30 agosto 2009



. U-CITY 'UBIQUITOUS CITY' .
a cidade do futuro está em construção na Coreia do Sul!
Danilo Amoroso
New Songdo é uma utopia para uns, um sonho para outros. Veja neste artigo como o projeto desta cidade é ambicioso.

Imagine que você está em uma casa com sensores de pressão no chão que acionam ajuda automaticamente no caso de uma queda. Ou então, no seu quintal, uma lixeira identifica quando uma garrafa está sendo reciclada e recompensa o dono da residência por isso. Consegue imaginar uma cidade onde uma infinidade de serviços pode ser executada com o celular?
Estes são apenas alguns dos mais básicos atrativos de New Songdo, uma cidade que já está em construção na Coreia do Sul. A inauguração está prevista para o ano de 2015. O planejamento da cidade é liderado por John Kim – ex-projetista- chefe do Yahoo! – e reúne, no mesmo lugar, um pólo econômico, sustentável, tecnológico, confortável e totalmente planejado. Tudo se junta no que promete ser a comunidade mais dinâmica, vibrante e digitalizada de todo o planeta.



O conceito de U-City



New Songdo é uma tentativa de colocar na prática o conceito de Ubiquitous City (U-City), traduzido livremente como cidade ubíqua. Um ambiente ubíquo é aquele onde toda tecnologia de informação está aplicada e todos os sistemas estão interligados. Esta conexão pode ser feita de diferentes maneiras, desde simples redes sem fio até identificação por frequência de rádio.


Localização e habitantes
A área de construção ocupa seis quilômetros quadrados (equivalente a 735 campos de futebol) localizada na costa de Incheon, cidade que fica a 65 quilômetros da capital Seul. A localização não é à toa, muito menos aleatória. Distante 15 minutos do Aeroporto Internacional de Incheon, New Songdo alcança um terço da população mundial em pouco mais de três horas de voo. Mercados regionais como Rússia, China e Japão estão muito próximos, o que faz desta cidade o epicentro comercial asiático.


Uma vida totalmente high-tech
A tecnologia de computação estará presente em Songdo tanto visível como invisivelmente. A cidade será o exemplo máximo de um estilo de vida totalmente digital, com todos os sistemas de informação de residências, empresas e serviços conectados. Estima-se que todas as casas terão centenas, até milhares de chips por onde diversos dados e informações circularão.

No trânsito, as condições de tráfego podem ser determinadas, indicando a possibilidade de congestionamentos e recomendando rotas alternativas. Áreas de estacionamento são monitoradas e os motoristas são informados sobre a quantidade de vagas disponíveis e a localização delas. As ruas serão monitoradas por circuitos fechados de câmeras.
É importante ressaltar que ainda não se sabe quais tecnologias estarão, de fato, presentes na cidade. Mas há uma promessa repetida já há alguns anos pelos planejadores do distrito: o uso máximo da
tecnologia RFID, ou seja, identificação por radiofrequência. É este tipo de tecnologia, por exemplo, que identifica uma garrafa de vidro depositada adequadamente para reciclagem e recompensa quem o fez.
Segundo John Kim, New Songdo oferece a proposta de ser uma porta de entrada para serviços. Parceiros do distrito testarão serviços para o mercado sem a necessidade de construir nada. Serviços que exigem, por exemplo, acesso a dados via rede sem fio. A Coreia sempre se destacou em tecnologias de telefonia celular. É o terceiro maior mercado da Ásia em número de assinantes e lá se encontram as mais avançadas redes 3G. O índice de banda larga é o maior do mundo. A Coreia quer continuar a tendência com um sistema extremamente avançado de RFID. Quase U$ 300 bilhões serão investidos em um centro de pesquisas sobre a tecnologia no distrito.
Segundo John Kim, tudo começa com um smart-card que pode ser usado para diversas coisas, desde abrir a porta de casa até pagar por serviços como metrô, estacionamento, cinema, empréstimo de uma bicicleta pública, enfim, uma infinidade de utilidades. A chave do smart-card é anônima, sem nenhuma relação com a identidade do portador e pode ser facilmente cancelada em caso de roubo. Neste caso, a trava da porta de uma casa é resetada.
Outra possibilidade do uso deste tipo de tecnologia é carregar diversas informações, como por exemplo o histórico médico, em um celular. Essas informações podem ser usadas para pagar medicamentos prescritos em uma farmácia.
Fato é que as possibilidades de uso de RFID são muitas. A infraestrutura do distrito será como uma plataforma de teste para novas tecnologias que poderão ou não servir como referência para metrópoles de todo mundo.
Ainda há a dúvida sobre o sucesso ou não de uma cidade inteiramente planejada, mas é inevitável que a
RFID passe por um teste em larga escala, assim como tecnologias e dispositivos com sensores.


Outros atrativos da cidade
Songdo terá espaços para convenções e escritórios, hotéis de primeira classe, apartamentos e espaços comerciais como shoppings, restaurantes e opções para entretenimento. As instalações serão as mais modernas possíveis para hospitais, escolas e outras instituições de ensino.


