íntimos.

Efetivamente, hoje o lugar das técnicas de ponta não é mais tanto o ilimitado do infinitamente grande de um ambiente planetário ou espacial, mas o infinitamente pequeno de nossas vísceras, das células que compõem a matéria viva de nossos órgãos.

A perda, ou mais exatamente o declínio do espaço real de toda extensão ( física ou geofísica) em benefício exclusivo da ausência de intervalo das tecnologias do tempo real resulta inevitavelmente na intrusão intraorgânica da técnica e de suas micromáquinas no seio do que vive.
Efetivamente, o fim do primado das velocidades relativas do transporte mecânica e a emergência da súbita primazia da velocidade absoluta das transmissões eletromagnéticas liquidam, com a extensão e a duração do “mundo próprio”, o privilégio ontológico do corpo INDIVI, este “corpo próprio” que sofre por sua vez o ataque das técnicas, a fratura molecular e a intrusão das biotecnologias capazes de povoar suas entranhas.Dessa forma, a miniaturização dos motores, dos emissores-receptores e de outros microprocessadores está, neste fim de milênio, no cerne da questão da técnica e, portanto, do DESIGN PÓS-INDUSTRIAL.
Desde a revolução industrial, e daquela provocada pelas revoluções instantâneas da era dos grandes meios de comunicação de massa, começa a gora a última das revoluções, a dos TRANSPLANTES, o poder de povoar, digo, de alimentar o corpo vital com técnicas estimulantes, como se a física (a microfísica) se prestasse a concorrer a partir de então com a química da nutrição e com os produtos dopantes...

Desde a noite dos tempos, o desenvolvimento da técnica se dá em direção ao horizonte terrestre e à superfície dos continentes, com a invenção dos sistemas hidráulicos, dos canais e das pontes e aterros; megamáquinas das quais as empresas ferroviárias e rodoviárias deveriam ser a realização plena graças ao equipamento das cidades, com as linhas elétricas ou o cabeamento completando o que a revolução do deslocamento físico já havia conseguido, e nos preparamos agora para equipar a espessura do que vive com micromáquinas suscetíveis de estimular eficazmente nossas faculdades, o inválido equipado para superar sua deficiência transformando-se subitamente em modelo para o válido superequipado com próteses de todos os tipos.
É preciso portanto nos rendermos às evidências. Se antes a invenção da nutrição e dos diferentes hábitos alimentares resultou em uma “arte de viver” e de permanecer, graças à inovação do sedentarismo agrícola e, mais tarde, urbano, hoje a renovação das práticas nutricionais pela ingestão não somente de excitantes e de estimulantes químicos, mas também de estimulantes técnicos, irá logo favorecer uma mutação comportamental que não deixará de agir sobre o habitat. O METADESIGN dos costumes e dos comportamentos sociais pós-industriais toma o lugar do DESIGN DAS FORMAS DOS OBJETOS da era industrial.

Lembremo-nos das declarações de Nietzsche, no fim de sua vida, em Ecce Homo: “Uma questão me interessa muito mais, e da qual o estatuto da humanidade depende bem mais que de não sei que curiosidade de teólogos: a questão da nutrição. Podemos formulá-la assim: como você deve alimentar-se para alcançar seu máximo de força, de virtude?”(1) A esta pergunta, as tecnociências começam a dar a sua resposta. Depois da ingestão de alimentos reconstituintes, frutos da agricultura, preparam para nos fazer digerir, nos alimentarmos de produtos dopantes de todas as origens, não somente químicos com a voga dos excitantes modernos _ como o álcool, o café, o fumo, a droga, os anabolizantes _ mas também técnicos como os produtos da biotecnologia, as pastilhas inteligentes, capazes, diz-se, de superexcitar nossas faculdades mentais. Vejamos o que escreveu, em 1838, Honoré de Balzac, antecipando em meio século as intuições de Nietzsche: “Todo excesso se baseia em um prazer que o homem quer além das leis ordinárias promulgadas pela natureza. Quanto menos a força humana é ocupada mais ela tende ao excesso. O que ocorre a partir daí é que, quanto mais as sociedades são civilizadas e tranqüilas, mais elas optam pelo caminho do excesso_ para o homem social, viver é gastar-se mais ou menos rapidamente”(2).

Não se pode descrever melhor o estado dos lugares de nossa pós-modernidade onde os superexcitantes são o prolongamento de uma sedentariedade metropolitana em vias de generalização acelerada, notadamente graças a essa teleação que substitui doravante a ação imediata... A inércia, a passividade do homem pós-moderno exige um acréscimo de excitação, não somente através das práticas esportivas abertamente desnaturalizadas, mas também no caso de atividades cotidianas em que a emancipação corporal devida às técnicas de teleação em tempo real liquida as necessidades tanto de vigor físico quanto de esforço muscular.
Finalmente, a invenção do marca-passo cardíaco, capaz de reproduzir, de suplantar o ritmo da vida, foi um dos pontos de partida desse tipo de inovações bio-tecnológicas. Depois dos “xenoimplantes” de órgãos animais, temos agora os “tecnoimplantes”, a mistura do técnico e do vivente, a heterogeneidade orgânica não sendo mais e de um corpo estrangeiro acrescentado ao próprio corpo de um paciente, mas a de um ritmo estrangeiro suscetível de fazê-lo vibrar em uníssono com a máquina.
Como supor, a partir de então, que as coisas continuam na normalidade? Que esta súbita superexcitação do ritmo cardíaco por uma prótese não se prolongará amanhã por novos excessos, pela invasão de outros procedimentos de aceleração de biorritmos julgados excessivamente lentos?
Efetivamente, trata-se da realização, quase um século depois, do sonho dos futuristas italianos: o corpo do homem integralmente alimentado pela técnica graças à miniaturização das “máquinas-micróbios” invisíveis ou quase, guardando entretanto uma diferença fundamental na ordem de grandeza da velocidade, já que não se trata mais, como esperava Marinetti, de rivalizar com a aceleração dos motores transformando o corpo-locomotor do indivíduo no equivalente da locomotiva ou de uma turbina elétrica cujas velocidades relativas soa ultrapassadas _ mas antes de tentar aparelhar o corpo humano para torná-lo contemporâneo da era da velocidade absoluta das ondas eletromagnéticas. O emissor-receptor em tempo real sucederá, a partir de então, ao motor superpossante suscetível de percorrer rapidamente o espaço real dos territórios.

