SALAS DE CURA
arquiteta Annamaria Pires
projetos e consultorias: ao@arquiteturaorganica.com.br
O que são e para que instalar?
Faixa 01... Nestes tempos... 3'12 “Como pode o individuo manter a sua sanidade física, mental e emocional, nestes tempos acelerados de informação e tecnologia?"
Faixa 02... Salas de Cura...4'23 “Uma zona de estabilidade onde o individuo é convidado a conectar-se consigo mesmo, diariamente, distanciando-se, temporariamente, do caótico envolvimento com os estímulos do mundo."
Faixa 3 ... A evolução nos programas arquitetônicos das residências . Transhumanismo . Ubiquitous City (U-City)...6’26 "Um novo ser”... talvez biônico, ciborg, transhumano...“Novas Cidades e ambientes”... ambientes ubíquos, onde toda tecnologia de informação está aplicada e todos os sistemas estão interligados.“Novas funções e novas relações” ... surge a necessidade de criação das salas de auto-cura _ um espaço de trégua para o indivíduo, uma espécie de ‘armadura sensorial’ para minorar os impactos e estímulos sensoriais excessivos do meio ambiente.
Transhumanismo . video 4'
http://transhumanism.org/images/uploads/transflash.swf
“Uma zona de estabilidade”... Ambientes serenos e tranqüilos que se contraponham à ameaça da superestimulação, dos elevados índices de transitoriedade, diversidade, novidade e ao desgaste das tomadas de decisão contínuas.
Faixa 4...Como podem ser estas Salas de Cura?...3'30
Faixa 05...Uma experiência...4'32 “Criar mentalmente sua Sala de Cura”...e centrado no aqui e agora permitir que a sua vida esteja viva, que a consciência perceba melhor a si e a suas circunstâncias, para melhor agir sobre elas.
07 setembro 2009
03 setembro 2009
Nanotecnologia na Arquitetura
nano.gov The National Nanotechnology Initiative (NNI) is a federal R&D program in the USA that has been established to coordinate multi-agency efforts in nanoscale science, engineering, and technology.
nanobuildings.com Is a welcome resource for architects. It provides technical information about advanced technology facilities for nanotech research and development, and includes relevant information about the design and construction of such projects.
yeadon.net Peter Yeadon’s leading research on the architectural implications of nanotechnology. He is a New York City architect that envisions new applications for nanotechnology that leap beyond architecture.
housesofthefuture.com.au The University of Technology Sydney house of the future number 6 will present nanotechnology research from around the world. Its architecture will showcase both commercially-available products, and prototypes of recent research into materials science.
iop.org What is Nanotechnology? by the Institute of Physics.
nanowerk.com Ten things you should know about nanotech.
nanotech-now.com One of the best nanotechnology glossaries available online.
nanoword.net A nanotechnology encyclopedia focusing on educating the general public.
imm.org The Institute for Molecular Manufacturing conducts and supports research on molecular manufacturing.
foresight.org The Foresight Nanotechnology Institute is the leading think tank on nanotechnology.
nanoethics.org The Nanoethics Group is a non-partisan and independent organization that studies the ethical and societal implications of nanotechnology.
nanotechproject.org While not comprehensive, this inventory gives the public the best available look at the hundreds of nanotechnology-based consumer products currently on the market.
understandingnano.com The Understanding Nanotechnology website is dedicated to providing clear and concise explanations of nanotech applications in areas such as energy, medicine, and consumer goods.
Nanoarchitecture.net propõe-se a informar arquitetos e designers sobre nanotecnologia. O site posta artigos sobre desenvolvimentos emergentes em nanotecnologia que podem revolucionar o projeto e caracterizar os trabalhos possíveis em nanotecnologia.
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30 agosto 2009
. U-CITY 'UBIQUITOUS CITY' .
a cidade do futuro está em construção na Coreia do Sul!
Danilo Amoroso
New Songdo é uma utopia para uns, um sonho para outros. Veja neste artigo como o projeto desta cidade é ambicioso.
Imagine que você está em uma casa com sensores de pressão no chão que acionam ajuda automaticamente no caso de uma queda. Ou então, no seu quintal, uma lixeira identifica quando uma garrafa está sendo reciclada e recompensa o dono da residência por isso. Consegue imaginar uma cidade onde uma infinidade de serviços pode ser executada com o celular?
Estes são apenas alguns dos mais básicos atrativos de New Songdo, uma cidade que já está em construção na Coreia do Sul. A inauguração está prevista para o ano de 2015. O planejamento da cidade é liderado por John Kim – ex-projetista- chefe do Yahoo! – e reúne, no mesmo lugar, um pólo econômico, sustentável, tecnológico, confortável e totalmente planejado. Tudo se junta no que promete ser a comunidade mais dinâmica, vibrante e digitalizada de todo o planeta.
New Songdo é uma utopia para uns, um sonho para outros. Veja neste artigo como o projeto desta cidade é ambicioso.
Imagine que você está em uma casa com sensores de pressão no chão que acionam ajuda automaticamente no caso de uma queda. Ou então, no seu quintal, uma lixeira identifica quando uma garrafa está sendo reciclada e recompensa o dono da residência por isso. Consegue imaginar uma cidade onde uma infinidade de serviços pode ser executada com o celular?
Estes são apenas alguns dos mais básicos atrativos de New Songdo, uma cidade que já está em construção na Coreia do Sul. A inauguração está prevista para o ano de 2015. O planejamento da cidade é liderado por John Kim – ex-projetista- chefe do Yahoo! – e reúne, no mesmo lugar, um pólo econômico, sustentável, tecnológico, confortável e totalmente planejado. Tudo se junta no que promete ser a comunidade mais dinâmica, vibrante e digitalizada de todo o planeta.
O conceito de U-City
New Songdo é uma tentativa de colocar na prática o conceito de Ubiquitous City (U-City), traduzido livremente como cidade ubíqua. Um ambiente ubíquo é aquele onde toda tecnologia de informação está aplicada e todos os sistemas estão interligados. Esta conexão pode ser feita de diferentes maneiras, desde simples redes sem fio até identificação por frequência de rádio.
New Songdo é uma tentativa de colocar na prática o conceito de Ubiquitous City (U-City), traduzido livremente como cidade ubíqua. Um ambiente ubíquo é aquele onde toda tecnologia de informação está aplicada e todos os sistemas estão interligados. Esta conexão pode ser feita de diferentes maneiras, desde simples redes sem fio até identificação por frequência de rádio.
Localização e habitantes
Uma vida totalmente high-tech
No trânsito, as condições de tráfego podem ser determinadas, indicando a possibilidade de congestionamentos e recomendando rotas alternativas. Áreas de estacionamento são monitoradas e os motoristas são informados sobre a quantidade de vagas disponíveis e a localização delas. As ruas serão monitoradas por circuitos fechados de câmeras.
É importante ressaltar que ainda não se sabe quais tecnologias estarão, de fato, presentes na cidade. Mas há uma promessa repetida já há alguns anos pelos planejadores do distrito: o uso máximo da tecnologia RFID, ou seja, identificação por radiofrequência. É este tipo de tecnologia, por exemplo, que identifica uma garrafa de vidro depositada adequadamente para reciclagem e recompensa quem o fez.
Segundo John Kim, New Songdo oferece a proposta de ser uma porta de entrada para serviços. Parceiros do distrito testarão serviços para o mercado sem a necessidade de construir nada. Serviços que exigem, por exemplo, acesso a dados via rede sem fio. A Coreia sempre se destacou em tecnologias de telefonia celular. É o terceiro maior mercado da Ásia em número de assinantes e lá se encontram as mais avançadas redes 3G. O índice de banda larga é o maior do mundo. A Coreia quer continuar a tendência com um sistema extremamente avançado de RFID. Quase U$ 300 bilhões serão investidos em um centro de pesquisas sobre a tecnologia no distrito.
Segundo John Kim, tudo começa com um smart-card que pode ser usado para diversas coisas, desde abrir a porta de casa até pagar por serviços como metrô, estacionamento, cinema, empréstimo de uma bicicleta pública, enfim, uma infinidade de utilidades. A chave do smart-card é anônima, sem nenhuma relação com a identidade do portador e pode ser facilmente cancelada em caso de roubo. Neste caso, a trava da porta de uma casa é resetada.
Outra possibilidade do uso deste tipo de tecnologia é carregar diversas informações, como por exemplo o histórico médico, em um celular. Essas informações podem ser usadas para pagar medicamentos prescritos em uma farmácia.
Fato é que as possibilidades de uso de RFID são muitas. A infraestrutura do distrito será como uma plataforma de teste para novas tecnologias que poderão ou não servir como referência para metrópoles de todo mundo.
Ainda há a dúvida sobre o sucesso ou não de uma cidade inteiramente planejada, mas é inevitável que a RFID passe por um teste em larga escala, assim como tecnologias e dispositivos com sensores.
É importante ressaltar que ainda não se sabe quais tecnologias estarão, de fato, presentes na cidade. Mas há uma promessa repetida já há alguns anos pelos planejadores do distrito: o uso máximo da tecnologia RFID, ou seja, identificação por radiofrequência. É este tipo de tecnologia, por exemplo, que identifica uma garrafa de vidro depositada adequadamente para reciclagem e recompensa quem o fez.
Segundo John Kim, New Songdo oferece a proposta de ser uma porta de entrada para serviços. Parceiros do distrito testarão serviços para o mercado sem a necessidade de construir nada. Serviços que exigem, por exemplo, acesso a dados via rede sem fio. A Coreia sempre se destacou em tecnologias de telefonia celular. É o terceiro maior mercado da Ásia em número de assinantes e lá se encontram as mais avançadas redes 3G. O índice de banda larga é o maior do mundo. A Coreia quer continuar a tendência com um sistema extremamente avançado de RFID. Quase U$ 300 bilhões serão investidos em um centro de pesquisas sobre a tecnologia no distrito.
Segundo John Kim, tudo começa com um smart-card que pode ser usado para diversas coisas, desde abrir a porta de casa até pagar por serviços como metrô, estacionamento, cinema, empréstimo de uma bicicleta pública, enfim, uma infinidade de utilidades. A chave do smart-card é anônima, sem nenhuma relação com a identidade do portador e pode ser facilmente cancelada em caso de roubo. Neste caso, a trava da porta de uma casa é resetada.
Outra possibilidade do uso deste tipo de tecnologia é carregar diversas informações, como por exemplo o histórico médico, em um celular. Essas informações podem ser usadas para pagar medicamentos prescritos em uma farmácia.
Fato é que as possibilidades de uso de RFID são muitas. A infraestrutura do distrito será como uma plataforma de teste para novas tecnologias que poderão ou não servir como referência para metrópoles de todo mundo.
Ainda há a dúvida sobre o sucesso ou não de uma cidade inteiramente planejada, mas é inevitável que a RFID passe por um teste em larga escala, assim como tecnologias e dispositivos com sensores.
Outros atrativos da cidade
A sustentabilidade
O transporte
Segundo os desenvolvedores do projeto, New Songdo terá como objetivo diminuir o uso de veículos automotivos, considerado grande responsável pela emissão de poluentes na Ásia. O transporte pelo distrito, incluindo metrô e ônibus, fornecerá acesso para residentes e visitantes. As paradas de ônibus estarão localizadas sempre a menos de 500 metros de todos os prédios residenciais ou comerciais. A extensão da linha de metrô de Incheon também ficará próxima de todas as áreas residenciais.
Nas ruas, 5% do espaço para estacionamento de cada quadra será destinado para veículos econômicos e com menor emissão de poluentes. Quadras comerciais terão mais 5% das vagas para carros com carona.