A sustentabilidade
Também no site de divulgação da cidade, a promessa é otimista: “os moradores de Songdo poderão dizer que moram em uma das metrópoles mais verdes do mundo.” Songdo tem o projeto para ser uma das cidades mais verdes do planeta. Um programa de comprometimento de sustentabilidade com seis objetivos pretende determinar um novo padrão para design ambientalmente responsável para outros projetos de larga escala em todo o mundo. Todos os prédios deverão ter certificados de padrões internacionais de design e construção sustentáveis.


O transporte


Segundo os desenvolvedores do projeto, New Songdo terá como objetivo diminuir o uso de veículos automotivos, considerado grande responsável pela emissão de poluentes na Ásia. O transporte pelo distrito, incluindo metrô e ônibus, fornecerá acesso para residentes e visitantes. As paradas de ônibus estarão localizadas sempre a menos de 500 metros de todos os prédios residenciais ou comerciais. A extensão da linha de metrô de Incheon também ficará próxima de todas as áreas residenciais.
Nas ruas, 5% do espaço para estacionamento de cada quadra será destinado para veículos econômicos e com menor emissão de poluentes. Quadras comerciais terão mais 5% das vagas para carros com carona.
O sistema de estacionamento será subterrâneo ou coberto para minimizar o efeito de calor urbano e deixar mais espaço aberto para pedestres. Garagens terão integração com infraestrutura necessária para carregamento de veículos elétricos com objetivo de facilitar a transição para transportes de pouca emissão.
Uma rede de 25 km de pistas para bicicletas facilitarão e incentivarão o uso de transportes livres de carbono. Pistas para bicicletas serão extensamente disponibilizadas e será possível até mesmo alugar bicicletas públicas. Essas pistas serão adjacentes a todas as ruas principais.
No canal, táxis aquáticos serão implementados. Talvez não tão românticos quanto os de Veneza, mas eficientes ecologicamente.
Songdo é o que os planejadores chamam de “aerotrópolis”. Uma ponte com inauguração prevista para outubro de 2009 ligará o distrito ao Aeroporto Internacional de Incheon em 15 minutos, podendo ser acessado também via metrô ou ônibus. Este aeroporto é um dos maiores do mundo, tanto em número de passageiros como em volume de carga. Incheon é o caminho para um terço da população do planeta em um voo de três horas e meia.

Um pólo econômico
New Songdo será uma área com incentivos para a economia - isenção ou redução de impostos, por exemplo - e o objetivo de ser um distrito internacional de negócios. O inglês será o idioma oficial da cidade, e toda infraestrutura necessária estará disponível com centro de convenções e escolas internacionais.

Críticas à proposta
As críticas ao planejamento de New Songdo e o ceticismo em relação às promessas são grandes, desde a desconfiança sobre a real eficiência de tudo que está prometido até as preocupações com a privacidade. O U-City é um conceito que agradou os coreanos, mas o ocidente demonstra outra visão sobre a interação extrema entre homens e a tecnologia. Afinal, se é possível identificar que uma pessoa reciclou uma garrafa de vidro ou que ela caiu em casa, o que mais é possível deduzir ou descobrir através de chips?
Não somente em relação a esta cidade em construção, mas preocupações com privacidade são inerentes ao uso de chips para carregar informações e dados pessoais. Experiências tencológicas para uns, invasão de privacidade para outros. É fato que muitas das tecnológicas que serão colocadas à prova não serão desenvolvidas em Songdo, mas sim virão de outros países onde há obstáculos sociais para a implementação delas.
O próprio projeto da cidade gera ceticismo nos críticos. No planejamento, tudo é perfeito, tudo vai funcionar, tudo será diferente e este será o exemplo a ser seguido no mundo todo. Na prática... bem, só saberemos, no mínimo, quando a cidade estiver completa. No momento, escritórios do complexo empresarial estão abertos e em funcionamento, mas este é apenas o começo.
Se New Songdo é uma utopia de U$ 25 bilhões, ainda não se sabe, mas o projeto está andando. Algumas partes do distrito já funcionam, a ponte que liga o aeroporto deve ser concluída em outubro próximo e muitos prédios já estão erguidos.