Lembremo-nos que, desde a origem da vida, a corrida é eliminatória: eliminatória para o predador capaz de alcançar sua presa mais rapidamente, igualmente eliminatória para as sociedades humanas incapazes de desenvolver a aceleração de sua produção e distribuição. Ora, nessa corrida, a concorrência selvagem elimina não somente o adversário (o animal excessivamente lento) mas também eliminam-se elementos de seu próprio corpo. Por exemplo, perde-se peso para ficar em forma, emagrece-se para melhorar os reflexos, os sinais nervosos... mas ao mesmo tempo elimina-se o território natural tornando-o mais “condutor” e retilíneo, é a invenção da INFRA-ESTRUTURA do estádio, do hipódromo ou do aeródromo, o espaço real do lugar da corrida tornando-se subitamente o produto do tempo real de um trajeto.
Dessa forma, o “corpo territorial” é, a exemplo do corpo animal do corredor ou do atleta, rigorosamente configurado, talvez integralmente reconstituído pela velocidade. Velocidade relativa de um deslocamento físico ontem, velocidade absoluta das transmissões microfísicas hoje, velocidade limite, verdadeira BARREIRA DA LUZ _ depois das do som e do calor_ em que a corrida, a concorrência vital, irão sofrer uma espécie de transmutação.
Uma vez que a escala de grandeza da aceleração atingiu o patamar insuperável (segundo a lei da relatividade) dos 300 mil quilômetros por segundo, perseguiremos agora a eliminação no interior da própria matéria viva, reconstituindo dessa vez a dinâmica vital, fagocitando o vivo, a própria vitalidade do sujeito. Não iremos mais somente provocar o desenvolvimentos dos músculos ou a flexibilidade das articulações através de exercícios rítmicos e dos produtos anabolizantes, mas estimular as funções nervosas, a vitalidade da memória ou da imaginação, promovendo uma reestruturação das sensações através de novas práticas mnemotécnicas.
Neste estado da história, a concorrência eliminatória suprime não mais o peso, para tornar o copo mais ágil e portanto mais apto à corrida, mas modifica os ritmos vitais, ocupa até mesmo os vazios do espaço intra-orgânico do sujeito acrescentando órgãos suplentes.
Marvin Minsky glorifica esse tipo d reconstrução fisiológica:Isso significa que você pode ter, dentro de seu crânio, todo o espaço que quiser para implantar sistemas e memórias adicionais. Então, pouco a pouco, você poderá aprender mais a cada ano, acrescentar novos tipos de percepção, novos modos de raciocínio, novas formas de pensar ou imaginar”(3).

Desta forma, o META-DESIGN das neurociências não se condiciona a encontrar uma forma da estrutura ou da infra-estrutura de um “objeto” industrial, mas regenera os impulsos dos neurotransmissores de um “sujeito” vivo, realizando desde então uma espécie de ergonomia cognitiva, último tipo de conexão neuroléptica que se poderia chamar de INTRA-ESTRUTURA do comportamento.
Lembremos, a propósito, uma evidência desconhecida resultante do declínio do primado da extensão do espaço geográfico em prol da extensão, recente, da ausência de duração do tempo cronográfico _ tornar o corpo e sua energia vital contemporâneos da era das tecnologias da transmissão instantânea é abolir, em um mesmo movimento, a distinção clássica entre o interno e o externo, em benefício de um último tipo de centralidade, ou mais exatamente, de hipercentralidade, a do tempo, de um tempo “presente”, para não dizer “real”, que suplanta definitivamente a distinção entre a periferia e o centro, como o comprimido contra o sono suprime a alternância entre o estar desperto e o repouso reparador.

Se antes, estar presente era estar próximo, fisicamente próximo do outro, em um face-a-face, um frente-a-frente em que o diálogo se torna possível através do alcance da voz ou do olhar, o advento de uma proximidade midiática fundada nas propriedades do domínio das ondas eletromagnéticas parasita o valor de aproximação imediata dos interlocutores, esta súbita perda de distância ressurgindo sobre o “estar-lá”, aqui e agora. Se a partir de então pode-se não somente agir, mas ainda “teleagir” _ ver, ouvir, falar, tocar ou ainda sentir à distância (4) _ surge a possibilidade inaudita de um desdobramento da personalidade do sujeito que não saberá deixar intacta por muito tempo a “imagem do corpo”, ou seja, a PROPRIOCEPÇÃO do indivíduo... Cedo ou tarde, esta íntima percepção da massa ponderável perderá qualquer evidência concreta, liquidando em um mesmo ato a clássica distinção entre o “de dentro” e o “de fora”. O hipercentro do tempo real do mundo próprio _ EXOCENTRAMENTO_ perdendo todo e qualquer sentido a noção essencial de ser e de agir, aqui e agora.

(1)Ecce Homo Ed. Brasileira com tradução de Paulo César Souza, Max Limonad, 1985
(2)Traité de excitants modernes, Castor Astral, 1992, p 22-23
(3)Art Press, número especial:”Nouvelles Technologies”, 1991
(4)Os primeiros captadores olfativos acabam de ser produzidos



29 maio 2008

CIBER CIDADES
















... "Para Barbero, as cidades pós-industriais estão passando por transformações tecno-operativas importantes com a advento das novas tecnologias de comunicação, caracterizando-se por um movimento crescente de desterritorialização dos mundos simbólicos e esfacelamento de fronteiras entre o arcaico e o moderno, entre o local e o global, a cultura letrada e a audiovisual. Estas transformações repercutem nas formas do estar-junto nas cidades contemporâneas, abrindo o espaço para que estas entrem em "acelerados processos de modernização urbana e os cenários de comunicação que, em suas fragmentações e fluxos, conexões e redes, apresenta a cidade virtual" (Barbero, 1996, p. 27).
Entramos no paradigma informacional que substitui o paradigma comunicacional. O novo paradigma está centrado sobre o conceito de fluxos, no mesmo sentido tomado por Castells. Existe assim, neste espaço de fluxo, três fatores: a des-espacialização, o descentramento e a des-urbanização. O primeiro refere-se à ênfase no tempo das trocas, no fluxo de informações que transforma os lugares em espaços de fluxos. O segundo, que se refere a perda do centro, significa que, no espaço de fluxos, todos os lugares são equivalentes, acarretando a desvalorização de lugares antes tidos como centrais, como praças, monumentos ou ruas. O terceiro fator lida com à perda cada vez maior de uso da cidade pelos cidadãos. Isso significa que o fluxo pelas ruas, praças, avenidas e monumentos se fazem, agora, na lógica da consumação e do trabalho, fazendo com que os cidadãos fujam do caos urbano, seja refugiando-se em espaços paradisíacos privados (shoppings, condomínios fechados, guetos), seja fugindo para espaços periféricos dos grandes centros.
É nesta trilogia de efeitos que devemos pensar o surgimento das ciber-cidades, já que é neste espaço de fluxos, forma predominante de trocas na sociedade de informação na cibercultura, o terreno para o crescimento das cidades digitais, embora, como vimos, ela não deva ser pensada em oposição àquela ancorada nos espaços de lugares, bem ao contrário. Para Castells este espaço de fluxos "está tornando-se a manifestação espacial dominante de poder e função em nossas sociedades" (Castells, 1996, p.378), o que aumenta a responsabilidade social na implementação de ciber-cidades. Estas podem ser vistas como a atual integração de localidades e regiões nas emergentes redes telemáticas mundiais. Não é à toa que os grandes portais e sites informativos têm, em suas paginas, links para ciber-cidades com informações as mais diversas sobres as cidades reais. Instituições governamentais e privadas participam ativamente da construção de sites que forneçam informações sobre elas mesmas e as cidades as quais pertencem.
Para Barbero, as ciber-cidades apontam para esta nova forma de vida nas cidades reais. Estas são, desde sempre, construção de espaço concreto, mas também, de espaço comunicacional que refaz o espaço construído: "na cidade dos fluxos comunicativos contam mais os processos que as coisas, a ubiqüidade e instantaneidade da informação ou da decisão via telefone celular ou fax a partir do computador pessoal, a facilidade e rapidez dos pagamentos ou a aquisição de dinheiro pelos cartões" (Barbero, 1996, p.33).
As ciber-cidades atendem assim, ao crescimento da insegurança social, a instalação de não lugares e ao fluxo comunicativo crescente, transformando-se em uma espécie de salvação das cidades reais, onde predomina o espaço de lugares. Elas podem ainda facilitar, pelo anonimato, que os indivíduos liberem-se de todo constrangimento identitário e possam aproveitar a desterritorialização de suas subjetividades onde estar em casa não significa estar isolado do mundo, podendo flanar pelo ciberespaço e entrar em contato com o outro. Sabemos que toda cidade é construída a partir de fluxo de informação mas, pela primeira vez, o fluxo de informação numérica por redes telemáticas planetárias influenciam a configuração das trocas sociais e comunicativa nas cidades. Como afirma Castells, "a cidade global não é um lugar, mas um processo. Um processo pelo qual centros de produção e consumo de serviços avançados, e as sociedades locais subordinadas a ele, é conectado em uma cadeia global (...) na base de fluxos de informação." (Castells, 1996, 386). Castells chama a atenção também para o fato de que a emergente troca de informações telemáticas potencializam uma separação entre as relações no espaço e aquelas na rede, como por exemplo as várias funções exercidas na vida cotidiana, como trabalhar, comprar, se educar ou mesmo se divertir. No entanto, o sociólogo espanhol mostra que em nenhum momento esta dissociação pode ser interpretada como esvaziamento da cidade real em função da separação e isolamento de seus indivíduos. Muito pelo contrario, as trocas tenderiam a aumentar, no espaço físico, os problemas como a circulação de pessoas. Os problemas de transportes tenderiam mesmo a se agravar, já que, pelo impacto das novas tecnologias na vida cotidiana, as pessoas estariam liberadas do confinamento espaço-temporal em escritórios, agências de burocracia, bancos ou supermercados. Mesmo o teleshopping poderá substituir a compra atual por catálogos, mas não a ida de pessoas à shopping centers ou mercados comunitários.
Neste sentido, a construção de ciber-cidades pode potencializar, além de trocas entre os que estão distantes, por via telemática, o contato e a troca em espaços físicos concretos.