O sistema de estacionamento será subterrâneo ou coberto para minimizar o efeito de calor urbano e deixar mais espaço aberto para pedestres. Garagens terão integração com infraestrutura necessária para carregamento de veículos elétricos com objetivo de facilitar a transição para transportes de pouca emissão.
Uma rede de 25 km de pistas para bicicletas facilitarão e incentivarão o uso de transportes livres de carbono. Pistas para bicicletas serão extensamente disponibilizadas e será possível até mesmo alugar bicicletas públicas. Essas pistas serão adjacentes a todas as ruas principais.
No canal, táxis aquáticos serão implementados. Talvez não tão românticos quanto os de Veneza, mas eficientes ecologicamente.
Songdo é o que os planejadores chamam de “aerotrópolis”. Uma ponte com inauguração prevista para outubro de 2009 ligará o distrito ao Aeroporto Internacional de Incheon em 15 minutos, podendo ser acessado também via metrô ou ônibus. Este aeroporto é um dos maiores do mundo, tanto em número de passageiros como em volume de carga. Incheon é o caminho para um terço da população do planeta em um voo de três horas e meia.
Um pólo econômico
Críticas à proposta
As críticas ao planejamento de New Songdo e o ceticismo em relação às promessas são grandes, desde a desconfiança sobre a real eficiência de tudo que está prometido até as preocupações com a privacidade. O U-City é um conceito que agradou os coreanos, mas o ocidente demonstra outra visão sobre a interação extrema entre homens e a tecnologia. Afinal, se é possível identificar que uma pessoa reciclou uma garrafa de vidro ou que ela caiu em casa, o que mais é possível deduzir ou descobrir através de chips?
Não somente em relação a esta cidade em construção, mas preocupações com privacidade são inerentes ao uso de chips para carregar informações e dados pessoais. Experiências tencológicas para uns, invasão de privacidade para outros. É fato que muitas das tecnológicas que serão colocadas à prova não serão desenvolvidas em Songdo, mas sim virão de outros países onde há obstáculos sociais para a implementação delas.
O próprio projeto da cidade gera ceticismo nos críticos. No planejamento, tudo é perfeito, tudo vai funcionar, tudo será diferente e este será o exemplo a ser seguido no mundo todo. Na prática... bem, só saberemos, no mínimo, quando a cidade estiver completa. No momento, escritórios do complexo empresarial estão abertos e em funcionamento, mas este é apenas o começo.
Se New Songdo é uma utopia de U$ 25 bilhões, ainda não se sabe, mas o projeto está andando. Algumas partes do distrito já funcionam, a ponte que liga o aeroporto deve ser concluída em outubro próximo e muitos prédios já estão erguidos.
Não somente em relação a esta cidade em construção, mas preocupações com privacidade são inerentes ao uso de chips para carregar informações e dados pessoais. Experiências tencológicas para uns, invasão de privacidade para outros. É fato que muitas das tecnológicas que serão colocadas à prova não serão desenvolvidas em Songdo, mas sim virão de outros países onde há obstáculos sociais para a implementação delas.
O próprio projeto da cidade gera ceticismo nos críticos. No planejamento, tudo é perfeito, tudo vai funcionar, tudo será diferente e este será o exemplo a ser seguido no mundo todo. Na prática... bem, só saberemos, no mínimo, quando a cidade estiver completa. No momento, escritórios do complexo empresarial estão abertos e em funcionamento, mas este é apenas o começo.
Se New Songdo é uma utopia de U$ 25 bilhões, ainda não se sabe, mas o projeto está andando. Algumas partes do distrito já funcionam, a ponte que liga o aeroporto deve ser concluída em outubro próximo e muitos prédios já estão erguidos.
O canal do parque central usará água do mar, economizando milhões de litros de água potável por dia. O consumo de água potável por sistemas de encanamento será reduzido em até 40% dependendo do projeto utilizado. A água de chuvas será utilizada ao máximo devido ao tipo de clima e o padrão de quantidade de chuva da região. Essa água será mais bem aproveitada por telhados especialmente desenvolvidos, os quais também amenizarão o efeito estufa.
Uma instalação movida a gás natural vai fornecer energia limpa e água quente para toda a cidade. As luzes das ruas serão de LED, mais eficientes. Um sistema centralizado de coleta será instalado para coletar lixo seco e molhado, eliminando a necessidade de usar veículos para isso; e 75% do lixo dos materiais de construção de Songdo poderão ser reciclados. Materiais reciclados, além de materiais produzidos ou manufaturados localmente serão utilizados na maior extensão possível.
Cerca de 40% da cidade é de espaço aberto e todas as quadras levam pedestres a estes espaços. Todas as instalações terão, em contrato, determinações para utilizar métodos e oferecer produtos com nenhuma ou pouca emissão de carbono. Fumar será proibido em áreas públicas e prédios comerciais, exceto em áreas especiais para isso.
A Escola Internacional de Songdo tem previsão de ser inaugurada em setembro próximo e promete a melhor educação desde o primário até o ensino médio em inglês a fim de preparar estudantes para faculdades e universidades do mundo todo. Já o Complexo Acadêmico Global Yonsei Songdo será a universidade responsável por pesquisas e desenvolvimento da cidade. A previsão é de que a primeira fase da obra seja concluída em 2010.
A cidade terá atrativos inspirados em grandes pontos turísticos do mundo. O parque central terá o ar de Paris e do Central Park, em Nova Iorque. Já um canal aquático será inspirado em Veneza e a arquitetura do centro de convenções lembrará a Sydney Opera House, na Austrália.
Um campo de golfe desenhado por Jack Nicklaus também está em construção com planos para a realização de grandes eventos do esporte, incluindo uma etapa do circuito PGA.
No complexo econômico, uma torre de 68 andares será a mais alta e o centro empresarial mais avançado da Coreia. O Centro de Convenções tem enorme espaço interior, também o maior da Coreia.
Culturalmente, o Centro de Artes de Incheon oferece um complexo com hall para shows e óperas, museu de arte asiática contemporânea, conservatório de música, escola de design e uma biblioteca.
O Hospital Internacional da cidade de Songdo promete trazer a última palavra em diagnósticos médicos e tecnologias de tratamento. Os parceiros incluem Microsoft e 3M para o desenvolvimento desse centro médico.
O site oficial da cidade mostra uma perspectiva extremamente otimista: “Songdo vai oferecer uma qualidade de vida incomparável englobando todo atrativo cultural, tecnológico e recreacional, incluindo um hospital de primeira classe, uma escola internacional, um museu, um centro ecológico, parque central, campo de golfe e uma miríade de opções de comércio que incluem um shopping."
Por exemplo: em uma casa de um morador idoso, o chão terá sensores de pressão capazes de interpretar uma queda. No momento do acidente, a emergência é acionada automaticamente. Mesmo que a vítima esteja inconsciente, o socorro é chamado.
Em outras cidades ubíquas da Coreia, outros exemplos do que pode ser feito são descritos com um pouco mais de clareza. No caso de Dangton, informações sobre a qualidade da água, atmosfera e lixo, por exemplo, podem ser coletadas para análise a fim de determinar as condições sanitárias do ambiente.
Na inauguração oficial, New Songdo terá 65 mil habitantes. Candidatos já estão na fila. O primeiro bloco com 2600 apartamentos foi posto à venda em 2006 e a procura foi de oito pessoas para cada apartamento. Outros 1000 apartamentos devem ser colocados à venda ainda este ano, e todos devem ser vendidos mesmo em tempos de crise. Além dos habitantes, 300 mil pessoas trabalharão na região.
Em outras palavras, um ambiente ubíquo pode ser usado facilmente, convenientemente e com segurança por qualquer pessoa a qualquer hora e em qualquer lugar. E, é verdade, um ambiente ubíquo também pode ser chamado de onipresente. Casas, hospitais, empresas e outras esferas compartilham dados. Computadores e chips estão presentes em residências, ruas e escritórios.
New Songdo é a cidade ubíqua mais avançada do mundo sendo construída do zero. Não é a primeira cidade ubíqua da Coreia do Sul, no entanto. Dongtan, por exemplo, já oferece diversos serviços interligados de um ambiente. Mas New Songdo é considerada diferente pela aplicação do U-City em toda cidade e pelo aspecto global de negócios, uma vez que a cidade quer atrair companhias do mundo todo para a consolidação de um avançado complexo empresarial.
19 abril 2009
A potência do imaginário de 'Neuromancer' nas origens da Cibercultura
Adriana Amaral
Colapso do futuro no presente. Pós-humanidade. Obsolescência do humano. Globalização. Megalópoles decadentes e sombrias. Pervasividade tecnológica cotidiana. Orientalização do Ocidente. Domínio ostensivo das megacorporações. Espetáculo e consumo. Vigilância eletrônica. Próteses e extensões. Território informacional. Roupas de couro e vinil preto. Fusão do sintético com o orgânico. Faça Você Mesmo. Biotecnologias. Subculturas juvenis. Hackers. Matrix. Linguagem e gírias das ruas. Eu poderia continuar essa lista e ainda assim não encerraria a discussão sobre os efeitos teórico-conceituais, sociológicos, antropológicos e filosóficos que Neuromancer catalisou e constituiu a partir de seu lançamento na década de 1980.
Com 'Neuromancer', William Gibson rompeu as barreiras entre a chamada literatura tradicional e o gueto do fandom típico da ficção-científica norte-americana, que permeou os sonhos de muitos autores de gerações anteriores: sci-fi sem fronteiras.
(...) No recém-nascido, obscuro e transdisciplinar campo da cibercultura, a inegável e inseparável relação cultura e tecnologia, e as próprias representações da tecnologia em todos os formatos midiáticos da cultura contemporânea, em suas interfaces com as teorias literárias e culturais pós-modernas, são compreendidas como as redes de conexão entre humanos e máquinas.
(...) 'Neuromancer' é a primeira parte do projeto de uma trilogia – a segunda e a terceira partes, respectivamente 'Count Zero' e 'Mona Lisa Overdrive', lançados pela Aleph - de um designer de palavras habilidoso que utiliza imagens, descrições e
sensações narrativas como ferramenta de observação da sociedade contemporânea e que soube perceber a efervescência de um período histórico visceral – o início dos anos 1980 - no qual a cultura da microinformática começou a se popularizar, desenhado a partir de diversas contraculturas – de um 1968 que volta em looping eterno - e subculturas nas quais os personagens mergulham.
(...) Em vez de descrever e acreditar num mundo perfeito, um paraíso tecnológico, com computadores garantindo o bem-estar e ajudando na resolução de problemas das pessoas, 'Neuromancer' nos aponta o lado negro que os avanços podem ocasionar - megacorporações substituindo a soberania dos governos, trazendo toda a sorte de corrupção, aniquilação social e das relações interpessoais.
(...) Assim, o impacto e a atração de 'Neuromancer' perduram em um âmbito que extrapola o literário e entra na areia movediça dos fluxos de influência e das representações na cultura pop, tendo se disseminado em comerciais publicitários, histórias em quadrinhos, games, filmes, moda, música e, até mesmo, no comportamento das gerações que já nasceram em um mundo científico-ficcional e no qual as distinções entre a vida real e virtual são cada vez mais tênues e se confundem a cada momento, para além do bem e do mal.