O canal do parque central usará água do mar, economizando milhões de litros de água potável por dia. O consumo de água potável por sistemas de encanamento será reduzido em até 40% dependendo do projeto utilizado. A água de chuvas será utilizada ao máximo devido ao tipo de clima e o padrão de quantidade de chuva da região. Essa água será mais bem aproveitada por telhados especialmente desenvolvidos, os quais também amenizarão o efeito estufa.
Uma instalação movida a gás natural vai fornecer energia limpa e água quente para toda a cidade. As luzes das ruas serão de LED, mais eficientes. Um sistema centralizado de coleta será instalado para coletar lixo seco e molhado, eliminando a necessidade de usar veículos para isso; e 75% do lixo dos materiais de construção de Songdo poderão ser reciclados. Materiais reciclados, além de materiais produzidos ou manufaturados localmente serão utilizados na maior extensão possível.
Cerca de 40% da cidade é de espaço aberto e todas as quadras levam pedestres a estes espaços. Todas as instalações terão, em contrato, determinações para utilizar métodos e oferecer produtos com nenhuma ou pouca emissão de carbono. Fumar será proibido em áreas públicas e prédios comerciais, exceto em áreas especiais para isso.
A Escola Internacional de Songdo tem previsão de ser inaugurada em setembro próximo e promete a melhor educação desde o primário até o ensino médio em inglês a fim de preparar estudantes para faculdades e universidades do mundo todo. Já o Complexo Acadêmico Global Yonsei Songdo será a universidade responsável por pesquisas e desenvolvimento da cidade. A previsão é de que a primeira fase da obra seja concluída em 2010.
A cidade terá atrativos inspirados em grandes pontos turísticos do mundo. O parque central terá o ar de Paris e do Central Park, em Nova Iorque. Já um canal aquático será inspirado em Veneza e a arquitetura do centro de convenções lembrará a Sydney Opera House, na Austrália.
Um campo de golfe desenhado por Jack Nicklaus também está em construção com planos para a realização de grandes eventos do esporte, incluindo uma etapa do circuito PGA.
No complexo econômico, uma torre de 68 andares será a mais alta e o centro empresarial mais avançado da Coreia. O Centro de Convenções tem enorme espaço interior, também o maior da Coreia.
Culturalmente, o Centro de Artes de Incheon oferece um complexo com hall para shows e óperas, museu de arte asiática contemporânea, conservatório de música, escola de design e uma biblioteca.
O Hospital Internacional da cidade de Songdo promete trazer a última palavra em diagnósticos médicos e tecnologias de tratamento. Os parceiros incluem Microsoft e 3M para o desenvolvimento desse centro médico.
O site oficial da cidade mostra uma perspectiva extremamente otimista: “Songdo vai oferecer uma qualidade de vida incomparável englobando todo atrativo cultural, tecnológico e recreacional, incluindo um hospital de primeira classe, uma escola internacional, um museu, um centro ecológico, parque central, campo de golfe e uma miríade de opções de comércio que incluem um shopping."
Por exemplo: em uma casa de um morador idoso, o chão terá sensores de pressão capazes de interpretar uma queda. No momento do acidente, a emergência é acionada automaticamente. Mesmo que a vítima esteja inconsciente, o socorro é chamado.
Em outras cidades ubíquas da Coreia, outros exemplos do que pode ser feito são descritos com um pouco mais de clareza. No caso de Dangton, informações sobre a qualidade da água, atmosfera e lixo, por exemplo, podem ser coletadas para análise a fim de determinar as condições sanitárias do ambiente.

Na inauguração oficial, New Songdo terá 65 mil habitantes. Candidatos já estão na fila. O primeiro bloco com 2600 apartamentos foi posto à venda em 2006 e a procura foi de oito pessoas para cada apartamento. Outros 1000 apartamentos devem ser colocados à venda ainda este ano, e todos devem ser vendidos mesmo em tempos de crise. Além dos habitantes, 300 mil pessoas trabalharão na região.
Em outras palavras, um ambiente ubíquo pode ser usado facilmente, convenientemente e com segurança por qualquer pessoa a qualquer hora e em qualquer lugar. E, é verdade, um ambiente ubíquo também pode ser chamado de onipresente. Casas, hospitais, empresas e outras esferas compartilham dados. Computadores e chips estão presentes em residências, ruas e escritórios.
New Songdo é a cidade ubíqua mais avançada do mundo sendo construída do zero. Não é a primeira cidade ubíqua da Coreia do Sul, no entanto. Dongtan, por exemplo, já oferece diversos serviços interligados de um ambiente. Mas New Songdo é considerada diferente pela aplicação do U-City em toda cidade e pelo aspecto global de negócios, uma vez que a cidade quer atrair companhias do mundo todo para a consolidação de um avançado complexo empresarial.

19 abril 2009

A potência do imaginário de 'Neuromancer' nas origens da Cibercultura
Adriana Amaral

Colapso do futuro no presente. Pós-humanidade. Obsolescência do humano. Globalização. Megalópoles decadentes e sombrias. Pervasividade tecnológica cotidiana. Orientalização do Ocidente. Domínio ostensivo das megacorporações. Espetáculo e consumo. Vigilância eletrônica. Próteses e extensões. Território informacional. Roupas de couro e vinil preto. Fusão do sintético com o orgânico. Faça Você Mesmo. Biotecnologias. Subculturas juvenis. Hackers. Matrix. Linguagem e gírias das ruas. Eu poderia continuar essa lista e ainda assim não encerraria a discussão sobre os efeitos teórico-conceituais, sociológicos, antropológicos e filosóficos que Neuromancer catalisou e constituiu a partir de seu lançamento na década de 1980.

Com 'Neuromancer', William Gibson rompeu as barreiras entre a chamada literatura tradicional e o gueto do fandom típico da ficção-científica norte-americana, que permeou os sonhos de muitos autores de gerações anteriores: sci-fi sem fronteiras.

(...) No recém-nascido, obscuro e transdisciplinar campo da cibercultura, a inegável e inseparável relação cultura e tecnologia, e as próprias representações da tecnologia em todos os formatos midiáticos da cultura contemporânea, em suas interfaces com as teorias literárias e culturais pós-modernas, são compreendidas como as redes de conexão entre humanos e máquinas.