... As ciber-cidades devem potencializar trocas entre seus cidadãos e a ocupação de espaços concretos da cidade real, ao invés de ser uma simples substituição. O espaço de fluxos complexifica o espaço de lugar das cidades. Como afirma Castells, "como outras atividades da vida quotidiana, ele suplementa ao invés de substituir áreas comerciais" (Castells, 1996, 396). Estamos longe do fim das cidades, embora as cidades reais estejam em crise desde o surgimento da modernidade industrial. A cidade-mundo da era da informação é, como afirma Castells, mais um processo do que uma forma urbana concreta, presa entre muros e asfalto. "
Trecho do artigo CIBER-CIDADES de André Lemos


CIBERESPAÇO

...Willian Gibson (1991), em seu livro "Neuromancer", foi o primeiro autor a utilizar o termo para designar este ambiente artificial, onde dados e relações sociais trafegam (ou navegam?) indiscriminadamente. Para ele, o conceito de ciberespaço é o de um espaço não físico ou territorial no qual uma alucinação consensual pode ser experimentada diariamente pelos usuários.
O ciberespaço é a "MATRIX", uma região abstrata invisível que permite a circulação de informações na forma de imagens, sons, textos etc. Este espaço virtual está em vias de globalização planetária e já constitui um espaço social de trocas simbólicas entre pessoas dos mais diversos locais do planeta. Cabe lembrar que a dinâmica imaterial do ciberespaço é apoiada no avanço das forças produtivas do sistema capitalista, na sua busca incessante de aumentar a velocidade de rotação do capital e das transações mercantis e financeiras em escala planetária e é também resultante das tecnologias voltadas para a Guerra, como a Internet.
Para tanto, todo um investimento em tecnologia de informação se apresenta. As grafias deixadas pelas técnicas no atual estágio de produção social do espaço se expressam nos sistemas de satélites, cabos de fibra ótica, teleportos, redes de computadores com inovações constantes em softwares, hardwares etc. Atualmente, o ciberespaço pode ser compreendido a partir de duas perspectivas:
1) como via expressa de informação através da conexão de computadores em rede e
2) como realidade virtual.
Para que se possa ter acesso à via expressa de informação, é necessário que sejam estabelecidas as "condições ambientais" do ciberespaço. O ambiente construído é a expressão material que permite conexão com um novo sistema de relações sociais.
Tais condições só nos são possíveis a partir de um arranjo espacial que inclui o computador, monitor, teclado, mouse, linha telefônica, provedor de acesso, redes telemáticas e outros meios eletrônicos capazes de nos conectar com o ciberespaço. Estas formas estáticas, aos quais estamos fisicamente ligados, nos transportam, através da virtualidade, para um mundo onde prevalecem as nossas sensações. A experiência de tempo e espaço não existe "nas coisas visíveis do ciberespaço", mas aparece somente na zona do subjetivo. Desse modo, o ciberespaço é uma veleidade, no sentido de abrir alguma possibilidade de enfoque idealista da materialidade social da sociedade moderna.
Para que possamos prosseguir se faz necessário esclarecer o que entendemos por "realidade virtual". Trata-se, claramente, de uma revolução. Uma alteração radical na forma de conceber o tempo e o espaço, e mesmo os relacionamentos. Segundo Pierre Levy (1996, p.16)," o virtual não se opõe ao real e sua efetivação material, mas sim ao atual". Filosoficamente, o virtual é entendido como o que existe em potência e não em ato. O virtual é extensão do real, ou seja, é um real latente. As imagens virtuais fazem mediação da realidade. O tempo instantâneo e o espaço virtual são os novos vetores que se inserem e se articulam ao ambiente construído pela sociedade em rede telemática.

Trecho do artigo 'A geograficidade do ciberespaço'
Prof. Dr. Carlos Alberto F. da Silva / Profª. Msc. Michéle Tancman Candido da Silva

04 maio 2008

A CASA DA CASCATA 
Frank Lloyd Wright
Considerada uma das mais famosas casas do mundo, a Casa da Cascata (em inglês: Fallingwater house) ou Casa Kaufmann (nome da família de seu primeiro proprietário) é uma residência localizada perto de Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia nos Estados Unidos. Foi construída em 1936 e projetada pelo arquiteto Frank Lloyd Wright, figura chave da arquitetura organica, um desdobramento da arquitetura moderna, que se contrapunha ao ‘international style’ europeu.


Originalmente utilizada como residência de veraneio da família, a casa hoje é um museu. O proprietário era o homem de negócios Edgar Kaufmann, cujo filho Edgar Jr. foi aluno de arquitetura de Wright. Foi construída em meio a um bosque, no interior de uma propriedade da família. Sua principal característica, no entanto, é o fato de ter sido erigida sobre uma pequena queda d'água, utilizando-se dos elementos naturais ali presentes (como as pedras, vegetação e a própria água) como constituintes da composição arquitetônica. Assim como várias outras obras de Wright, foi construída com materiais experimentais para a época.


19 fevereiro 2008

Habitações de baixo custo mais sustentáveis: a casa Alvorada e o Centro Experimental de tecnologias habitacionais sustentáveis




Autor Miguel Aloysio Sattler
Coleção Habitare,
volume 8
ANTAC Porto Alegre, 2007
488 p. ilustrado
ISBN 978-85-89478-22-9






Este livro reúne o histórico e os princípios norteadores dos estudos sobre construções e projetos mais sustentáveis desenvolvidos por integrantes do Núcleo Orientado para a Inovação na Edificação (NORIE), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS ).