Adriana Amaral
Colapso do futuro no presente. Pós-humanidade. Obsolescência do humano. Globalização. Megalópoles decadentes e sombrias. Pervasividade tecnológica cotidiana. Orientalização do Ocidente. Domínio ostensivo das megacorporações. Espetáculo e consumo. Vigilância eletrônica. Próteses e extensões. Território informacional. Roupas de couro e vinil preto. Fusão do sintético com o orgânico. Faça Você Mesmo. Biotecnologias. Subculturas juvenis. Hackers. Matrix. Linguagem e gírias das ruas. Eu poderia continuar essa lista e ainda assim não encerraria a discussão sobre os efeitos teórico-conceituais, sociológicos, antropológicos e filosóficos que Neuromancer catalisou e constituiu a partir de seu lançamento na década de 1980.
Com 'Neuromancer', William Gibson rompeu as barreiras entre a chamada literatura tradicional e o gueto do fandom típico da ficção-científica norte-americana, que permeou os sonhos de muitos autores de gerações anteriores: sci-fi sem fronteiras.
(...) No recém-nascido, obscuro e transdisciplinar campo da cibercultura, a inegável e inseparável relação cultura e tecnologia, e as próprias representações da tecnologia em todos os formatos midiáticos da cultura contemporânea, em suas interfaces com as teorias literárias e culturais pós-modernas, são compreendidas como as redes de conexão entre humanos e máquinas.
(...) 'Neuromancer' é a primeira parte do projeto de uma trilogia – a segunda e a terceira partes, respectivamente 'Count Zero' e 'Mona Lisa Overdrive', lançados pela Aleph - de um designer de palavras habilidoso que utiliza imagens, descrições e
sensações narrativas como ferramenta de observação da sociedade contemporânea e que soube perceber a efervescência de um período histórico visceral – o início dos anos 1980 - no qual a cultura da microinformática começou a se popularizar, desenhado a partir de diversas contraculturas – de um 1968 que volta em looping eterno - e subculturas nas quais os personagens mergulham.
(...) Em vez de descrever e acreditar num mundo perfeito, um paraíso tecnológico, com computadores garantindo o bem-estar e ajudando na resolução de problemas das pessoas, 'Neuromancer' nos aponta o lado negro que os avanços podem ocasionar - megacorporações substituindo a soberania dos governos, trazendo toda a sorte de corrupção, aniquilação social e das relações interpessoais.
(...) Assim, o impacto e a atração de 'Neuromancer' perduram em um âmbito que extrapola o literário e entra na areia movediça dos fluxos de influência e das representações na cultura pop, tendo se disseminado em comerciais publicitários, histórias em quadrinhos, games, filmes, moda, música e, até mesmo, no comportamento das gerações que já nasceram em um mundo científico-ficcional e no qual as distinções entre a vida real e virtual são cada vez mais tênues e se confundem a cada momento, para além do bem e do mal.
18 abril 2009
SLOW ATTITUDE . a cultura do 'slow down'
"Slow attitude" está chamando a atenção dos próprios americanos, escravos do "fast" (rápido) e do "do it now!" (faça já!). Portanto, esta "atitude sem pressa" não significa fazer menos, nem ter menor produtividade.
Significa sim, trabalhar e fazer as coisas com "mais qualidade" e "mais produtividade", com maior perfeição, com atenção aos detalhes e com menos stress. Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do prazer de um belo ócio e da vida em pequenas comunidades.
Do "aqui" presente e concreto, em contraposição ao "mundial" indefinido e anônimo. Significa retomar os valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver.
SIGNIFICA UM AMBIENTE DE TRABALHO MENOS COERCITIVO, MAIS ALEGRE, MAIS LEVE, E PORTANTO MAIS PRODUTIVO, ONDE OS SERES HUMANOS REALIZAM, COM PRAZER, O QUE MELHOR SABEM FAZER
É saudável refletir sobre tudo isto. Será que os antigos provérbios: “Devagar se vai ao longe" e “A pressa é inimiga da perfeição" merecem novamente a nossa atenção nestes tempos de loucura desenfreada? Não seria útil e desejável que as empresas da nossa comunidade, cidade, estado ou país, começassem já a pensar em desenvolver programas sérios de “qualidade sem pressa" até para aumentarem a produtividade e a qualidade dos produtos e serviços sem necessariamente se perder “qualidade do ser"?
Significa sim, trabalhar e fazer as coisas com "mais qualidade" e "mais produtividade", com maior perfeição, com atenção aos detalhes e com menos stress. Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do prazer de um belo ócio e da vida em pequenas comunidades.
Do "aqui" presente e concreto, em contraposição ao "mundial" indefinido e anônimo. Significa retomar os valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver.
SIGNIFICA UM AMBIENTE DE TRABALHO MENOS COERCITIVO, MAIS ALEGRE, MAIS LEVE, E PORTANTO MAIS PRODUTIVO, ONDE OS SERES HUMANOS REALIZAM, COM PRAZER, O QUE MELHOR SABEM FAZER
É saudável refletir sobre tudo isto. Será que os antigos provérbios: “Devagar se vai ao longe" e “A pressa é inimiga da perfeição" merecem novamente a nossa atenção nestes tempos de loucura desenfreada? Não seria útil e desejável que as empresas da nossa comunidade, cidade, estado ou país, começassem já a pensar em desenvolver programas sérios de “qualidade sem pressa" até para aumentarem a produtividade e a qualidade dos produtos e serviços sem necessariamente se perder “qualidade do ser"?
12 abril 2009
E-MOTIVE HOUSE
. Ficção ou Realidade?
Mas uma 'casa emotiva' pode ser útil se for construída e testada hoje. A 'casa emotiva' é um caso teste para 'extended reality'. Materiais tradicionais são aumentados com uma infinidade de tecnologia.
. Ficção ou Realidade?Estrutura Programável muda de forma em tempo real .
A 'casa emotiva' é totalmente industrial, flexível em sua programação, desmontável, inovadora, coloca a domótica em outro nivel de projeção que será comumente aplicável num futuro próximo.
Quão inovadora uma construção pode ser? Que utilidade pode haver em se projetar uma residência altamente inovadora como a 'casa emotiva'?
A residência deve ser considerada como um laboratório que toca as relações emocionais entre ela e seus habitantes, entre ela e seus visitantes e entre os elementos da residência em si.
Mas uma 'casa emotiva' pode ser útil se for construída e testada hoje. A 'casa emotiva' é um caso teste para 'extended reality'. Materiais tradicionais são aumentados com uma infinidade de tecnologia.
A construção da casa e os móveis tornam-se programáveis. Tudo muda, exceto a área da cozinha e do banheiro. A forma da 'casa emotiva' é um espaço longo e móvel, e em ambas as pontas situam-se os blocos sólidos da cozinha e do banheiro. O espaço interno pode ser mudado de área de trabalho para área de refeição, área de dormir, etc.
Dez anos atrás isto poderia ser uma fábula, mas atualmente isto já é possível. O espaço pode ser ajustado, tanto em sua forma como no seu índice de informações. Toda combinação do espaço real com uma imagem virtual e /ou uma informação, pode ser possível.
Neste sentido, a casa desenvolverá uma emoção própria, podendo ser um reator ou um ator. A atuação poderá se tornar possível pela interação de uma infinidade de agentes como feixes pneumáticos, músculos de contração e cilindros hidráulicos.
Neste sentido, a casa desenvolverá uma emoção própria, podendo ser um reator ou um ator. A atuação poderá se tornar possível pela interação de uma infinidade de agentes como feixes pneumáticos, músculos de contração e cilindros hidráulicos.
O movimento dos usuários e as mudanças no tempo são registradas por uma diversidade de sensores e são traduzidas pelo cérebro da casa em uma ação.
Desta maneira, os habitantes e os elementos da casa desenvolverão uma lingua comum de modo que possam se comunicar um com o outro.
Estrutura Programável . A estrutura é um tear de tecelagem entre uma estrutura dura e uma estrutura macia. A estrutura dura consiste em feixes de madeira maciços e a estrutura macia em longas câmaras infláveis entre os feixes de madeira. Neste sentido as câmaras podem expandir ou encolher para dar uma forma global à 'casa emotiva'.
A construção total é formatada por uma estrutura espacial de cilindros hidráulicos que agem seguindo ou gerando 'movimentos-forma'.
A construção total é formatada por uma estrutura espacial de cilindros hidráulicos que agem seguindo ou gerando 'movimentos-forma'.
A estrutura dura no exterior é coberta com células fotovoltaicas para gerar eletricidade. Os feixes são conectados uns com os outros com músculos pneumáticos que podem contrair e relaxar. O desafio técnico encontra-se no tear de tecelagem entre os elementos programáveis e a estrutura dura, e na interação entre estes agentes. Todos têm que trabalhar juntos como um rebanho. Os certificados que precisam ser feitos são baseados em algumas regras simples parea congregação do comportamento. As regras matemáticas de comportmaneto são conhecidas mas nunca são aplicadas nas peças estruturais.
Software Multi-player. O Projeto 'Hyperbody', sob a supervisão do professor Kas Oosterhuis, ganhou uma grande experiência com 'resposta emocional para ambientes programáveis'. A interação aqui é construída pelo programa de desenvolvimento do jogo Virtools.
Virtools tem uma versão multi-player que será usada aqui para jogar dentro da casa em tempo real. Os jogadores são os habitantes, as visitas e os elementos. Há também influências externas que podem determinar a interatividade. Não há sempre uma solução quando as influências externas e internas são apresentadas em tempo real no cérebro da casa. A reação será sempre uma complexa interação entre lotes de diferentes fatores. Uma complexa interação já parece como uma emoção. Nós estamos apontando para um desenvolvimento individual do caráter da casa; o experimento implica aprender a viver num ambiente com mente própria.
·Credits
Date: 2002
Site: Rotterdam
Project architect: Prof ir Kas Oosterhuis
Design team: Kas Oosterhuis, Ilona Lénárd, Gon Zifoni
Client: ONL
Date: 2002
Site: Rotterdam
Project architect: Prof ir Kas Oosterhuis
Design team: Kas Oosterhuis, Ilona Lénárd, Gon Zifoni
Client: ONL
Os homens se orgulham de suas realizações e têm todo o direito de se orgulharem. Contudo,parecem ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo, a subjugação das forças da natureza, consecução de um anseio que remonta a milhares de anos, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes. Reconhecendo esse fato, devemos contentar-nos em concluir que o poder sobre a natureza não constitui a única pré-condição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural” (Sigmund Freud, O Mal-Estar da Civilização, 1929).
“Para compreender o papel predominante da técnica na civilização moderna, é preciso, antes de tudo, (...) explicar não apenas a existência de novos instrumentos mecânicos, mas expor como a cultura estava pronta para utilizá-los e deles aproveitar-se amplamente. (...) a mecanização e a arregimentação não são fenômenos novos na história. O que é novo, é o fato que estas funções tenham sido projetadas e encarnadas em formas organizadas que dominam todos os aspectos de nossa existência” ( Lewis Mumford, Técnica e Civilização, 1934).
TECNOTOPIA versus TECNOFOBIA.
O MAL-ESTAR NO SÉCULO XXI
Gustavo Lins Ribeiro / Departamento de Antropologia /Universidade de Brasília
Ciência e tecnologia são herdeiras dos mais poderosos mitos da civilização ocidental, cavalgando promessas de progresso ilimitado, de organização racional da vida social, política e econômica, e de subjugação do mundo social e natural aos desejos e ao planejamento de decision-makers iluminados pelo saber. A formação do par C & T é resultado de complexos processos históricos que confluíram para uma naturalização tão intensa sobre seu papel na vida social, cultural, política e econômica que, hoje, podemos considerar estarmos imersos em uma cultura tecnocientífica. Rótulos como cibercultura fazem prospecções sobre os novos fantasmas e modalidades de vida de que estão prenhes as tecnologias de ponta. Para Arturo Escobar (1994: 214), cibercultura "refere-se especificamente a novas tecnologias em duas áreas: inteligência artificial (particularmente tecnologias de computação e informação) e biotecnologia". A difusão das novas tecnologias traz à luz dois regimes de sociabilidade: a tecnosociabilidade e a biosociabilidade que "encarnam a consciência de que cada vez mais vivemos e nos fazemos em meios tecnobioculturais estruturados por novas formas de ciência e tecnologia" (idem).