(...) 'Neuromancer' é a primeira parte do projeto de uma trilogia – a segunda e a terceira partes, respectivamente 'Count Zero' e 'Mona Lisa Overdrive', lançados pela Aleph - de um designer de palavras habilidoso que utiliza imagens, descrições e
sensações narrativas como ferramenta de observação da sociedade contemporânea e que soube perceber a efervescência de um período histórico visceral – o início dos anos 1980 - no qual a cultura da microinformática começou a se popularizar, desenhado a partir de diversas contraculturas – de um 1968 que volta em looping eterno - e subculturas nas quais os personagens mergulham.

(...) Em vez de descrever e acreditar num mundo perfeito, um paraíso tecnológico, com computadores garantindo o bem-estar e ajudando na resolução de problemas das pessoas, 'Neuromancer' nos aponta o lado negro que os avanços podem ocasionar - megacorporações substituindo a soberania dos governos, trazendo toda a sorte de corrupção, aniquilação social e das relações interpessoais.

(...) Assim, o impacto e a atração de 'Neuromancer' perduram em um âmbito que extrapola o literário e entra na areia movediça dos fluxos de influência e das representações na cultura pop, tendo se disseminado em comerciais publicitários, histórias em quadrinhos, games, filmes, moda, música e, até mesmo, no comportamento das gerações que já nasceram em um mundo científico-ficcional e no qual as distinções entre a vida real e virtual são cada vez mais tênues e se confundem a cada momento, para além do bem e do mal.


18 abril 2009

SLOW ATTITUDE . a cultura do 'slow down'
"Slow attitude" está chamando a atenção dos próprios americanos, escravos do "fast" (rápido) e do "do it now!" (faça já!). Portanto, esta "atitude sem pressa" não significa fazer menos, nem ter menor produtividade.
Significa sim, trabalhar e fazer as coisas com "mais qualidade" e "mais produtividade", com maior perfeição, com atenção aos detalhes e com menos stress. Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do prazer de um belo ócio e da vida em pequenas comunidades.
Do "aqui" presente e concreto, em contraposição ao "mundial" indefinido e anônimo. Significa retomar os valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver.
SIGNIFICA UM AMBIENTE DE TRABALHO MENOS COERCITIVO, MAIS ALEGRE, MAIS LEVE, E PORTANTO MAIS PRODUTIVO, ONDE OS SERES HUMANOS REALIZAM, COM PRAZER, O QUE MELHOR SABEM FAZER
É saudável refletir sobre tudo isto. Será que os antigos provérbios: “Devagar se vai ao longe" e “A pressa é inimiga da perfeição" merecem novamente a nossa atenção nestes tempos de loucura desenfreada? Não seria útil e desejável que as empresas da nossa comunidade, cidade, estado ou país, começassem já a pensar em desenvolver programas sérios de “qualidade sem pressa" até para aumentarem a produtividade e a qualidade dos produtos e serviços sem necessariamente se perder “qualidade do ser"?

12 abril 2009

E-MOTIVE HOUSE . Ficção ou Realidade?










Estrutura Programável muda de forma em tempo real .
A 'casa emotiva' é totalmente industrial, flexível em sua programação, desmontável, inovadora, coloca a domótica em outro nivel de projeção que será comumente aplicável num futuro próximo.
Quão inovadora uma construção pode ser? Que utilidade pode haver em se projetar uma residência altamente inovadora como a 'casa emotiva'?
A residência deve ser considerada como um laboratório que toca as relações emocionais entre ela e seus habitantes, entre ela e seus visitantes e entre os elementos da residência em si.

Mas uma 'casa emotiva' pode ser útil se for construída e testada hoje. A 'casa emotiva' é um caso teste para 'extended reality'. Materiais tradicionais são aumentados com uma infinidade de tecnologia.

A construção da casa e os móveis tornam-se programáveis. Tudo muda, exceto a área da cozinha e do banheiro. A forma da 'casa emotiva' é um espaço longo e móvel, e em ambas as pontas situam-se os blocos sólidos da cozinha e do banheiro. O espaço interno pode ser mudado de área de trabalho para área de refeição, área de dormir, etc.
Dez anos atrás isto poderia ser uma fábula, mas atualmente isto já é possível. O espaço pode ser ajustado, tanto em sua forma como no seu índice de informações. Toda combinação do espaço real com uma imagem virtual e /ou uma informação, pode ser possível.

Neste sentido, a casa desenvolverá uma emoção própria, podendo ser um reator ou um ator. A atuação poderá se tornar possível pela interação de uma infinidade de agentes como feixes pneumáticos, músculos de contração e cilindros hidráulicos.

O movimento dos usuários e as mudanças no tempo são registradas por uma diversidade de sensores e são traduzidas pelo cérebro da casa em uma ação.
Desta maneira, os habitantes e os elementos da casa desenvolverão uma lingua comum de modo que possam se comunicar um com o outro.
Estrutura Programável . A estrutura é um tear de tecelagem entre uma estrutura dura e uma estrutura macia. A estrutura dura consiste em feixes de madeira maciços e a estrutura macia em longas câmaras infláveis entre os feixes de madeira. Neste sentido as câmaras podem expandir ou encolher para dar uma forma global à 'casa emotiva'.
A construção total é formatada por uma estrutura espacial de cilindros hidráulicos que agem seguindo ou gerando 'movimentos-forma'.