Além de apresentar o Núcleo e sua linha de pesquisas em Edificações e Comunidades Sustentáveis, aborda o conceito de sustentabilidade, seu caráter holístico, interdisciplinar e sistêmico.

É uma obra que destaca a importância de que a moradia seja projetada e construída de acordo com a ótica, a ética e a estética da sustentabilidade.Trata, detalhadamente, de duas experiências do Núcleo: o Projeto Casa Alvorada e o Projeto CETHS – Centro Experimental de Tecnologias Habitacionais Sustentáveis. Financiadas pelo Programa de Tecnologia de Habitação (Habitare), da Finep, e pela Caixa Econômica Federal, entre outras instituições, estas pesquisas levaram ao desenvolvimento de um conjunto de dissertações, artigos científicos e trabalhos finais de disciplinas, que em parte são documentados neste livro.
Como é rara a bibliografia sobre projetos habitacionais mais sustentáveis em língua portuguesa, sendo ainda mais limitadas aquelas associadas à habitação de interesse social, trata-se de referência para professores, estudantes e profissionais interessados no tema.

saiba mais....
http://www.habitare.org.br/pdf/publicacoes/arquivos/colecao9/livro_completo.pdf

14 novembro 2007

ARQUITETURA ORGÂNICA ao@arquiteturaorganica.com.br































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em inglês



20 outubro 2007

EPISTEMOLOGIA AMBIENTAL
enrique leff, cortez 2001

..."Para além do campo ambiental, esta postura está em consonância com um projeto social alternativo que anseia por uma revolução epistemológica ou, ainda, poderíamos dizer uma reconstrução do mundo. Contra um cenário anti-utópico e desagregador dos laços societários, a epistemologia ambiental aposta em uma nova utopia societária e epistêmica, capaz de ressemantizar os sentidos do viver e do agir político."

De acordo com texto da antropóloga Lucia Helena de Oliveira Cunha, transcrito na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente jul/dez 2001, editora Ufpr, "a leitura de Epistemologia Ambiental, de Enrique Leff, convida-nos a várias reflexões, diante da riqueza e densidade de questões que o autor aborda, neste contexto de crise socioambiental que marca as sociedades contemporâneas.
Tais questões abrangem desde a articulação entre os distintos campos do conhecimento para apreensão da dinâmica sociedade-natureza, o processo de transformação do conhecimento até a construção do saber e da complexidade ambiental e o significado de uma nova racionalidade ambiental.
Parece perpassar esses temas, no entanto, a preocupação constante do autor em proceder à desconstrução do pensamento unitário, disciplinar, instrumental e reducionista que rege a lógica ocidental dominante – com nítidos reflexos no pensamento científico e filosófico –, em especial na forma de conceber o mundo natural e social.
Propondo-se romper com perspectivas lineares, fragmentárias, coisificadoras e unidimensionais, calcadas em estruturas totalitárias, Leff preconiza um novo modelo de conhecimento, no qual a razão aberta, crítica e criativa, livre de certezas insustentáveis, faz-se presente. Transpondo a ambientalização do conhecimento – que apenas toma o ambiental uma dimensão do real –, o autor assinala a importância da construção de um saber ambiental amplo, comprometido não somente com as formas de objetivação do ser (e do conhecer), mas com a apropriação subjetiva da realidade, imprimindo novos sentidos civilizatórios ao mundo –, com o forjar de novas teorias, ideologias e utopias (novas ações sociais), para a reapropriação da natureza e novos relacionamentos entre os homens.
A preocupação de Leff no campo epistêmico é rediscutir os nexos entre realidade e conhecimento, entre teoria e práxis, entre objetividade e subjetividade, entre ser e conhecer, entre saber formal e saberes patrimoniais, rompendo com as dicotomias tão características da ciência moderna dominante; no plano político, a proposta do autor é a de integrar esses pares aparentemente opostos, excludentes, em saberes geradores de uma nova utopia, de novas solidariedades e sentidos – de uma ordem social e ambiental. Dessa perspectiva, esse processo implica “a aventura na construção de novos sentidos do ser”, onde o inédito tem lugar.
Devido à amplitude e multiplicidade de questões abrangidas em Epistemologia ambiental, fixo-me, aqui, em uma das proposições do autor que julgo revolucionária, do ponto de vista do conhecimento e da ação social: a idéia de que a construção de novos paradigmas envolve um amplo diálogo entre tradição e modernidade, ou seja, toma-se como pressuposto que uma nova relação entre o homem e a natureza, num intercruzamento entre várias temporalidades,
implica um olhar sábio e simultâneo para frente e para trás.
Ou, em outros termos, em seu projeto teórico-político, o autor propõe a busca de novas trilhas no fluxo da história, onde a tradição possa ser ressignificada. No plano epistêmico, isso requer um esforço de ruptura não somente com os abismos historicamente produzidos entre as distintas áreas do conhecimento (sem com isso implicar dissolução das áreas constituídas), mas um diálogo fecundo com outras expressões do saber e cosmovisões, tecidas ao longo do tempo para a produção e recriação da vida em sua diversidade e múltiplas dimensões.
A originalidade da proposta de Leff está em reconhecer o valor e o estatuto de saberes milenares ou seculares na construção de um novo modelo de conhecimento, propondo uma dialogia com os sujeitos e a ciência da tradição ou com saberes organizados pela cultura – num movimento contínuo de atualização e renovação –, em que há convivênvia e confluência entre modos de vida, com expressões identitárias compartidas. Nesses termos, e acentuando a dimensão política de seu projeto, assim afirma o autor:

...o diálogo de saberes na gestão ambiental, num regime democrático, implica a participação das pessoas no processo de produção de suas condições de existência. Por isso é o encontro entre a vida e o conhecimento, a confluência de identidades e saberes. A encruzilhada pela sustentabilidade é uma disputa pela natureza e uma controvérsia pelos sentidos alternativos do desenvolvimento sustentável. Isso faz com que a sustentabilidade tenha como condição iniludível a participação de atores locais, de sociedades rurais e comunidades indígenas, a partir de suas culturas, seus saberes e suas identidades.

O caráter inovador da proposta de Leff repousa, pois, no fato de ultrapassar a perspectiva academicista, disciplinar e auto-referente da ciência moderna, que elege a si própria como forma única, superior e absoluta do conhecimento – a medida de todas as coisas –, negando ou ossificando outras expressões culturais do saber, dotadas de lógicas distintas. É nesse sentido que o diálogo entre saberes deve abranger o entrelaçamento ou complementaridade de prismas diferenciados, assim como o elo entre tempos, no qual saberes seculares e milenares imbuídos de pensamento cosmogônico e histórico permitam num intercâmbio com outros saberes e identidades, novas formas de apropriação do mundo (e da natureza).
O saber ambiental fundado no encontro (confronto) de múltiplos saberes, legitimados por diferentes matrizes de racionalidades inscritas em lógicas culturais distintas, deve propiciar a produção de novas categorias e estratégias conceituais, não constituindo um campo discursivo homogêneo estabelecido a priori: ao contrário, é um campo que se constrói continuamente em relação com o objeto, com o sujeito e com o tema de cada área do conhecimento, em suas articulações com as demais áreas.
Sem incorrer em ecletismos epistemológicos, vale ressaltar que o saber ambiental, para Leff, envolve paradigmas de conhecimentos de diversas ordens, os quais abrangem, também, sistemas de valores, crenças, técnicas e práticas produtivas referentes à vida material, social e natural e à apropriação e produção do ambiente, orientados por princípios de sustentabilidade, ou seja, nas palavras do autor, esse saber não apenas gera um conhecimento científico mais objetivo, abrangente, mas também produz novas significações sociais, novas formas de subjetividade e de posicionamento ante o mundo.