A dupla face utópica (paradisíaca) e distópica (apocalíptica) da tecnologia é central para entendermos os dilemas que cada vez mais enfrentaremos. Por um lado, encontramos formulações utópicas apoiadas na maravilha que se levanta da ampliação das qualidades e ações humanas. A tecnotopia, caudatária da ideologia do progresso e de uma visão evolutiva da história da tecnologia (especialmente a partir da Revolução Industrial), é hegemônica e, neste momento de crises de utopias, é, em larga medida, o grande metarrelato salvífico do mundo contemporâneo. Por outro lado, estão discursos distópicos apoiados no terror às forças destrutoras desencadeadas por diversas invenções (controladas por grupos específicos) ou no temor à punição provocada pela manipulação radical da natureza. A tecnofobia, marcada pela desigualdade da distribuição sócio-política-econômica do acesso à tecnologia e por um imaginário onde cohabitam discursos alternativos ou cosmologias mágico-religiosas com seus demiurgos, é, em geral, relegada a um segundo plano, mas, ocasionalmente, sobretudo quando o homem parece querer brincar de Deus, reúne energias com poder normativo e regulatório.
Ciberespaço, organismos engenheirados e ciborgs metaforizam a procura por transcendência tanto quanto são índices de ansiedades culturais do nosso tempo.
O surgimento de novos fetiches e sistemas de poder é levantado por Arthur Kroker e Michael Weinstein (1994) que apontam para o advento do "corpo ligado" (wired body) e daquilo que chamam de a "classe virtual".
Se existe algo que alimenta uma visão evolutiva de aperfeiçoamento constante no tempo, isto é a tecnologia. Não por outro motivo ela é a espinha dorsal da ideologia do progresso. Se a capacidade de intervenção no real será sempre mais elaborada, podemos esperar dilemas cada vez mais complexos. A tensão entre tecnotopia e tecnofobia persistirá e certamente interessará, cada vez mais, a todos. Dentre os muitos desafios que já se apresentam a diversas instituições, o do impacto do avanço científicotecnológico na vida política, cultural, econômica e social, nos corpos, na subjetividade, na natureza, é um dos maiores e crescerá aceleradamente.
“Para compreender o papel predominante da técnica na civilização moderna, é preciso, antes de tudo, (...) explicar não apenas a existência de novos instrumentos mecânicos, mas expor como a cultura estava pronta para utilizá-los e deles aproveitar-se amplamente. (...) a mecanização e a arregimentação não são fenômenos novos na história. O que é novo, é o fato que estas funções tenham sido projetadas e encarnadas em formas organizadas que dominam todos os aspectos de nossa existência” ( Lewis Mumford, Técnica e Civilização, 1934).
TECNOTOPIA versus TECNOFOBIA.
O MAL-ESTAR NO SÉCULO XXI
Gustavo Lins Ribeiro / Departamento de Antropologia /Universidade de Brasília
Ciência e tecnologia são herdeiras dos mais poderosos mitos da civilização ocidental, cavalgando promessas de progresso ilimitado, de organização racional da vida social, política e econômica, e de subjugação do mundo social e natural aos desejos e ao planejamento de decision-makers iluminados pelo saber. A formação do par C & T é resultado de complexos processos históricos que confluíram para uma naturalização tão intensa sobre seu papel na vida social, cultural, política e econômica que, hoje, podemos considerar estarmos imersos em uma cultura tecnocientífica. Rótulos como cibercultura fazem prospecções sobre os novos fantasmas e modalidades de vida de que estão prenhes as tecnologias de ponta. Para Arturo Escobar (1994: 214), cibercultura "refere-se especificamente a novas tecnologias em duas áreas: inteligência artificial (particularmente tecnologias de computação e informação) e biotecnologia". A difusão das novas tecnologias traz à luz dois regimes de sociabilidade: a tecnosociabilidade e a biosociabilidade que "encarnam a consciência de que cada vez mais vivemos e nos fazemos em meios tecnobioculturais estruturados por novas formas de ciência e tecnologia" (idem).
A dupla face utópica (paradisíaca) e distópica (apocalíptica) da tecnologia é central para entendermos os dilemas que cada vez mais enfrentaremos. Por um lado, encontramos formulações utópicas apoiadas na maravilha que se levanta da ampliação das qualidades e ações humanas. A tecnotopia, caudatária da ideologia do progresso e de uma visão evolutiva da história da tecnologia (especialmente a partir da Revolução Industrial), é hegemônica e, neste momento de crises de utopias, é, em larga medida, o grande metarrelato salvífico do mundo contemporâneo. Por outro lado, estão discursos distópicos apoiados no terror às forças destrutoras desencadeadas por diversas invenções (controladas por grupos específicos) ou no temor à punição provocada pela manipulação radical da natureza. A tecnofobia, marcada pela desigualdade da distribuição sócio-política-econômica do acesso à tecnologia e por um imaginário onde cohabitam discursos alternativos ou cosmologias mágico-religiosas com seus demiurgos, é, em geral, relegada a um segundo plano, mas, ocasionalmente, sobretudo quando o homem parece querer brincar de Deus, reúne energias com poder normativo e regulatório.
Ciberespaço, organismos engenheirados e ciborgs metaforizam a procura por transcendência tanto quanto são índices de ansiedades culturais do nosso tempo.
O surgimento de novos fetiches e sistemas de poder é levantado por Arthur Kroker e Michael Weinstein (1994) que apontam para o advento do "corpo ligado" (wired body) e daquilo que chamam de a "classe virtual".
Se existe algo que alimenta uma visão evolutiva de aperfeiçoamento constante no tempo, isto é a tecnologia. Não por outro motivo ela é a espinha dorsal da ideologia do progresso. Se a capacidade de intervenção no real será sempre mais elaborada, podemos esperar dilemas cada vez mais complexos. A tensão entre tecnotopia e tecnofobia persistirá e certamente interessará, cada vez mais, a todos. Dentre os muitos desafios que já se apresentam a diversas instituições, o do impacto do avanço científicotecnológico na vida política, cultural, econômica e social, nos corpos, na subjetividade, na natureza, é um dos maiores e crescerá aceleradamente.
02 abril 2009
A NOVA CIVILIZAÇÃO DO TERCEIRO MILÊNIO
O novo princípio é ordem. Não se trata aqui de questões puramente teóricas, de remotos e abstratos problemas filosóficos que não nos dizem respeito. Trata-se da superação de nossa dor e da ciência que se propõe superá-la e vencê-la; trata-se de enormes vantagens utilitárias compensadoras do esforço e do tormento da mortificação a que o homem está submetido; trata-se de, finalmente, ensinar e viver, não mais como crianças loucas, mas como adultos cheios de sabedoria. Trata-se de ver com clareza tudo quanto se relaciona com nosso destino humano, de obter resposta que esgote todos os porquês e todos os problemas que nos dizem respeito, e de comportarmo-nos, desse modo, com pleno conhecimento da conseqüência das nossas ações. Loucura continuar a atirar assim ao acaso e a embater-se continuamente contra reações que estupidamente desejamos e nos açoitam até sair sangue. Chegou a hora de compreender o delicado mecanismo dos fenômenos e de civilizarmo-nos, não de brincadeira como até agora se fez; não mais na superfície apenas, mas em profundidade também; não só na forma, mas na substância; tanto nos meios como no fim; na matéria e no espírito. Entramos na fase construtiva, a vida colhe seus valores positivos e, nos ânimos batidos pela dor, os reconstrutores encontram o terreno preparado para o trabalho. O espírito, que através de tanta destruição se libertou de muitas das incrustações e escórias da matéria, pode finalmente dizer, depois de superado o profundo desmoronamento da onda descendente do materialismo: eu sou, esta é minha vez, posso criar. E a vida, que parecia prostrada e morta, torna a soltar mais forte e mais para o alto, seu eterno grito de juventude. Vamos agora transportar para o plano humano da ação essa massa de conceitos, transformar em concreto impulso construtivo a luminosidade desse imponderável, isto é, vamos transformar o princípio em ação, mas ação que as premissas cósmicas iluminem, sustentem e justifiquem. Trata-se de dar forma bem mais próxima e tangível, mais particular, porém mais real (porque mais aderente à hora histórica), mais humana, atual e prática, aos princípios universais de um tratado universal. Nossa humanidade é primitiva: riquíssima de energia, mas pobre de sabedoria; extremamente dinâmica e extremamente ignorante. É fato conhecido. O homem é o que é e está bem onde está. As dores que o gravam lhe são proporcionais à sensibilidade e à ignorância. As provas que encontra e deve superar são as da sua classe, do seu nível evolutivo, adaptadas a suas capacidades. Para sermos práticos e compreensíveis devemos permanecer ainda nessa atmosfera, com o objetivo preciso, porém, de levar-lhe a luz que lhe falta. Um dia se compreenderá que vale o que somos, queremos e sabemos fazer e, portanto, merecemos, e não o que possuímos. O objetivo hoje é possuir e o homem é o meio; no entanto, o possuir é meio e o homem, fim. O efeito é dado pela causa; toda forma de vida tem as características derivadas das de seu germe. Assim, todo fenômeno se plasma e se desenvolve diversamente segundo a natureza das suas forças determinantes. Só quando o homem começar a compreender esses princípios tão elementares poderá começar a chamar-se civilizado. ... Trata-se de progredir e sabemos que a evolução é processo de progressiva harmonização... ... Se o homem seguisse a Lei, esta naturalmente proveria todas as suas necessidades.... O que mais vale não é possuir, na forma exterior, mas na interior; não nos efeitos, materiais, mas nas causas, espirituais; não nas garantias legais, mas nas nossas capacidades e qualidades. A única verdadeiramente segura é essa riqueza inalienável que não pode ser roubada porque é inseparável da personalidade, dada pelas nossas próprias qualidades. É segura e duradoura porque é a única verdadeira, honesta, justa, em equilíbrio com as forças da vida. Isso deriva das próprias qualidades, é filho do mérito porque as qualidades só com o próprio trabalho se conquistam e nos tornam conceituados porque foi a nossa atividade e fadiga que as gerou e fixou. Se as possuímos é porque as conquistamos. Só então os bens são verdadeiramente nossos porque temos, fixadas em nós como instintos, as capacidades para sabê-los manter; e se os perdermos, para saber reconquistá-los. Doutro lado, quando não possuímos as capacidades e, portanto, o mérito e, assim, o direito, o dinamismo do fenômeno é cheio de desequilíbrio e se esgota, cedo ou tarde. Então os bens tendem a fugir-nos das mãos; perdemo-los porque não os sabemos administrar e, perdidos, não sabemos reconquistá-los. Eis como finalmente, não obstante todas as protetoras barreiras humanas da injustiça, a interior justiça da lei emerge. Começamos a subir os primeiros degraus das ascensões humanas. A atual maioria da humanidade vive e age inconscientemente como fantoche manobrado por instintos, sem saber nada a respeito do porquê das coisas, sem compreender o que e por que faz, as reações a que dá nascimento, as conseqüências dos próprios atos. Por esse conhecimento fundamental, que, segundo a lógica mais elementar, deveria anteceder qualquer ação, o homem de nossos dias raramente se interessa e prefere, em primeiro lugar, agir, para depois compreender. Parece que os problemas do animal bastam para encher-lhe a vida e saciá-lo. Talvez o homem comum se perdesse em meio a essas questões que devem parecer-lhe de complexidade espantosa, a ele que vive na periferia, na superfície, e não no centro, na profundidade. O pensamento das filosofias, apresenta-se-lhe contraditório; o das religiões, insuficiente; o da História, desconexo; o da política, faccioso e interessado. Em face dos mais importantes e, contudo, mais simples e necessários problemas da vida como, por exemplo: "Quem sou? Donde vim? Para onde vou? Por que vivo? Por que sofro?", o homem se percebe desnorteado e só porque o pensamento humano ainda não soube encontrar a síntese completa que lhe responda a tudo e, se tivesse sabido, conseguiria interpretá-la apenas de acordo com sua relativa maturidade. O homem de nossos dias vive, assim, em uma espécie de resignação à ignorância, de adaptação à inconsciência; contenta-se em vegetar. Se isso pode ser dura contingência de sua evolução, é também triste aceitação e humilhante declaração de incompetência. Podemos continuar a viver nesse estado? Só o involuído pode contentar-se com ele. Podemos continuar a agir sem entendimento, somente à custa de suportar as dolorosas conseqüências dos inevitáveis erros e desastres de que está cheia a vida individual e coletiva. Não é por isso? Certamente, que aos acontecimentos humanos, individuais e coletivos, faltará diretiva; esta, porém, não é confiada ao homem, não pode ser revelada a inconscientes; mas sê-lo-á qualquer dia, quando houver conquistado conhecimento e sabedoria. A formação de nova civilização do espírito, a formação do novo tipo humano do III milênio significa a conquista de novo e imenso domínio, com o controle exato das diretivas da vida em nosso planeta. Não se trata de revolução social, exterior e formal, mas de maturação biológica, profunda e íntima. O homem atual crê estar sozinho no caos; no entanto, participa de imenso organismo. Involuído e, pois, insensível, inconsciente e ignorante, vê a desordem da superfície em que vive e nem suspeita a ordem presente nas causas, no interior das coisas. Enquanto evolui, deve o homem aprender a tornar-se cidadão dessa pátria maior, o universo, e colaborador consciente desse grande organismo, harmonizando-se com todos os fenômenos irmãos e criaturas irmãs, com seus semelhantes, com as forças da Lei. A felicidade e o paraíso consistem, exatamente, nessa harmonização. Semeando, como fazemos, em ignorância e rebelião, só se pode colher reação e dor. Semeando em sabedoria e harmonia, colheremos felicidade e paz. Isso significa civilizar-se a sério e não, ter aprendido a construir máquinas sem, depois, saber fazê-las trabalharem. Em todo campo, político, social, científico, filosófico, moral, torna-se necessário passar do sistema caótico ao sistema orgânico. O sistema do universo é perfeito. Nós, que não sabemos mover-nos nele, é que somos imperfeitos. Esse sistema contém a possibilidade de toda a nossa felicidade. Para resolver os problemas, o caminho não é a violência e a imposição, mas a harmonia e a obediência. Basta havê-lo compreendido, para se por de lado todas as concepções de que habitualmente se vive.