A estrutura dura no exterior é coberta com células fotovoltaicas para gerar eletricidade. Os feixes são conectados uns com os outros com músculos pneumáticos que podem contrair e relaxar. O desafio técnico encontra-se no tear de tecelagem entre os elementos programáveis e a estrutura dura, e na interação entre estes agentes. Todos têm que trabalhar juntos como um rebanho. Os certificados que precisam ser feitos são baseados em algumas regras simples parea congregação do comportamento. As regras matemáticas de comportmaneto são conhecidas mas nunca são aplicadas nas peças estruturais.
Software Multi-player. O Projeto 'Hyperbody', sob a supervisão do professor Kas Oosterhuis, ganhou uma grande experiência com 'resposta emocional para ambientes programáveis'. A interação aqui é construída pelo programa de desenvolvimento do jogo Virtools.
Virtools tem uma versão multi-player que será usada aqui para jogar dentro da casa em tempo real. Os jogadores são os habitantes, as visitas e os elementos. Há também influências externas que podem determinar a interatividade. Não há sempre uma solução quando as influências externas e internas são apresentadas em tempo real no cérebro da casa. A reação será sempre uma complexa interação entre lotes de diferentes fatores. Uma complexa interação já parece como uma emoção. Nós estamos apontando para um desenvolvimento individual do caráter da casa; o experimento implica aprender a viver num ambiente com mente própria.
·Credits
Date: 2002
Site: Rotterdam
Project architect: Prof ir Kas Oosterhuis
Design team: Kas Oosterhuis, Ilona Lénárd, Gon Zifoni
Client: ONL




Os homens se orgulham de suas realizações e têm todo o direito de se orgulharem. Contudo,parecem ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo, a subjugação das forças da natureza, consecução de um anseio que remonta a milhares de anos, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes. Reconhecendo esse fato, devemos contentar-nos em concluir que o poder sobre a natureza não constitui a única pré-condição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural” (Sigmund Freud, O Mal-Estar da Civilização, 1929).
“Para compreender o papel predominante da técnica na civilização moderna, é preciso, antes de tudo, (...) explicar não apenas a existência de novos instrumentos mecânicos, mas expor como a cultura estava pronta para utilizá-los e deles aproveitar-se amplamente. (...) a mecanização e a arregimentação não são fenômenos novos na história. O que é novo, é o fato que estas funções tenham sido projetadas e encarnadas em formas organizadas que dominam todos os aspectos de nossa existência” ( Lewis Mumford, Técnica e Civilização, 1934).

TECNOTOPIA versus TECNOFOBIA.
O MAL-ESTAR NO SÉCULO XXI
Gustavo Lins Ribeiro / Departamento de Antropologia /Universidade de Brasília

Ciência e tecnologia são herdeiras dos mais poderosos mitos da civilização ocidental, cavalgando promessas de progresso ilimitado, de organização racional da vida social, política e econômica, e de subjugação do mundo social e natural aos desejos e ao planejamento de decision-makers iluminados pelo saber. A formação do par C & T é resultado de complexos processos históricos que confluíram para uma naturalização tão intensa sobre seu papel na vida social, cultural, política e econômica que, hoje, podemos considerar estarmos imersos em uma cultura tecnocientífica. Rótulos como cibercultura fazem prospecções sobre os novos fantasmas e modalidades de vida de que estão prenhes as tecnologias de ponta. Para Arturo Escobar (1994: 214), cibercultura "refere-se especificamente a novas tecnologias em duas áreas: inteligência artificial (particularmente tecnologias de computação e informação) e biotecnologia". A difusão das novas tecnologias traz à luz dois regimes de sociabilidade: a tecnosociabilidade e a biosociabilidade que "encarnam a consciência de que cada vez mais vivemos e nos fazemos em meios tecnobioculturais estruturados por novas formas de ciência e tecnologia" (idem).

A dupla face utópica (paradisíaca) e distópica (apocalíptica) da tecnologia é central para entendermos os dilemas que cada vez mais enfrentaremos. Por um lado, encontramos formulações utópicas apoiadas na maravilha que se levanta da ampliação das qualidades e ações humanas. A tecnotopia, caudatária da ideologia do progresso e de uma visão evolutiva da história da tecnologia (especialmente a partir da Revolução Industrial), é hegemônica e, neste momento de crises de utopias, é, em larga medida, o grande metarrelato salvífico do mundo contemporâneo. Por outro lado, estão discursos distópicos apoiados no terror às forças destrutoras desencadeadas por diversas invenções (controladas por grupos específicos) ou no temor à punição provocada pela manipulação radical da natureza. A tecnofobia, marcada pela desigualdade da distribuição sócio-política-econômica do acesso à tecnologia e por um imaginário onde cohabitam discursos alternativos ou cosmologias mágico-religiosas com seus demiurgos, é, em geral, relegada a um segundo plano, mas, ocasionalmente, sobretudo quando o homem parece querer brincar de Deus, reúne energias com poder normativo e regulatório.