Sob esse olhar, Leff propugna a ampliação de perspectivas e o alargamento de horizontes para o conjunto da produção humana em sua diversidade. Tal diversidade se manifesta tanto na constituição interna do campo científico, nas formas de organização dos saberes culturais, em suas múltiplas expressões – materiais e simbólicas –, como na manifestação dos sentidos do ser. O reconhecimento do diverso nos modos de ser, pensar e conhecer, ou de um saber ser com a outridade, permeia a obra de Leff, integrando sua proposta de constituição de um novo saber e racionalidade ambiental – de hibridização das ciências, de intercâmbio cultural e de um circuito dialógico entre tempos e saberes.
Importante em sua proposta é que conhecer e ser configuram-se como dimensões conectadas – formam unidades indissociáveis. Por isso, o vir a ser, na construção de futuros inéditos, congrega saberes e tempos diversos, em relação de coetaneidade, e emerge sempre como possibilidade(s) do ato do conhecer, do conceber, do fazer e dos sentidos imputados ao mundo."

08 setembro 2007

O ordenamento das telecidades no ciberespaço

Prof. Dr. Carlos Alberto F. da Silva
Departamento de Geografia da UFF

Profª. Msc. Michéle Tancman Candido da Silva
Fundação CECIERJ


A análise da sociedade moderna até aqui desenvolvida sugere que estamos diante de um nova forma de produção social do espaço. Curioso é que a concepção materialista da geograficidade, desta virada de século, apresenta um sistema de relações sociais, expressas no ciberespaço, no qual o tempo real-instantâneo é um tempo sem tempo e a nova cotidianidade é destituída de espaço e matéria. A imagem-fluxo, a presentificação, a realidade virtual e as diversas possibilidades de comunicação on-line sugerem um novo ambiente, que alguns chamam de cidade eletrônica ou cidade digital, derivada das redes comunicacionais e informáticas.

Tais redes são o suporte estrutural para a duplicação da cidade real nas redes, a que Virilio (1993) chamou de telecidades. A cidade eletrônica é resultado de um conjunto de máquinas que interagem simultaneamente via rede de informática (internet, por exemplo), provocando um esvaziamento do espaço urbano e um investimento no tempo. Mas é, antes de tudo, não um lugar, e sim um processo caracterizado pelo predomínio do espaço de fluxos (Castells, 1999, p.423). Apesar de a economia e das relações sociais se processarem, majoritariamente, nas cidades reais (a produção, as trocas e a cultura de massa), cada vez mais temos a expansão de uma “cidade eletrônica” colocada pelas redes. Isso porque a telecidade incrementa a materialidade da economia capitalista via redes e sistemas interativos diversos. Logo, as redes e as telecidades possibilitam não só uma desterritorialização da sociabilidade, mas também uma desmaterialização de processos capitalistas de produção, circulação e consumo.

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/geografia/geo07c.htm

20 junho 2007

Paul Virilio
Paul Virilio nasceu em Paris em 1932. Arquiteto, urbanista, filósofo, ex-diretor da Escola de Arquitetura de Paris, especialista em questões estratégicas, tem se destacado como um dos principais ensaístas sobre os meios de comunicação, a "guerra da informação" e o mundo cibernético. Nos últimos anos, Paul Virilio vem se notabilizando como uma voz cética, quase uma nova dissidência, frente a uma sociedade desenfreadamente informatizada e onde o cidadão é vítima de um constante bombardeio (des)informacional.

O futuro do acidente

"O mundo do futuro será uma luta cada vez mais árdua contra as limitações da nossa inteligência."Norbert Wiener(1)