Pietro Ubaldi . VEJA MAIS....www.pro-harmonia.blogspot.com
12 fevereiro 2009
Sobre a construção de novos patamares evolutivos
A EVOLUÇÃO DA NATUREZA .
O CONCEITO DE "NEXT NATURE"
'The Next Nature' ou a 'Próxima Natureza' é um conceito de filosofia pós-moderna que foi cunhado recentemente no ensaio do artista e cientista holandês Koert van Mensvoort – “Explorando a Próxima Natureza”, influenciado pela hiper-realidade e pela fenomenologia, o qual afirma que, através da atividade cultural humana, uma próxima natureza surgirá. A “Antiga Natureza”, percebida como árvores, plantas, animais, átomos ou o clima, tornar-se-á crescentemente controlada e governada pelo homem e isto irá transformando-a numa categoria cultural. Por outro lado, os produtos culturais, que são usados para entreter e controlar o homem, tendem a superá-lo e a tornarem-se autónomos. No passado, o reino dos que “nasciam” pertencia à natureza e a cultura era vista como um reino do “fabricado”. Mas por intermédio da ciência humana estas categorias tornaram-se cada vez mais indistintas.
A idéia principal contida na 'Próxima Natureza' é o conceito de natureza como força dinâmica em profunda interação com um meio técnico-científico-informacional já presente em nossa sociedade e cada vez mais se expandindo em velocidades geométricas, gerando grandes revoluções no conhecimento e no modo de viver das futuras gerações. A 'Próxima Natureza', a natureza da era cibernética, implica em um paradigma para explicar a atual relação entre a cultura e a natureza. O desenvolvimento tecnológico e os novos campos de pesquisa, como a Nanotecnologia, Manipulação Genética, Inteligência Artificial, Tecnologia da Informação, Neurociência interferem radicalmente no nosso sentido de o que é 'natural'. Eles estão conectados à visão natural da próxima natureza. Com o progresso da cultura, as forças da natureza mudam de endereço. A ‘Próxima Natureza’ está portanto, emergindo culturalmente da própria natureza.
Não podemos deixar de nos indagar sobre os rumos de nossa civilização, cada vez mais envolvida no desenvolvimento técnico-cientifico-informacional e qual o papel dos cientistas e pesquisadores diante do panorama que se apresenta. Como evoluirá a esta relação natureza_sociedade? Como será possível garantir a condição de 'natural' e de 'humano' numa civilização que apresenta suas capacidades expandidas pela engenharia genética, inteligência artificial superhumana, nanotecnologia molecular, união do biológico e do tecnológico, do natural e do social? Está correta a convicção de que maior conhecimento conduz necessariamente a um maior bem estar? Ou maior conhecimento e sua adequada aplicação podem, sim, levar ao maior desempenho econômico, não implicando que o ganho resultante seja partilhado pela sociedade? E como se estabeleceria, por exemplo, esse campo das Tecnologias Convergentes sem que seja associado à manipulação da vida dos indivíduos por instâncias de poder incontroláveis? E qual seria o papel da nova convergência como motor central das iniciativas de inovação e seus possíveis impactos sobre o futuro da sociedade? Ou ainda como poderia ser o uso dessa Convergência no Transhumanismo, na criação de seres híbridos (humano-máquina) , na era dos Cyborgs? Como se daria seu relacionamento com a natureza? Até onde influenciarão um ao outro?E como se daria a institucionalidade destas tecnologias, como elas permeariam as instituições humanas, e como se daria o gerenciamento e regulação dos produtos e serviços resultantes da nova convergência, seus aspectos éticos e legais, e seu impacto sobre a sociedade?
A EVOLUÇÃO DA NATUREZA .
O CONCEITO DE "NEXT NATURE"
'The Next Nature' ou a 'Próxima Natureza' é um conceito de filosofia pós-moderna que foi cunhado recentemente no ensaio do artista e cientista holandês Koert van Mensvoort – “Explorando a Próxima Natureza”, influenciado pela hiper-realidade e pela fenomenologia, o qual afirma que, através da atividade cultural humana, uma próxima natureza surgirá. A “Antiga Natureza”, percebida como árvores, plantas, animais, átomos ou o clima, tornar-se-á crescentemente controlada e governada pelo homem e isto irá transformando-a numa categoria cultural. Por outro lado, os produtos culturais, que são usados para entreter e controlar o homem, tendem a superá-lo e a tornarem-se autónomos. No passado, o reino dos que “nasciam” pertencia à natureza e a cultura era vista como um reino do “fabricado”. Mas por intermédio da ciência humana estas categorias tornaram-se cada vez mais indistintas.
A idéia principal contida na 'Próxima Natureza' é o conceito de natureza como força dinâmica em profunda interação com um meio técnico-científico-informacional já presente em nossa sociedade e cada vez mais se expandindo em velocidades geométricas, gerando grandes revoluções no conhecimento e no modo de viver das futuras gerações. A 'Próxima Natureza', a natureza da era cibernética, implica em um paradigma para explicar a atual relação entre a cultura e a natureza. O desenvolvimento tecnológico e os novos campos de pesquisa, como a Nanotecnologia, Manipulação Genética, Inteligência Artificial, Tecnologia da Informação, Neurociência interferem radicalmente no nosso sentido de o que é 'natural'. Eles estão conectados à visão natural da próxima natureza. Com o progresso da cultura, as forças da natureza mudam de endereço. A ‘Próxima Natureza’ está portanto, emergindo culturalmente da própria natureza.
Não podemos deixar de nos indagar sobre os rumos de nossa civilização, cada vez mais envolvida no desenvolvimento técnico-cientifico-informacional e qual o papel dos cientistas e pesquisadores diante do panorama que se apresenta. Como evoluirá a esta relação natureza_sociedade? Como será possível garantir a condição de 'natural' e de 'humano' numa civilização que apresenta suas capacidades expandidas pela engenharia genética, inteligência artificial superhumana, nanotecnologia molecular, união do biológico e do tecnológico, do natural e do social? Está correta a convicção de que maior conhecimento conduz necessariamente a um maior bem estar? Ou maior conhecimento e sua adequada aplicação podem, sim, levar ao maior desempenho econômico, não implicando que o ganho resultante seja partilhado pela sociedade? E como se estabeleceria, por exemplo, esse campo das Tecnologias Convergentes sem que seja associado à manipulação da vida dos indivíduos por instâncias de poder incontroláveis? E qual seria o papel da nova convergência como motor central das iniciativas de inovação e seus possíveis impactos sobre o futuro da sociedade? Ou ainda como poderia ser o uso dessa Convergência no Transhumanismo, na criação de seres híbridos (humano-máquina) , na era dos Cyborgs? Como se daria seu relacionamento com a natureza? Até onde influenciarão um ao outro?E como se daria a institucionalidade destas tecnologias, como elas permeariam as instituições humanas, e como se daria o gerenciamento e regulação dos produtos e serviços resultantes da nova convergência, seus aspectos éticos e legais, e seu impacto sobre a sociedade?
4.1. A EVOLUÇÃO DO SER HUMANO .
Tecnologias Convergentes / Transhumanismo um caminho possível
Ao observar o desenvolvimento da ciência, verificamos que a fragmentação, que muitas vezes facilita a compreensão de fenômenos mais intrínsecos de uma determinada área, tornou o conhecimento extremamente especializado e estanque. Para não se perder nele mesmo, e continuar a evoluir, há necessidade de uma profunda interação num movimento convergente, que possibilite encontrar o sentido e a aplicação comum das mais recentes descobertas da ciência, da técnica, da informação.
Tecnologias Convergentes (Converging Technologies) tratam da participação conjunta de áreas do conhecimento que trabalham isoladamente, num esforço conjunto para a solução de importantes questões humanas. Estas Tecnologias (TC), constituem-se numa vasta área de interação da pesquisa em Nanotecnologia, Biotecnologia, Tecnologia da Informação e Ciência Cognitiva, e fizeram sua estréia na cena pública com este nome em junho de 2001, numa reunião organizada pelos pesquisadores norte-americanos Mihail C. Roco e William Sims Bainbridge, com apoio da National Science Foundation (NSF), em Arlington, Virgínia. Desse encontro saiu o documento "Converging Technologies for Improving Humam Performance", com quase 500 páginas das quais emergem possibilidades técnicas até aqui impensáveis, muitas delas beirando a pura ficção científica, para âmbitos tão distintos quanto o da defesa militar e o da saúde humana.