Ciberespaço, organismos engenheirados e ciborgs metaforizam a procura por transcendência tanto quanto são índices de ansiedades culturais do nosso tempo.

O surgimento de novos fetiches e sistemas de poder é levantado por Arthur Kroker e Michael Weinstein (1994) que apontam para o advento do "corpo ligado" (wired body) e daquilo que chamam de a "classe virtual".

Se existe algo que alimenta uma visão evolutiva de aperfeiçoamento constante no tempo, isto é a tecnologia. Não por outro motivo ela é a espinha dorsal da ideologia do progresso. Se a capacidade de intervenção no real será sempre mais elaborada, podemos esperar dilemas cada vez mais complexos. A tensão entre tecnotopia e tecnofobia persistirá e certamente interessará, cada vez mais, a todos. Dentre os muitos desafios que já se apresentam a diversas instituições, o do impacto do avanço científicotecnológico na vida política, cultural, econômica e social, nos corpos, na subjetividade, na natureza, é um dos maiores e crescerá aceleradamente.

02 abril 2009

A NOVA CIVILIZAÇÃO DO TERCEIRO MILÊNIO

O novo princípio é ordem. Não se trata aqui de questões puramente teóricas, de remotos e abstratos problemas filosóficos que não nos dizem respeito. Trata-se da superação de nossa dor e da ciência que se propõe supe­rá-la e vencê-la; trata-se de enormes vantagens utilitárias compensadoras do esforço e do tormento da mortificação a que o homem está submetido; trata-se de, finalmente, ensi­nar e viver, não mais como crianças loucas, mas como adul­tos cheios de sabedoria. Trata-se de ver com clareza tudo quanto se relaciona com nosso destino humano, de obter resposta que esgote todos os porquês e todos os problemas que nos dizem respeito, e de comportarmo-nos, desse modo, com pleno conhecimento da conseqüência das nossas ações. Loucura continuar a atirar assim ao acaso e a embater-se continuamente contra reações que estupidamente desejamos e nos açoitam até sair sangue. Chegou a hora de compre­ender o delicado mecanismo dos fenômenos e de civilizarmo-­nos, não de brincadeira como até agora se fez; não mais na superfície apenas, mas em profundidade também; não só na forma, mas na substância; tanto nos meios como no fim; na matéria e no espírito. Entramos na fase construtiva, a vida colhe seus valores positivos e, nos ânimos batidos pela dor, os reconstrutores encontram o terreno preparado para o trabalho. O espírito, que através de tanta destruição se li­bertou de muitas das incrustações e escórias da matéria, pode finalmente dizer, depois de superado o profundo des­moronamento da onda descendente do materialismo: eu sou, esta é minha vez, posso criar. E a vida, que parecia prostra­da e morta, torna a soltar mais forte e mais para o alto, seu eterno grito de juventude. Vamos agora transportar para o plano humano da ação essa mas­sa de conceitos, transformar em concreto impulso constru­tivo a luminosidade desse imponderável, isto é, vamos trans­formar o princípio em ação, mas ação que as premissas cósmicas iluminem, sustentem e justifiquem. Trata-se de dar forma bem mais próxima e tangível, mais particular, porém mais real (porque mais aderente à hora histórica), mais hu­mana, atual e prática, aos princípios universais de um tra­tado universal. Nossa hu­manidade é primitiva: riquíssima de energia, mas pobre de sabedoria; extremamente dinâmica e extremamente ignorante. É fato conhecido. O homem é o que é e está bem onde está. As dores que o gravam lhe são proporcionais à sensibilidade e à ignorância. As provas que encontra e deve superar são as da sua classe, do seu nível evolutivo, adapta­das a suas capacidades. Para sermos práticos e compreen­síveis devemos permanecer ainda nessa atmosfera, com o objetivo preciso, porém, de levar-lhe a luz que lhe falta. Um dia se com­preenderá que vale o que somos, queremos e sabemos fazer e, portanto, merecemos, e não o que possuímos. O objetivo hoje é possuir e o homem é o meio; no entanto, o possuir é meio e o homem, fim. O efeito é dado pela causa; toda forma de vida tem as características derivadas das de seu germe. Assim, todo fenômeno se plasma e se desenvolve diversamente se­gundo a natureza das suas forças determinantes. Só quando o homem começar a compreender esses princípios tão elementares poderá começar a chamar-se civilizado. ... Trata-se de progredir e sa­bemos que a evolução é processo de progressiva harmonização... ... Se o homem seguisse a Lei, esta natu­ralmente proveria todas as suas necessidades.... O que mais vale não é possuir, na forma exterior, mas na interior; não nos efeitos, materiais, mas nas causas, espirituais; não nas garantias legais, mas nas nossas capacidades e qualidades. A única verdadeiramente segura é essa riqueza inalienável que não pode ser roubada porque é inseparável da personalidade, dada pelas nossas próprias qualidades. É segura e duradou­ra porque é a única verdadeira, honesta, justa, em equilí­brio com as forças da vida. Isso deriva das próprias quali­dades, é filho do mérito porque as qualidades só com o pró­prio trabalho se conquistam e nos tornam conceituados porque foi a nossa atividade e fadiga que as gerou e fixou. Se as possuímos é porque as conquistamos. Só então os bens são verdadeiramente nossos porque temos, fixadas em nós como instintos, as capacidades para sabê-los