Não há ganho sem uma correspondente perda. Se inventar a substância, é, indiretamente, inventar o acidente, então quanto mais poderosa e eficiente a invenção, tanto mais dramático o acidente.
Eventualmente, chegará o dia fatal em que o progresso do conhecimento se tornará intolerável, não somente devido ao seu mau uso, como também em função dos seus efeitos — o próprio poder de sua negatividade.
Tivemos a confirmação desse fato no decorrer do século XX, antes pelo nuclear, depois através da corrida pelas armas termonucleares, onde as próprias armas, em última instância, se tornaram impossíveis de usar e condenaram os protagonistas à dissuasão.... a maior dissuasão possível.
O próprio poder das armas atômicas também marca o limite final daquele poder, o qual de súbito se tornou impotência... Neste caso, é a terrível inutilidade deste tipo de arma que constitui o acidente.
Ao invés de combater de verdade, as equipes militares se empenham em exercícios imaginários de um "jogo-de-guerra" de somatória zero, no qual a virtualidade é meramente a marca da falta de conseqüência política das nações, já que as conseqüências passam a não ter, praticamente, qualquer importância, sendo enormes demais para serem apreendidas seriamente e terríveis demais para serem testadas apropriadamente... exceto para um louco — pelo perpetrador prospectivo de um ataque suicida contra a humanidade.
Sobre isso, vejamos o que Friedrich Nietzsche tem a dizer em seu ensaio, "O Nascimento da Tragédia", escrito nos anos seguintes à guerra franco-prussiana de 1870: "... uma cultura baseada nos princípios da ciência deve ser destruída quando começa a crescer de maneira ilógica, ou seja, a se omitir frente às suas próprias conseqüências. Nossa arte revela esse mal-estar universal."(2)
Se, efetivamente, "na tragédia, o estado de civilização é suspendido"(3), então, com ela, o inteiro espectro do conhecimento benéfico desaparece. Portanto, na guerra total, a repentina militarização da ciência, requerida para a presumida vitória dos oponentes, reverte toda a lógica e a sabedoria política, a ponto que a antiga filosofia é seguida pelo absurdo de uma filanóia(4), responsável por destruir o conhecimento acumulado através dos séculos... "O poder humano, aumentado excessivamente, transforma-se então em causa de ruína"(5), despejando a totalidade da cultura das nações no vazio das causas perdidas — causas irremediavelmente perdidas, seja em caso de derrota seja de vitória, já que não é possível desinventar um conhecimento ao mesmo tempo terrorista e sacrílego para a inteligência científica.
De forma que, assim como há períodos de mau tempo na natureza, há também períodos de mau tempo na cultura e precisaríamos de uma "meteorologia" positiva da invenção para tentar evitar os temporais do artifício do Progresso do Conhecimento — aquele espírito que gera a potencialização extrema dos nossos instrumentos e das nossas substâncias e, conjuntamente, dos acidentes industriais e pós-industriais; estou pensando em primeiro lugar, na genética e na tecnologia da informação, que se seguiram às depredações forjadas pelo progresso atômico, cuja verdade atroz nos foi revelada em primeira mão por Hiroshima, depois por Chernobyl.
"É impressionante aquilo que não podem fazer aqueles que tudo podem fazer", declarou Madame Swetchine no século 19 (6). Esse aforisma resume perfeitamente o paradoxo do século XX e suas revoluções seriais, assim como tantas armas empregadas contra a inteligibilidade do mundo.
Hoje, no início do século XXI, quando a globalização que tanto ouvimos elogiar é, em primeiro lugar e principalmente, o fruto proibido da árvore do conhecimento (em outras palavras, da chamada "revolução da informação"), o predador está dando lugar para o exterminador, e o capitalismo simples para o terrorismo.
Como o extermínio é, de fato, a conclusão ilógica da acumulação, o Estado suicida não é mais tão somente psicológico, associado à mentalidade de um número de indivíduos perturbados, mas sociológico e político, até o ponto em que o acidente generalizado anunciado por Nietzsche agora incorpora aquela dimensão de pânico na qual a filosofia do Iluminismo dá lugar ao amor da loucura das grandezas, uma filanóia de proporções gigantescas. É isso o que significa, efetivamente, esse acidente do conhecimento, o qual complementa o acidente da substância que deriva da pesquisa tecno-científica.
E, se há três dimensões na matéria — massa, energia e informação, então depois das longas séries de acidentes relacionados com a matéria e a energia do século passado, o tempo ao alcance da mão no presente é o do acidente lógico — e mesmo o acidente biológico, à medida em que observamos a pesquisa teratológica da engenharia genética.
"As máquinas declararam guerra a Deus", escreveu Karl Kraus famosamente, enquanto a carnificina da Primeira Guerra Mundial estava começando(7)... Mas, como é que as coisas estão, hoje em dia, na era de uma globalização tão decantada pelos advogados do Progresso?
A globalização do conhecimento, um produto da revolução das telecomunicações, não somente reduziu o campo da atividade humana a nada, graças à sincronização da interatividade, como está causando uma mutação histórica na própria noção de acidente.
O local, acidente precisamente situado, de repente deu lugar à possibilidade de um acidente global, o qual não mais diria respeito meramente a "substâncias" — a substância do mundo na era do tempo real das trocas — mas o conhecimento que temos da realidade, aquela visão do mundo que previamente sustentava nossas ciências.
Assim, depois do acidente da substância, com o século que acaba de iniciar, estamos inaugurando um acidente sem paralelos, um acidente da realidade, o acidente do tempo e do espaço, e da matéria substancial totalmente desconhecida aos cínicos, mas que foi introduzida gradualmente pelos físicos da relatividade no decorrer da guerra total.
"O tempo é meramente uma ilusão", declarou Einstein, durante aquele período que separou a Primeira da Segunda Guerras Mundiais. Um acidente do conhecimento histórico, ou, em outras palavras, da percepção das coisas — uma desrealização positiva — este, o produto de uma realidade agora em vôo acelerado, como as galáxias na expansão do universo, uma desrealização cujas devastações já tinham sido pressentidas por Werner Heisenberg quando ele escreveu, há cinqüenta anos: "Ninguém sabe o que será real para o ser humano no fim das guerras que estão agora começando."(8)
Finalmente, depois da implosão da Guerra Fria entre o Oriente e o Ocidente, a globalização é, antes de mais nada, um tipo de jornada ao centro da terra, no brilho escurecedor de uma compressão temporal que confina o espaço vital da raça humana de uma vez por todas, algo que alguns utópicos denominaram de sexto continente, embora se trate simplesmente do hiper-centro de nosso ambiente.
Tanto origem quanto fim de um mundo que está agora barrado, onde todos estão crescentemente atraídos por essa região central, sem extensão espacial ou temporal, a qual é simplesmente o auge, o terminal daquela aceleração da realidade, a qual esmaga nossos cinco continentes e sete mares entre si, mas, e isto é muito importante, comprime juntos as nações e os povos do mundo todo.
Uma compressão telúrica da história da humanidade, cujo escopo não se registra em nenhum sismógrafo, apesar dos ecologistas; a compressão daquele cataclisma onde tudo é repassado pelo telescópio, e que colide com todo o resto a cada momento e onde todas as distâncias são reduzidas a nada, despedaçadas por acidente do tempo real da interatividade; um estremecimento da terra inteira, onde os eventos não são mais nada do que acidentes simultâneos, atemporais, na superfície de um objeto celestial excessivamente comprimido, e onde a gravidade e a pressão atmosférica são ulteriormente reforçadas pela sincronização instantânea das trocas.
Nesse nível de desassossego, a ecologia não é tanto a da natureza, quanto a ecologia da cultura, e seu efeito de amadurecimento de catástrofes etológicas. Efetivamente, com o engolir das proporções, dos períodos e das escalas de tempo, a abolição instantânea de todos os intervalos a favor da imediatez, a poluição das distâncias em escala de tamanho natural do globo nos ensina infinitamente mais que a poluição das substâncias da natureza sobre o drama, a tragédia do conhecimento futuro. Na terrível compressão das extremidades de um mundo outrora gigantesco em direção ao Centro, o hiper-centro do único planeta habitável no sistema solar, "A Natureza pode confiar no Progresso; ela irá vingar-se dele pelo abuso que ele perpetrou contra ela."(9)
Em conclusão, permitam-me fazer três perguntas: a ciência deve tranqüilizar? Ou, ao contrário, a ciência deve assustar? E, finalmente, a ciência é desumana?(10) Essas perguntas todas lançam uma luz considerável sobre a famosa "Crise do Progresso", assim como o fazem na, de modo nenhum subsidiária, crise das recentes mediatizações das descobertas — aquele "expressionismo científico" subscrito por certos loucos/cientistas, tais como o ginecologista Severino Antinori, o "Doutor Fantástico" da procriação assistida, ou o especialista em câncer Friedhelm Hermann, acusado no outono de 1999 por uma comissão alemã responsável por detectar fraude nos laboratórios científicos de ter falsificado os resultados de sua equipe, causando, nas palavras da imprensa especializada, um verdadeiro "Chernobyl científico!"(11)
Vamos lembrar aqui que a pesquisa científica não pode se valer da liberdade de expressão da imprensa sensacionalista sem acabar, mais cedo ou mais tarde, na filanóia de uma ciência não só privada de consciência, como privada de sentido!
Ontem a bomba atômica, hoje a bomba informacional, amanhã a bomba genética? Quando, em agosto de 2001, o professor Antinori apresentou à Academia Americana de Ciências seu plano para fazer nascer cerca de 200 crianças por clonagem reprodutiva, prometendo aos "pais" crianças perfeitas, mesmo se isso significasse eliminar as imperfeitas, o que é isso senão alucinação demiúrgica? Prova de que, como se fosse necessário, na ciência, como em outros campos, o pior às vezes realmente acontece (12).
Com o evento radioativo de Chernobyl, os organismos geneticamente modificados, a clonagem de seres humanos, etc. — os especialistas científicos agora ocupam o centro das controvérsias desses primeiros dias do terceiro milênio. Daí a criação de agências especializadas em administração de risco, de modo a tentar predizer o improvável e o impensável em questões técnicas e científicas, já que há décadas temos sido indefesos face aos maiores riscos que afetam o equilíbrio biológico e social da humanidade(13). A partir desse ponto de vista em particular, do "acidente do conhecimento", não é tanto o número de vítimas que se destaca como a própria natureza do risco que se corre. Em contraste com os acidentes rodoviários, ferroviários e aéreos, o risco não é mais quantificável e estatisticamente predizível — tornou-se inexpressível e profundamente impredizível, a ponto de causar a emergência de riscos sem paralelos, risco não mais localizado simplesmente na dimensão ecológica, mas na escatológica, já que afeta o poder de antecipação da mente, ou seja, da racionalidade em si(14).
"A ruína da alma", escreveu Rabelais, falando do conhecimento sem consciência — e isso nos dá uma outra perspectiva hoje para abordar os problemas do fim da vida, num período em que a questão da eutanásia da humanidade está na agenda, como conseqüência inevitável de um crepúsculo das bases, o qual parece não suscitar nenhum tipo de apreensão
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Notas
(1)Norbert Wiener, God and Golem Inc. (London/Cambridge, Mass: MIT Press, 1962), p. 69.
2)Nietzsche, The Birth of Tragedy and other writings (Cambridge: Cambridge University Press, 1999).
(3)Ibid.
(4)A love of madness.
(5)Henri Atlan, La Science est-elle inhumaine? (Paris : Éditions Bayard Centurion, Collection ‘Temps d’une Question’, 2002).
(6)Victor Hugo, Things Seen, Madame Swetchine, uma amiga do Frade Henri Lacordaire, era uma cristã-democrata.
(7)In these great times (Manchester: Carcanet, 1984), p. 80.
(8)Werner Heisenberg, Physics and Philosophy.
(9)Kraus, op. cit., p. 56.
(10)Henri Atlan, op. cit.
(11)"Hernamm, docteur es fraude" (Libération, 26 de outubro de 1999),
(12)´ Le savant fou ª (La Croix, 8 de agosto de 2002).
(13)Hatchuel, Armand et al., Experts et in Organizations (Berlin : Walter de Gruyter, 1995).
(14)Depois da estratégia atômica conhecida como "du faible au fort" (do fraco ao forte), que justificava a extensão do conceito de ‘deterrence’ (dissuasão intimidatória) entre os estados com o "force de frappe" francês, em 1990 assistiu-se a uma campanha começada para a estratégia conhecida como "du faible au fou" (do fraco ao louco), como meio de lidar com os problemas da proliferação nuclear. Ver Ben Cramer, Le nucléaire dans tous sés états (Paris: Éditions Alias, 2002.)