Dois anos depois, a Comissão Européia resolveu lançar um olhar mais enraizado em sua tradição humanística às Tecnologias Convergentes e publicou o documento "Converging Technologies: Shaping the Future of European Societies". De acordo com ele, “os cidadãos da Europa se beneficiarão das CT se elas forem implementadas com vistas aos cuidados de saúde, processamento de informação e comunicação, mitigação ambiental, fontes de energia e outras áreas de interesse público e pessoal”.
No Brasil, o neurocientista e professor titular de neurologia experimental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Esper Abrão Cavalheiro, ex-presidente do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) atual assessor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), vem coordenando estudos para ampliar o debate, procurando despertar a comunidade científica brasileira e segmentos da sociedade que atuam no campo da ciência, tecnologia e inovação para a importância de se abrir canais de investigação e prospecção a respeito do impacto que as TCs poderão trazer no futuro da sociedade, promovendo uma verdadeira revolução nas relações Natureza e Sociedade.
A nova convergência de tecnologias tem por objetivo promover a interação entre sistemas vivos e artificiais, na busca de novos dispositivos que sirvam para expandir ou melhorar as capacidades cognitivas e comunicativas, a saúde e a capacidade física dos seres humanos, sendo capazes de trazer modificações significativas na sociedade e no ambiente. Chega-se mesmo a pensar no “renascimento da ciência”. Isto é, uma nova era da ciência e da tecnologia resultante do agrupamento dessas áreas (nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciência cognitiva), e que poderá fazer diferença na sociedade do futuro.
O Transhumanismo (às vezes simbolizado por >H ou H+) é uma filosofia emergente que analisa e incentiva o uso da ciência e da tecnologia, especialmente da biotecnologia, da neurotecnologia e da nanotecnologia, para superar as limitações humanas, e, assim, poder melhorar a própria condição humana. O termo transhumanismo foi criado pelo biólogo Julian Huxley em 1957, que o definiu como a doutrina do "homem continuando homem, mas transcendendo, ao perceber novas possibilidades de e para sua natureza humana". Essa definição, conquanto historicamente originária, não é a mais usada, que dela difere significantemente. Em 1966, FM-2030 (F.M. Esfandiary), um futurista estadunidense da New School University, começou a identificar como "transhumano" (uma referência a "humano transitório") — como pessoas que adaptavam tecnologias, estilos de vida, e visões de mundo transicionais à uma pós-humanidade.
A caracterização atual do termo, porém, deve-se a Max More, PhD.Oxford University. Em suas palavras, "transhumanismo é a classe de filosofias que busca nos guiar a uma condição pós-humana”. Ele inclui muitos elementos do humanismo, como o respeito pela razão e pela ciência, o compromisso pelo progresso, e a valorização da existência humana (ou transumana). Anders Sandberg, Dr., descreve o transhumanismo moderno como "a filosofia que diz que podemos e devemos nos desenvolver a níveis maiores, seja fisicamente, mentalmente ou socialmente, usando métodos racionais", enquanto Robin Hanson, Dr., o descreve como "a idéia de que, de vários modos, nossos descendentes não irão ser considerados 'humanos'."
4.2. A EVOLUÇÃO DA NATUREZA . O CONCEITO DE "NEXT NATURE"
'The Next Nature' ou a 'Próxima Natureza' é um conceito de filosofia pós-moderna que foi cunhado recentemente no ensaio do artista e cientista holandês Koert van Mensvoort – “Explorando a Próxima Natureza”, influenciado pela hiper-realidade e pela fenomenologia, o qual afirma que, através da atividade cultural humana, uma próxima natureza surgirá. A “Antiga Natureza”, percebida como árvores, plantas, animais, átomos ou o clima, tornar-se-á crescentemente controlada e governada pelo homem e isto irá transformando-a numa categoria cultural. Por outro lado, os produtos culturais, que são usados para entreter e controlar o homem, tendem a superá-lo e a tornarem-se autónomos. No passado, o reino dos que “nasciam” pertencia à natureza e a cultura era vista como um reino do “fabricado”. Mas por intermédio da ciência humana estas categorias tornaram-se cada vez mais indistintas.
A idéia principal contida na 'Próxima Natureza' é o conceito de natureza como força dinâmica em profunda interação com um meio técnico-científico-informacional já presente em nossa sociedade e cada vez mais se expandindo em velocidades geométricas, gerando grandes revoluções no conhecimento e no modo de viver das futuras gerações. A 'Próxima Natureza', a natureza da era cibernética, implica em um paradigma para explicar a atual relação entre a cultura e a natureza. O desenvolvimento tecnológico e os novos campos de pesquisa, como a Nanotecnologia, Manipulação Genética, Inteligência Artificial, Tecnologia da Informação, Neurociência interferem radicalmente no nosso sentido de o que é 'natural'. Eles estão conectados à visão natural da próxima natureza. Com o progresso da cultura, as forças da natureza mudam de endereço. A ‘Próxima Natureza’ está portanto, emergindo culturalmente da própria natureza.
trechos extraidos do paper 'Geografia, Natureza e Sociedade . Indagações sobre a construção de novos patamares evolutivos' . mestrado UFPR . mai2008 .
Annamaria Pires, Angelita Moura, Julio França
A questão da tecnociência no centro da discussão contemporânea
“Politizar as Novas Tecnologias” - O Impacto Sócio-técnico da Informação Digital e Genética . (Editora 34, 2003) Laymert Garcia dos Santos*
“Politizar as Novas Tecnologias” trata de um panorama complexo, de um mundo de transformações vertiginosas, como um relógio de potência supersônica cuja mecânica não é sequer sonhada pelo comum dos mortais, seja pela velocidade extraordinária, seja pelo ocultamento sistemático de informações. Amalgamado de forma indistinguível ao capital global, o novo conhecimento digital e genético veste o manto do sigilo empresarial.Contrapondo-se porém à máxima que reza que “o segredo é a alma do negócio”, os ensaios de Laymert Garcia fazem barulho e mapeiam para o leigo caminhos que há alguns anos fariam sentido apenas em páginas de ficção científica.
“Politizar as Novas Tecnologias” trata de um panorama complexo, de um mundo de transformações vertiginosas, como um relógio de potência supersônica cuja mecânica não é sequer sonhada pelo comum dos mortais, seja pela velocidade extraordinária, seja pelo ocultamento sistemático de informações. Amalgamado de forma indistinguível ao capital global, o novo conhecimento digital e genético veste o manto do sigilo empresarial.Contrapondo-se porém à máxima que reza que “o segredo é a alma do negócio”, os ensaios de Laymert Garcia fazem barulho e mapeiam para o leigo caminhos que há alguns anos fariam sentido apenas em páginas de ficção científica.
Entrevista concedida ao jornalista Alvaro Machado, colaborador da "Folha de S. Paulo" (http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1777,1.shl)
Qual o sentido da palavra “politizar” no título do seu livro?
Laymert Garcia dos Santos: É no sentido de trazer para o centro da discussão contemporânea a questão da tecnociência. Na medida em que até mesmo o sentido do que é humano vai sendo radicalmente desconstruído, é preciso que a sociedade ao menos se dê conta dessa transformação. É preciso que ela diga se a deseja ou não, que estabeleça em quais circunstâncias se dará esse processo e em que velocidade ele deve acontecer.
Você tem de fato esperanças de que a sociedade se organize e manifeste algo parecido?
Laymert: Acho que não se trata da quantidade de gente que daria conta dessa transformação. É preciso, pelo menos, instaurar a discussão, até para se explorar as possibilidades de tirar o corpo fora, literalmente, dessa história. Pois temos, na cultura contemporânea, uma tendência cada vez mais apocalíptica, e essa “narrativa do apocalipse” pode estar preparando a aceitação de uma vertente que pode se tornar extremamente perigosa. O sentido de “politizar” é, na verdade, afirmar: “É possível, sim, pensar outros cenários, outras possibilidades, e elaborar a crítica dessa maneira de pensar”.
Laymert: Acho que não se trata da quantidade de gente que daria conta dessa transformação. É preciso, pelo menos, instaurar a discussão, até para se explorar as possibilidades de tirar o corpo fora, literalmente, dessa história. Pois temos, na cultura contemporânea, uma tendência cada vez mais apocalíptica, e essa “narrativa do apocalipse” pode estar preparando a aceitação de uma vertente que pode se tornar extremamente perigosa. O sentido de “politizar” é, na verdade, afirmar: “É possível, sim, pensar outros cenários, outras possibilidades, e elaborar a crítica dessa maneira de pensar”.
Esse hipotético “outro cenário” não poderia, no entanto, refutar a evidência da modificação atual da natureza humana, não é?
Laymert: Tudo deve ser colocado urgentemente em discussão, na medida em que essa modificação da natureza humana pode ser irreversível, ou seja, esse pode ser o processo de constituição de uma outra natureza humana.
Laymert: Tudo deve ser colocado urgentemente em discussão, na medida em que essa modificação da natureza humana pode ser irreversível, ou seja, esse pode ser o processo de constituição de uma outra natureza humana.
Mas, segundo seus textos, parece ser, já, um processo irreversível...
Laymert: Realmente não dá para voltar atrás, mas não chegamos ainda ao ponto em que começamos a criar uma segunda natureza. Nos encontramos no limiar de uma transformação enorme. Veja, por exemplo, a discussão que agita hoje a filosofia. De um lado há Fukuyama, de outro Habermas, de outro Zizek, de outro os deleuzianos... E todos discutem o futuro do humano. Eles argumentam: a transformação da natureza humana é aceitável ou não? A ruptura com a natureza humana é algo que destrói os parâmetros do humanismo moderno ou não?
Laymert: Realmente não dá para voltar atrás, mas não chegamos ainda ao ponto em que começamos a criar uma segunda natureza. Nos encontramos no limiar de uma transformação enorme. Veja, por exemplo, a discussão que agita hoje a filosofia. De um lado há Fukuyama, de outro Habermas, de outro Zizek, de outro os deleuzianos... E todos discutem o futuro do humano. Eles argumentam: a transformação da natureza humana é aceitável ou não? A ruptura com a natureza humana é algo que destrói os parâmetros do humanismo moderno ou não?
Trata-se, enfim, da própria noção de dignidade humana, que se encontra não apenas na base do pensamento filosófico moderno, mas do sistema jurídico ocidental, das instituições, das constituições... Quando chegamos ao fundamento das estruturas, encontramos invariavelmente a noção da dignidade humana. Ora, vários desses pensadores que observam a questão da biotecnologia e de seus rumos -não só na filosofia, mas na antropologia, na sociologia etc.- já consideram que a noção de dignidade humana acabou, ou ao menos já foi desmontada enquanto tal.
Alguns até dizem que se pode frear o processo. Já outros afirmam que é bom perceber dessa forma, pois já era fato consumado. A questão desmorona nossas bases, mas talvez não signifique o fim do mundo. É, talvez, o fim de um mundo. Essa questão é interessante: o fim de um mundo não é o fim do mundo. Mas para que esse novo mundo que está surgindo não se revele de uma carga negativa violentíssima, é preciso estabelecer uma discussão sobre as possibilidades que se abrem na nova configuração. Essa é a discussão.
Para você, essa perda da dignidade humana é fato?
Laymert: Não dá para voltar ao mundo pré-descobertas da genética. O grande problema, para mim, já havia sido indicado por Heiner Müller: existe hoje uma estratégia de aceleração total, econômica e tecnocientífica, muito pouco discutida. O escritor colocava-se contra ela, dizia que é totalitária, que impõe um ritmo que boa parte da população mundial não pode alcançar -e quem não alcança esse ritmo entra automaticamente na faixa de exclusão, queira ou não.