manter; e se os perdermos, para saber reconquistá-los. Doutro lado, quando não possuímos as capacidades e, portanto, o mérito e, assim, o direito, o dinamismo do fenômeno é cheio de desequilíbrio e se esgota, cedo ou tarde. Então os bens tendem a fugir-nos das mãos; perdemo-los porque não os sabemos administrar e, perdidos, não sabemos reconquistá-los. Eis como finalmente, não obstante todas as protetoras barreiras humanas da injustiça, a interior justiça da lei emerge. Começamos a subir os primeiros degraus das ascensões humanas. A atual maioria da humanidade vive e age in­conscientemente como fantoche manobrado por instintos, sem saber nada a respeito do porquê das coisas, sem com­preender o que e por que faz, as reações a que dá nasci­mento, as conseqüências dos próprios atos. Por esse conhe­cimento fundamental, que, segundo a lógica mais elemen­tar, deveria anteceder qualquer ação, o homem de nossos dias raramente se interessa e prefere, em primeiro lugar, agir, para depois compreender. Parece que os problemas do animal bastam para encher-lhe a vida e saciá-lo. Talvez o homem comum se perdesse em meio a essas questões que devem parecer-lhe de complexidade espantosa, a ele que vive na periferia, na superfície, e não no centro, na profundida­de. O pensamento das filosofias, apresenta-se-lhe contradi­tório; o das religiões, insuficiente; o da História, desconexo; o da política, faccioso e interessado. Em face dos mais im­portantes e, contudo, mais simples e necessários problemas da vida como, por exemplo: "Quem sou? Donde vim? Para onde vou? Por que vivo? Por que sofro?", o homem se per­cebe desnorteado e só porque o pensamento humano ainda não soube encontrar a síntese completa que lhe responda a tudo e, se tivesse sabido, conseguiria interpretá-la apenas de acordo com sua relativa maturidade. O homem de nos­sos dias vive, assim, em uma espécie de resignação à igno­rância, de adaptação à inconsciência; contenta-se em vegetar. Se isso pode ser dura contingência de sua evolução, é também triste aceitação e humilhante declaração de incom­petência. Podemos continuar a viver nesse estado? Só o in­voluído pode contentar-se com ele. Podemos continuar a agir sem entendimento, somente à custa de suportar as dolorosas conseqüências dos inevitáveis erros e desastres de que está cheia a vida individual e coletiva. Não é por isso? Certamente, que aos acontecimentos humanos, individuais e coletivos, faltará diretiva; esta, porém, não é confiada ao homem, não pode ser revelada a inconscientes; mas sê-lo-á qualquer dia, quando houver conquistado conhecimento e sabedoria. A formação de nova civilização do espírito, a for­mação do novo tipo humano do III milênio significa a con­quista de novo e imenso domínio, com o controle exato das diretivas da vida em nosso planeta. Não se trata de revolução social, exterior e formal, mas de maturação biológica, profunda e íntima. O homem atual crê estar sozinho no caos; no entanto, participa de imenso organismo. Involuído e, pois, insensível, inconsciente e ignorante, vê a desordem da superfície em que vive e nem suspeita a ordem presente nas causas, no interior das coisas. Enquanto evolui, deve o homem apren­der a tornar-se cidadão dessa pátria maior, o universo, e colaborador consciente desse grande organismo, harmonizando-se com todos os fenômenos irmãos e criaturas irmãs, com seus semelhantes, com as forças da Lei. A felicidade e o paraíso consistem, exatamente, nessa harmonização. Semeando, como fazemos, em ignorância e rebelião, só se pode colher reação e dor. Semeando em sabedoria e harmonia, colheremos felicidade e paz. Isso significa civilizar-se a sério e não, ter aprendido a construir máquinas sem, depois, saber fazê-las trabalharem. Em todo campo, políti­co, social, científico, filosófico, moral, torna-se necessário passar do sistema caótico ao sistema orgânico. O sistema do universo é perfeito. Nós, que não sabemos mover-nos nele, é que somos imperfeitos. Esse sistema contém a pos­sibilidade de toda a nossa felicidade. Para resolver os problemas, o caminho não é a violência e a impo­sição, mas a harmonia e a obediência. Basta havê-lo compreendido, para se por de lado todas as concepções de que habitualmente se vive.
Pietro Ubaldi . VEJA MAIS....www.pro-harmonia.blogspot.com

12 fevereiro 2009

Sobre a construção de novos patamares evolutivos

A EVOLUÇÃO DA NATUREZA .
O CONCEITO DE "NEXT NATURE"


'The Next Nature' ou a 'Próxima Natureza' é um conceito de filosofia pós-moderna que foi cunhado recentemente no ensaio do artista e cientista holandês Koert van Mensvoort – “Explorando a Próxima Natureza”, influenciado pela hiper-realidade e pela fenomenologia, o qual afirma que, através da atividade cultural humana, uma próxima natureza surgirá. A “Antiga Natureza”, percebida como árvores, plantas, animais, átomos ou o clima, tornar-se-á crescentemente controlada e governada pelo homem e isto irá transformando-a numa categoria cultural. Por outro lado, os produtos culturais, que são usados para entreter e controlar o homem, tendem a superá-lo e a tornarem-se autónomos. No passado, o reino dos que “nasciam” pertencia à natureza e a cultura era vista como um reino do “fabricado”. Mas por intermédio da ciência humana estas categorias tornaram-se cada vez mais indistintas.