26 abril 2007

na busca de soluções para os impactos do aquecimento global, é preciso mudar o modelo!
Ultrapassar a atitude destruidora do modelo capitalista e ultrapassar a atitude adaptativa do modelo de sociedade tradicional é o desafio que se põe para a formulação d e um paradigma futuro.

Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado...Alternativa ao Capitalismo na Era da Globalização

Jacinto Rodrigues (professor catedrático da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto)

Resumo

Não é possível construir uma sociedade de justiça social sem mudança do modelo territorial energético, baseado na sustentabilidade ecológica.A ecologia, como fundamento substantivo da política e da técnica, torna-se essencial para a alternativa ao paradigma do capitalismo na fase da globalização.

Palavras-chave:
Desenvolvimento ecologicamente sustentado
Ecodesenvolvimento
Eco-ciência planetária

Mesmo para o cidadão comum, de hoje, é uma evidência constatar a evolução do capitalismo e reconhecer a especificidade desta etapa que se designa de globalização.Porém, a questão essencial é saber se a natureza do sistema capitalista mudou.
a) Será que desapareceram a exploração, dominação e as injustiças sociais que advêm desse modelo social?
b) Encontrou este modelo capitalista um processo de conserto dos seus antagonismos, inerentes ao seu processo de funcionamento?
c) Que ocorreu em relação à capacidade de resposta dos grupos sociais explorados e dominados, aos novos processos de economia transnacionalizada na sua nova fase do capitalismo financeiro, “financiarização”, de cibernetização tecnológica, “informatização” e alargamento manipulatório “mediatização”? (AMIN 1997)

No estado atual, a etapa da globalização alargou a economia de mercado para uma fase cada vez mais grave para com o equilíbrio da biosfera. O valor de uso dos produtos tornou-se presa de interesses financeiros dominantes. O oligopolismo, ou seja, o capital financeiro sobrepôs-se à lógica de investimentos produtivos. A geopolítica do capital transnacionalizado impôs modelos sociais/militares e tecnológicos mundializados.A generalização de uma tecnologia que produza um antagonismo crescente em relação à biosfera.Esse antagonismo crescente revela-se essencialmente pelo fato de que este modelo tecnológico funciona como uma predação exterminadora dos bens planetários criando simultaneamente resíduos superiores à reciclagem de que dispõe a biosfera.Os eco-sistemas são violentados pelo alargamento de uma tecnologia produtora de esgotamento energético e matérias-primas, ao mesmo tempo que gera lixos tóxicos.

A generalização desse antagonismo capitalismo versus natureza, acompanha e agrava outros antagonismos essenciais. Cresce o fosso ente os grupos cada vez mais reduzidos, detentores do meios de dominação, produção e alienação e o resto da sociedade que, por sua vez, se decompõe em grupos sociais integrados e outros excluídos.Cresce o fosso entre regiões onde o crescimento se realizou à custa da periferia despojada dos seus próprios meios naturais de subsistência.

Por outro lado, ocorrem antagonismos também entre os próprios detentores do capital porque a concentração e a concorrência inerente ao modelo mercantil acentua rivalidades em torno da conquista do poder dominante. A concentração faz-se através do aniquilamento dos mais fracos que têm de se sujeitar a essa geo-estratégia de concentração.O modelo tecnológico, aparece com uma lógica de produtivismo quantitativo que insinua um progresso social. A tecno-ciência mecanicista/positivista (sem uma base ecológica e assente na energia fóssil e na poluição) constitui a trama essencial da produção.

Com efeito, dos transportes à agro-indústria, o modelo tecno-científico hegemoniza o tipo de crescimento da economia capitalista.O sistema de ensino do Estado, privado ou empresarial, constitui um pilar de reprodução do próprio sistema. A socialização cultural é substituída pela institucionalização escolar. Esses referentes paradigmáticos interferiram na estrutura cognitiva, criando e refletindo uma concepção de ciência e de cultura. Os “epistemes” são produzidos e reproduzidos nesta “grelha de interpretação”(WALLACE 1963) que interessem a manutenção social.

A organização territorial consolida a integração social de maiorias e exclusão de minorias não adaptativas.A concentração urbana caracteriza esse habitat alheio do eco-sistema. Mas a organização territorial desta fase de globalização tem gerado dispositivos topológicos (FOUCAULT, 1976)) que constituem formas de integração e de dominação cada vez mais sofisticadas.

A maquiagem formal, a espetacularidade das edificações, escondem adestramentos comportamentais das populações e marcam com geo-estratégias complexas, a reprodução alargada da força de trabalho, o domínio manipulatório e/ou compulsivo de hábitos (BOURDIEU-PASSERON, 1964)), de formas de vida e de consumo.