Laymert: Não dá para voltar ao mundo pré-descobertas da genética. O grande problema, para mim, já havia sido indicado por Heiner Müller: existe hoje uma estratégia de aceleração total, econômica e tecnocientífica, muito pouco discutida. O escritor colocava-se contra ela, dizia que é totalitária, que impõe um ritmo que boa parte da população mundial não pode alcançar -e quem não alcança esse ritmo entra automaticamente na faixa de exclusão, queira ou não.
Dessa forma, se estabelece um novo tipo de polarização entre excluídos e incluídos. Müller dizia: por que essa estratégia é totalitária? Porque não admite outras temporalidades, e as minorias trazem à cena outras temporalidades que não a da aceleração total. Ele dizia, em resumo, que o terreno das temporalidades será palco de uma luta extremamente política, que colocará em outros termos a questão da inclusão e da exclusão.
A estratégia política de aceleração é um fato nítido, mas isso não significa que a tecnociência deva obedecer necessariamente a essa velocidade e a essa estratégia. Há muitas maneiras de desenvolver ciência e tecnologia, e isso não representa voltar para trás: podemos desenhar uma outra via.
Essa estratégia não foi adotada quando a ciência cessou de considerar a questão ética?
Laymert: Desmontou-se o referencial antigo, tradicional, e também o referencial moderno. Enquanto se desmontava apenas o referencial clássico, que foi o que a cultura moderna fez, estava tudo bem, todos achavam que uma vez destruído o primeiro referencial, todos embarcariam no novo projeto. Entretanto, desde os anos 70 começou a ficar claro que esse outro tempo não é para todo mundo. O projeto, ou sonho, de que todos estariam incluídos na modernidade não existe mais.
Laymert: Desmontou-se o referencial antigo, tradicional, e também o referencial moderno. Enquanto se desmontava apenas o referencial clássico, que foi o que a cultura moderna fez, estava tudo bem, todos achavam que uma vez destruído o primeiro referencial, todos embarcariam no novo projeto. Entretanto, desde os anos 70 começou a ficar claro que esse outro tempo não é para todo mundo. O projeto, ou sonho, de que todos estariam incluídos na modernidade não existe mais.
Tal projeto tinha fortes raízes no pensamento socialista, não?
Laymert: Mas não só, já que o próprio capitalismo também acreditava ser inclusivo -e ele o era até a década de 70. Quando o capitalismo passou a não mais ser inclusivo, aumentou o fosso entre os que estão dentro e os que estão fora do novo projeto. Houve a aceleração brutal do desenvolvimento tecnocientífico e da própria sociedade onde ele se verifica.
Laymert: Mas não só, já que o próprio capitalismo também acreditava ser inclusivo -e ele o era até a década de 70. Quando o capitalismo passou a não mais ser inclusivo, aumentou o fosso entre os que estão dentro e os que estão fora do novo projeto. Houve a aceleração brutal do desenvolvimento tecnocientífico e da própria sociedade onde ele se verifica.
Existe, hoje, algo como uma espécie de trem-bala do conhecimento e existe, também, a ilusão de que estamos todos nesse trem. Mas Müller dizia: não dá para embarcar nesse trem em movimento. Muita gente que quer, ou que não quer, não se encontra nele. E a estratégia daqueles que se encontram no trem é totalitária com relação aos que lá não estão, pois esse trem não admite outra velocidade que a sua.
Não existe mais, também, a influência dos Estados ditos socialistas, cujo contraponto freava tal processo.
Laymert: Se não temos mais utopias, há, por outro lado, a própria realização da utopia, mas de modo acelerado, numa velocidade que não é para todos, e isso conduz à ruptura com o próprio projeto moderno. Na verdade, o desenrolar desse processo já quebra o referencial moderno, como o próprio moderno demolia os referenciais tradicionais. Do ponto de vista da informação digital e genética, ou do pensamento cibernético, tanto faz se o elemento é tradicional ou moderno, pois tudo será passível de recombinações.
Laymert: Se não temos mais utopias, há, por outro lado, a própria realização da utopia, mas de modo acelerado, numa velocidade que não é para todos, e isso conduz à ruptura com o próprio projeto moderno. Na verdade, o desenrolar desse processo já quebra o referencial moderno, como o próprio moderno demolia os referenciais tradicionais. Do ponto de vista da informação digital e genética, ou do pensamento cibernético, tanto faz se o elemento é tradicional ou moderno, pois tudo será passível de recombinações.
Destruídos o referencial antigo e o moderno, seria preciso constituir uma nova ética, não?
Laymert: Construir um outro projeto, diferente do moderno e do tradicional, pois naquilo que está acontecendo agora não existe ética alguma.
E pode nem chegar a existir nenhuma.
Laymert: Sim. O filósofo inglês Keith Ansell Pearson, por exemplo, lembra que o pós-modernismo afirmava que todas as grandes narrativas estavam destruídas. No entanto, hoje se constrói uma nova grande narrativa, à qual o filósofo se opõe. Essa narrativa é a da obsolescência do humano, e nós a encontramos nas artes visuais, no cinema, na literatura, e principalmente em ramos da tecnociência que pensam a superação do humano pelo chamado pós-humano.
Há duas vertentes distintas: uma privilegia a superação do humano segundo a hipótese de que o humano nada mais é que um “computador de carne” que pode ser superado por outros suportes, e essa é a linha da robótica contemporânea. Sobre esse assunto, recentemente o caderno “Mais!”, da “Folha de S. Paulo”, publicou o texto “Humano 2.0”, de Kurzweill, uma prospectiva de robótica. O humano não consegue processar o que é necessário na velocidade esperada, e portanto estaria em extinção... Isso tudo parece ficção científica, mas quando começamos a estudar, vemos que os cientistas já concretizam essa ficção científica.
Outra linha, menos ambiciosa, não procura realizar o “download” do espírito em outros suportes que não o humano e, portanto, a obsolescência do humano não importaria tanto. Para esta vertente, o que conta é a transformação do humano e, no limite, uma nova eugenia.
Ora, Pearson, entre outros, opõe-se a esse pensamento. Para ele, é preciso desmontar politicamente tal narrativa. Não há volta para trás porque não é possível voltar a ser moderno ou tradicional. Porém, o que podemos propor como contraponto? Podemos pensar que o humano talvez não tenha se esgotado, que justamente agora ele poderá se desenvolver de um modo completamente novo e diferente.
Seria como uma nova grande prova?
Laymert: Sim, o devir está em aberto, o humano não está selado, seu destino é aberto. Existe nessa reflexão uma positividade muito grande, que não está sendo considerada pelo “mainstream” da tecnociência.
Laymert: Sim, o devir está em aberto, o humano não está selado, seu destino é aberto. Existe nessa reflexão uma positividade muito grande, que não está sendo considerada pelo “mainstream” da tecnociência.
Queira-se ou não, essa mudança atinge a todos, tanto incluídos como excluídos. Não há como se isolar, certo?
Laymert: Não há, e isso aprendi trabalhando nas ONGs em torno de comunidades indígenas brasileiras. Um belo dia descobre-se que uns norte-americanos foram lá coletar material humano -unhas, pele e cabelos daquela população, enfim, material genético- sem dizer para o que servirá E por que eles coletaram ali? Porque, na verdade -e essa é uma das coisas que tento desenvolver neste livro-, depois do advento da informação digital e genética, o campo do virtual tornou-se mais importante que o campo do atual. Isso significa que, tanto do ponto de vista da tecnociência quando do capital, o que pode vir a existir é mais importante do que aquilo que já existe.
Laymert: Não há, e isso aprendi trabalhando nas ONGs em torno de comunidades indígenas brasileiras. Um belo dia descobre-se que uns norte-americanos foram lá coletar material humano -unhas, pele e cabelos daquela população, enfim, material genético- sem dizer para o que servirá E por que eles coletaram ali? Porque, na verdade -e essa é uma das coisas que tento desenvolver neste livro-, depois do advento da informação digital e genética, o campo do virtual tornou-se mais importante que o campo do atual. Isso significa que, tanto do ponto de vista da tecnociência quando do capital, o que pode vir a existir é mais importante do que aquilo que já existe.
Um exemplo: quando, na década de 80, descobriu-se que havia a extinção em massa de espécies, que se deu em função do próprio desenvolvimento da sociedade moderna, o que se fez para coibir essa perda gigantesca de biodiversidade? Praticamente nada. Em vez de tentar mudar o modo de exploração e o relacionamento com o meio ambiente, os países industrializados começaram a constituir bancos genéticos ex situ, isto é, fora dos lugares onde essa biodiversidade existe ameaçada, para que, após o desaparecimento completo daquelas espécies, eles tenham os elementos, os tijolos moleculares, para reconstruir aquilo que julguem necessário ou aquilo que interesse.
Trata-se de um processo de seleção...
Laymert: De apropriação, seleção e controle ao mesmo tempo. De que forma isso se dá? Exercendo-se controle sobre essa riqueza que desaparece, controlando-a não como recurso biológico, mas como recurso genético, já num plano da informação constitutiva desses recursos, dessa vida.
Laymert: De apropriação, seleção e controle ao mesmo tempo. De que forma isso se dá? Exercendo-se controle sobre essa riqueza que desaparece, controlando-a não como recurso biológico, mas como recurso genético, já num plano da informação constitutiva desses recursos, dessa vida.
Ao mesmo tempo em que havia esse movimento para superar o desaparecimento das espécies, evoluía o Projeto Diversidade do Genoma Humano, cuja ambição era, com relação às minorias, a mesma que com os recursos biológicos. Ou seja, já que as populações tradicionais estão desaparecendo -elas que são portadoras de patrimônios genéticos específicos, que podem eventualmente servir para algo num futuro próximo-, a tecnociência trata de perenizar a existência desse patrimônio em bancos de dados genético, em vez de garantir o não-desaparecimento dos próprios indivíduos contemporâneos portadores dessas características.
Garante-se a disponibilidade dos anticorpos de uma população indígena específica para servir aos escolhidos para sobreviver, mas não para servir àqueles que não poderão sobreviver, incluindo-se aí a própria população da qual se tomou tais dados genéticos.
Essa é, de fato, a essência do celebrado mundo das virtualidades.
Laymert: Um mundo no qual trabalho, vida e linguagem não são considerados em sua existência, mas como virtualidades daquilo que poderá ou não ser concretizado no futuro. Quando esse se torna o objeto principal da riqueza, quando o capital e a tecnociência se aliam para explorar esse campo, o que se tem é um direcionamento da ponta do sistema para o futuro. E a grande discussão é: quem terá acesso a essas virtualidades e como elas serão exploradas? Isso inclui desde a biodiversidade amazônica, tratada nos primeiros capítulos do livro, até a questão do direito de exploração das virtualidades do humano.
Laymert: Um mundo no qual trabalho, vida e linguagem não são considerados em sua existência, mas como virtualidades daquilo que poderá ou não ser concretizado no futuro. Quando esse se torna o objeto principal da riqueza, quando o capital e a tecnociência se aliam para explorar esse campo, o que se tem é um direcionamento da ponta do sistema para o futuro. E a grande discussão é: quem terá acesso a essas virtualidades e como elas serão exploradas? Isso inclui desde a biodiversidade amazônica, tratada nos primeiros capítulos do livro, até a questão do direito de exploração das virtualidades do humano.
Abarca inclusive o campo da arte?
Laymert: Sim. Nós nos perguntamos, hoje, por que a arte contemporânea é objeto de tanto interesse por parte da alta finança. É porque a elas interessa, de fato, o território das grandes virtualidades. Mais que as inscrições relevantes na história da arte, interessa saber como a virtualidade está sendo explorada na ponta, inclusive pelos artistas.
Laymert: Sim. Nós nos perguntamos, hoje, por que a arte contemporânea é objeto de tanto interesse por parte da alta finança. É porque a elas interessa, de fato, o território das grandes virtualidades. Mais que as inscrições relevantes na história da arte, interessa saber como a virtualidade está sendo explorada na ponta, inclusive pelos artistas.
Isso tudo estaria conectado a um processo de seleção muito acirrado, a uma extrema especialização?
Laymert: A melhor palavra é seleção, pois o que está em jogo na aceleração total -econômica e tecnocientífica- é a relação entre vida e sobrevivência. Do ponto de vista de quem se encontra na ponta do trem-bala, a questão é: vamos garantir a nossa sobrevivência, antecipando o futuro e nos apoiando nas virtualidades que podem nos servir mais adiante. Opondo-se a essa posição de sobrevivência, ou dos sobreviventes, encontra-se tudo aquilo que apenas vive: todas as outras formas de vida, todas as outras temporalidades, as minorias e espécies que de uma ou outra maneira estão fora da aceleração e são objeto de pura especulação por esse grupo na ponta do processo.
Laymert: A melhor palavra é seleção, pois o que está em jogo na aceleração total -econômica e tecnocientífica- é a relação entre vida e sobrevivência. Do ponto de vista de quem se encontra na ponta do trem-bala, a questão é: vamos garantir a nossa sobrevivência, antecipando o futuro e nos apoiando nas virtualidades que podem nos servir mais adiante. Opondo-se a essa posição de sobrevivência, ou dos sobreviventes, encontra-se tudo aquilo que apenas vive: todas as outras formas de vida, todas as outras temporalidades, as minorias e espécies que de uma ou outra maneira estão fora da aceleração e são objeto de pura especulação por esse grupo na ponta do processo.
Desse grupo altamente especializado.
Laymert: Sim, desse grupo muito especializado, que detém a informação e a torna exclusiva sua, de modo a transformá-la em valor. E, na medida em que esse grupo sabe perfeitamente que sua exploração é predatória, pois pactua com a destruição de muita coisa, temos, obviamente, o projeto de garantia de sobrevivência de uma elite mundial.
Quem, na literatura, anteviu esse quadro radical?
Laymert: Uma das coisas que gosto em Müller é a sua antevisão desse processo. Ele dizia, generosamente, “ou todos ou nenhum”, o que configurava, de certo modo, uma posição anti-seleção. Porém, no ultimo texto de meu livro, “Tecnologia e Seleção”, há uma referência a uma jovem filósofa francesa brilhantíssima, Barbara Stiegler, autora de “Nietzsche e a Biologia” (Presses Universitaires de France, 2001). Nessa obra, ela recorda que a questão foi apontada por Nietzsche muito claramente, já em suas duas vias: a da constituição de uma nova eugenia, a “grande política”, e a da afirmação da vida, a “grande saúde”.
Nietzsche já havia pensado nisso quando politizou a biologia, na “Genealogia da Moral”. Ele afirmava pensar para aqueles que viriam 100 ou 200 anos depois dele. Efetivamente, do modo como ela o analisa, percebemos que ele tinha razão em dizer isso, e que ela tem razão em apontar. Pois os dilemas colocados hoje pela biogenética são dilemas a respeito não da criação de uma raça superior, mas de uma nova eugenia, de um quadro no qual existem aqueles cujo patrimônio será melhorado, e existe, de outro lado, o resto.
A diferença entre esses pólos já começa a se construir e em breve será tão grande que percebemos claramente que o discurso da obsolescência do humano prepara, na verdade, o advento de um humano superior, que evidentemente dominará os demais. Instaurada no plano molecular, a eugenia assume dimensões assustadoras.
Então a ficção científica estava certa?
Laymert: Eu nem trato disso no livro, mas, por exemplo, no início do novo livro de Fukuyama, sobre o futuro do homem, quando ele analisa a forma como a biogenética destrói as bases da democracia (e olhe que ele está pensando a democracia norte-americana...), diz que Huxley estava certo, que estamos de fato às portas de um admirável mundo novo.
Laymert: Eu nem trato disso no livro, mas, por exemplo, no início do novo livro de Fukuyama, sobre o futuro do homem, quando ele analisa a forma como a biogenética destrói as bases da democracia (e olhe que ele está pensando a democracia norte-americana...), diz que Huxley estava certo, que estamos de fato às portas de um admirável mundo novo.
A ficção científica adquiriu um interesse novo, e as ciências humanas se ocupam cada vez mais dela, porque se trata de uma literatura de antecipação. E hoje assistimos à antecipação no mercado financeiro, no tratamento das questões ambientais, na tecnociência, na arte e na guerra. Quando Bush desencadeou sua operação não foi contra uma agressão iraquiana -ele antecipou um “possível” ataque aos EUA com armas de destruição em massa. O vocabulário utilizado nesse episódio vincula-se claramente a estratégias de antecipação da realidade.
O escritor Philip K. Dick tem um texto maravilhoso, no qual explica por que escreve ficção científica (reproduzido em “Politizar as Novas Tecnologias): ele diz que não escreve para explorar as tecnologias do futuro, mas para pensar aquilo que a sociedade não é, ou aquilo que ela ainda não é: suas virtualidades e os possíveis tratamentos ou concretizações dessas virtualidades.
Você fala em tecnociência, um termo cujo significado parece sofrer transformações.
Laymert: Refiro-me a um modus operandi que não separa mais a ciência como um conhecimento desinteressado e a tecnologia como aplicação. Ao contrário, a tecnociência já indicia, de modo intenso e imanente, o conhecimento das aplicações, e assim temos a alimentação mútua entre ciência e tecnologia. A tecnociência já se constitui enquanto sistema, e isso é algo relativamente recente. Ela possui sua lógica própria e sua ética é subordinada, de certo modo, à afirmação de que “o conhecimento não tem limite”, ou de que não existe limite externo que possa ser contraposto a esse sistema.
Laymert: Refiro-me a um modus operandi que não separa mais a ciência como um conhecimento desinteressado e a tecnologia como aplicação. Ao contrário, a tecnociência já indicia, de modo intenso e imanente, o conhecimento das aplicações, e assim temos a alimentação mútua entre ciência e tecnologia. A tecnociência já se constitui enquanto sistema, e isso é algo relativamente recente. Ela possui sua lógica própria e sua ética é subordinada, de certo modo, à afirmação de que “o conhecimento não tem limite”, ou de que não existe limite externo que possa ser contraposto a esse sistema.
Trata-se, então, de uma não-ética?
Laymert: O cientista dirá que está buscando o bem da humanidade, o bem-estar de todos os humanos e o florescimento da humanidade. Qualquer questionamento é taxado de obscurantismo. É um dogma que não se discute: não se pode sequer sugerir politizar a tecnociência. O dogma é “nenhum limite para a tecnociência”, da mesma maneira que o capital exige. A aliança entre esses dois termos não admite, igualmente, nenhum questionamento.
Esbarra-se, assim, na questão religiosa?
Laymert: Acredito que podemos questionar, isto sim, o que informa a fé na tecnologia. Isso é possível perguntar. Existe uma ambição desmedida por parte da tecnociência, e aí sem dúvida os territórios se misturam.
Seu encontro com Heiner Müller, em Berlim, parece ter sido uma experiência muito forte.
Laymert: Sim, pois foi algo totalmente inesperado. Consegui a entrevista por um estalo, e ela foi realizada na casa dele. Após esse encontro, percebi claramente o caráter não só da divisão entre Oriente e Ocidente, advinda da Guerra Fria, mas também, e principalmente, consegui entender o sentido da História. Müller tinha uma consideração muito forte sobre a História: ele a enxergava como tragédia, ou seja, achava que a maneira como existimos no mundo atual é uma maneira de carregar a História como nossa tragédia. Não temos mais os deuses que decidem os nossos destinos, mas uma História que trama o nosso destino muito além da nossa vontade. Essa seria a nossa tragédia.
E onde se coloca a criação nesse panorama? Como se pode escolher o próprio destino? O futuro do humano, para Müller, não pode ser estabelecido pela tecnociência. Para ele, aquilo que existe de virtual no ser humano, o que ainda poderá ser realizado, deverá acontecer ao largo da História, escapando dela, ou desvencilhando-se dela.
Qual seria o agente desse processo à margem da História?
Laymert: Ora, trata-se daquilo que está vivo e ainda não foi capturado. Seria aquilo que existe de virtual no humano, mas ainda não pôde ser colonizado pela História, ou pelas forças da História. Isso é escapar da História, mas de certa maneira também significa construir outras possibilidades de História.
Laymert: Ora, trata-se daquilo que está vivo e ainda não foi capturado. Seria aquilo que existe de virtual no humano, mas ainda não pôde ser colonizado pela História, ou pelas forças da História. Isso é escapar da História, mas de certa maneira também significa construir outras possibilidades de História.
Seriam instâncias mais sutis do que aquelas já identificadas e armazenadas, novas formas de resistência?
Laymert: Exatamente. Onde estão as resistências de hoje? Estão, também elas, no campo das virtualidades, e é aí, justamente, que se encontram mais ameaçadas, uma vez que a aliança entre o capital global e as tecnociências projetam a colonização do virtual. O embate se dá no próprio lugar onde se encontra a fonte da resistência, onde se encontra a vida.
Por isso, o que existe atualmente é o embate entre a sobrevivência e a vida. Os que estão trabalhando para se estabelecer como aqueles que sobreviverão no futuro, aqueles que buscam a supra-existência, encontram-se em uma linha de tensão com aqueles que querem simplesmente viver, e não criar uma sobrevida. Porém, estes portam virtualidades que são objeto de apropriação por parte daqueles que querem sobreviver. Basta ler o livro de Susan George, “O Relatório Lugano”, para entender isso.
Você tem viajado bastante para conferências e seminários, no Brasil e no exterior. Vê alguma sociedade comportar-se de forma criativa para superar esse impasse global?
Laymert: Não vejo isso. Na Europa, a questão se coloca de forma diferente. Nosso foco de visão é diverso porque somos os perdedores desse processo de aceleração, embora não queiramos reconhecê-lo. Fazemos um esforço gigantesco para nos mantermos no trem enquanto nacional, como um todo. Por outro lado, a sociedade deles está toda no trem.
Desde essa perspectiva, o positivo e o negativo são percebidos de forma diferente. Para eles, não faz sentido a frase “Nós somos todos descartáveis”, do sub-comandante Marcos, pois aqueles que se encontram no interior do trem em movimento não se julgam de forma nenhuma descartáveis. Isso faz toda uma diferença, e é preciso entender que eles raciocinam desde um outro ponto de vista.
Laymert: Não vejo isso. Na Europa, a questão se coloca de forma diferente. Nosso foco de visão é diverso porque somos os perdedores desse processo de aceleração, embora não queiramos reconhecê-lo. Fazemos um esforço gigantesco para nos mantermos no trem enquanto nacional, como um todo. Por outro lado, a sociedade deles está toda no trem.
Desde essa perspectiva, o positivo e o negativo são percebidos de forma diferente. Para eles, não faz sentido a frase “Nós somos todos descartáveis”, do sub-comandante Marcos, pois aqueles que se encontram no interior do trem em movimento não se julgam de forma nenhuma descartáveis. Isso faz toda uma diferença, e é preciso entender que eles raciocinam desde um outro ponto de vista.
Doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII, Laymert Garcia dos Santos é professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e membro do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP e do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental.
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