Durante o processo da mundialização da economia capitalista, através das formas coloniais ou neo-coloniais, as sociedades tradicionais de economia de subsistência apresentaram, e apresentam ainda hoje, resistências à imposição desse modelo capitalista, social, tecnológico, territorial e educativo.Essas sociedades tradicionais não têm atividades puramente económicas. A caça e a agricultura são atividades familiares e comunitárias. Como refere Polanyi,(POLANYI, 1980)) os princípios dessas sociedades vernaculares são formas de reciprocidade que estabelecem um tecido de obrigações mútuas estreitando os laços entre os membros da comunidade. (Goldsmith, 1995)A tecnologia e o habitat das sociedades vernaculares constituem as formas de estar duma sociedade em busca da auto-suficiência, que obedece às imposições do nicho ecológico em que a comunidade se insere.

O processo educativo na sociedade, confunde-se com a socialização, vigorando o processo de adaptação à comunidade e ao eco-sistema de que são dependentes.O processo colonial e neo-colonial instaura-se essencialmente pelo sistema tecnológico e pelos novos dispositivos territoriais. São estes elementos fortes que facilitam a “pilhagem” e produzem a catástrofe das populações nativas.

O habitat e a tecnologia tradicionais, não produziam esgotamento dos bens naturais. Os detritos eram reciclados pelo ecosistema local.A transmissão de doenças era menos fatal nas comunidades isoladas do que em populações concentradas e em situações degradadas das aglomerações urbanas.

As relações de economia de mercado vieram acelerar a desintegração dos ecosistemas pois os valor de uso ao ser substituído por valor de troca, provocou a dilapidação das florestas, aumentou a desertificação e intensificou processos de concorrência que levaram a conflitos étnicos e às guerras.

Ao estabelecermos estas constatações sobre as sociedades vernaculares não queremos, contudo, considerá-las isentas de limitações e portanto não é nosso ensejo apresentá-las como o paradigma alternativo ao modelo técnico-científico do capitalismo.As ideologias colonial e neo-colonial esforçaram-se em tecer juízos de valor sobre as sociedades vernaculares, querendo demonstrar a supremacia do modelo cultural e civilizacional dos países de economia dominante. Foi o pretexto para legitimarem a colonização. Foi e é o discurso ideológico dominante.Quisemos caracterizar a situação das sociedades vernaculares mostrando como as sociedades colonizadoras, contribuíram para o desequilíbrio entre o homem e a biosfera.O que se pretende nesta comunicação é formular uma decifração ecológica dos paradigmas entre essas sociedades, que ultrapasse a mera análise “económica”. Por isso formular uma alternativa significa ultrapassar os quadros referenciais do paradigma científico e moderno. Significa também ultrapassar antigos paradigmas em que a sujeição da humanidade ao envolvimento ecosistémico era quase total.

Ultrapassar a atitude destruidora do modelo capitalista e ultrapassar a atitude adaptativa do modelo de sociedade tradicional é o desafio que se põe para a formulação dum paradigma futuro.

Entre destruição e sujeição existe a possibilidade de uma sociedade capaz de integrar os ecosistemas de um modo activo, de maneira a tornar mais conscientes as relações dos homens com os seres vivos e com o biótopo.O alargamento da consciência planetária, o aparecimento de propostas ecotécnicas (energias renováveis e uma produção com resíduos recicláveis) e ainda o surgimento das novas formas de organização territorial ecologicamente sustentada, permitem apontar como possível, esta “utopia” social, baseada no desenvolvimento ecologicamente sustentado.

Para isso há que encarar as soluções para os antagonismos sociais mas também formular, simultaneamente, respostas aos conflitos na biocenose e entre a biocenose e o biótopo.Não existem portanto, soluções político-económicas em estrito senso. Política e economia enquadram-se numa eco-política mais geral, como seja a gestão do próprio planeta. Em última instância é de uma eco-sofia em processo a que teremos de recorrer para esta hipótese alternativa de paradigma.

A história da humanidade aparece apenas como um processo parcelar duma mais vasta aventura planetária. No entanto, para a humanidade, as experiências já vividas nos diferentes modos de produção, nos diversos complexos tecnológicos e energéticos, nos diversos paradigmas político-filosóficos, permitem experiência e teoria para o desenvolvimento futuro.

As aspirações por uma sociedade mais justa e solidária, ficaram assinaladas ao longo da história, por grandes movimentos de libertação. Estes movimentos sociais, só de uma forma vaga e às vezes paradoxal, referenciaram a problemática ecológica.

Essas aspirações confundiram-se, umas vezes, com o mimetismo passivo à mãe terra, outras vezes, com o grito Prometaico, portador da sociedade industrial. Outras vezes ainda, ao contrário, orientaram-se para uma sabotagem do surto tecno-científico do sistema fabril.Com o advento da teoria ecológica, reformulam-se os quadros da ciência positivista e das ideologias sociais. Reencontramos proximidades entre a geo-cosmogonia mágica nativista e as revelações duma complexidade holística da teoria ecológica.

Mas há diferenças qualitativas no alargamento da consciência planetária e na capacidade de controle da humanidade para o equilíbrio ou desequilíbrio entre a organização social e a biosfera.Se, através da tecnociência se conseguiram autênticos massacres na biosfera, criando a poluição generalizada, a devastação das florestas, a desertificação dos solos, a contaminação das águas, a partir da investigação eco-técnica é possível a produção de protótipos de energias renováveis que não esgotem os bens naturais nem poluam o planeta.

A evolução do conhecimento nas ciências do território, permite a implantação de novos habitats integrados no ecosistema.O habitat, território, desenvolvimento, bioagricultura, ecotécnica, produção e reciclagem, são corolários sistémicos para um desenvolvimento ecologicamente sustentado.É nesta configuração territorial e com estes novos dispositivos eco-tecnológicos que se podem propiciar novos comportamentos e atitudes solidárias mais consentâneas com as aspirações de justiça social.

Estes lugares matriciais podem assim, facilitar uma socialização solidária, uma eco-territorialização e uma eco-técnica imprescindíveis para a concretização desta utopia realizável.Esta utopia não é um “modelo”. É um processo de mudança alternativa à sociedade tradicional de subsistência e à sociedade de globalização do capitalismo neo-liberal.

No terreno prático, o que se pretende, neste artigo, é defender o eco-desenvolvimento (SACHS, 1995) como alternativa para qualquer das sociedades. Qualquer que seja a etapa de crescimento, terá que ter uma opção tecnológica e territorial ecologicamente sustentável que possa auferir experiência prática, teórica e científica da humanidade.As sociedades vernaculares ou tradicionais, têm uma proximidade material das preocupações ecológicas. Mas, ao mesmo tempo, encontram-se longe das opções reflexivas que podem garantir pela eco-técnica actual, uma melhoria das tecnologias apropriáveis, tradicionais. Contudo, nas sociedades do capitalismo global, será necessária a reconversão da tecnociência à ecotécnica.

Terá que surgir uma “medicina planetária” (LOVELLOCK, 1998) capaz de curar as mazelas do crescimento produtivista.Cresceram os perigos gerados pelo modelo de crescimento. A vida cotidiana dos cidadãos é cada vez mais marcada pelos desastres ecológicos, quer sejam alimentares quer sejam climatéricos.Há cada vez mais movimentos que tomam consciência planetária desses perigos e mais claramente surgem alternativas concretas no domínio da eco-técnica, da organização territorial e do modo de vida. São experiências exemplares que tendem a multiplicar-se.Novas formas organizativas, como redes não hierarquizadas onde a unidade se estabelece pelo direito à diferença, despontam em todos os países.
 
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