A idéia principal contida na 'Próxima Natureza' é o conceito de natureza como força dinâmica em profunda interação com um meio técnico-científico-informacional já presente em nossa sociedade e cada vez mais se expandindo em velocidades geométricas, gerando grandes revoluções no conhecimento e no modo de viver das futuras gerações. A 'Próxima Natureza', a natureza da era cibernética, implica em um paradigma para explicar a atual relação entre a cultura e a natureza. O desenvolvimento tecnológico e os novos campos de pesquisa, como a Nanotecnologia, Manipulação Genética, Inteligência Artificial, Tecnologia da Informação, Neurociência interferem radicalmente no nosso sentido de o que é 'natural'. Eles estão conectados à visão natural da próxima natureza. Com o progresso da cultura, as forças da natureza mudam de endereço. A ‘Próxima Natureza’ está portanto, emergindo culturalmente da própria natureza.


Não podemos deixar de nos indagar sobre os rumos de nossa civilização, cada vez mais envolvida no desenvolvimento técnico-cientifico-informacional e qual o papel dos cientistas e pesquisadores diante do panorama que se apresenta. Como evoluirá a esta relação natureza_sociedade? Como será possível garantir a condição de 'natural' e de 'humano' numa civilização que apresenta suas capacidades expandidas pela engenharia genética, inteligência artificial superhumana, nanotecnologia molecular, união do biológico e do tecnológico, do natural e do social? Está correta a convicção de que maior conhecimento conduz necessariamente a um maior bem estar? Ou maior conhecimento e sua adequada aplicação podem, sim, levar ao maior desempenho econômico, não implicando que o ganho resultante seja partilhado pela sociedade? E como se estabeleceria, por exemplo, esse campo das Tecnologias Convergentes sem que seja associado à manipulação da vida dos indivíduos por instâncias de poder incontroláveis? E qual seria o papel da nova convergência como motor central das iniciativas de inovação e seus possíveis impactos sobre o futuro da sociedade? Ou ainda como poderia ser o uso dessa Convergência no Transhumanismo, na criação de seres híbridos (humano-máquina) , na era dos Cyborgs? Como se daria seu relacionamento com a natureza? Até onde influenciarão um ao outro?E como se daria a institucionalidade destas tecnologias, como elas permeariam as instituições humanas, e como se daria o gerenciamento e regulação dos produtos e serviços resultantes da nova convergência, seus aspectos éticos e legais, e seu impacto sobre a sociedade?

4.1. A EVOLUÇÃO DO SER HUMANO .


Tecnologias Convergentes / Transhumanismo um caminho possível

Ao observar o desenvolvimento da ciência, verificamos que a fragmentação, que muitas vezes facilita a compreensão de fenômenos mais intrínsecos de uma determinada área, tornou o conhecimento extremamente especializado e estanque. Para não se perder nele mesmo, e continuar a evoluir, há necessidade de uma profunda interação num movimento convergente, que possibilite encontrar o sentido e a aplicação comum das mais recentes descobertas da ciência, da técnica, da informação.

Tecnologias Convergentes (Converging Technologies) tratam da participação conjunta de áreas do conhecimento que trabalham isoladamente, num esforço conjunto para a solução de importantes questões humanas. Estas Tecnologias (TC), constituem-se numa vasta área de interação da pesquisa em Nanotecnologia, Biotecnologia, Tecnologia da Informação e Ciência Cognitiva, e fizeram sua estréia na cena pública com este nome em junho de 2001, numa reunião organizada pelos pesquisadores norte-americanos Mihail C. Roco e William Sims Bainbridge, com apoio da National Science Foundation (NSF), em Arlington, Virgínia. Desse encontro saiu o documento "Converging Technologies for Improving Humam Performance", com quase 500 páginas das quais emergem possibilidades técnicas até aqui impensáveis, muitas delas beirando a pura ficção científica, para âmbitos tão distintos quanto o da defesa militar e o da saúde humana.

Dois anos depois, a Comissão Européia resolveu lançar um olhar mais enraizado em sua tradição humanística às Tecnologias Convergentes e publicou o documento "Converging Technologies: Shaping the Future of European Societies". De acordo com ele, “os cidadãos da Europa se beneficiarão das CT se elas forem implementadas com vistas aos cuidados de saúde, processamento de informação e comunicação, mitigação ambiental, fontes de energia e outras áreas de interesse público e pessoal”.

No Brasil, o neurocientista e professor titular de neurologia experimental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Esper Abrão Cavalheiro, ex-presidente do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) atual assessor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), vem coordenando estudos para ampliar o debate, procurando despertar a comunidade científica brasileira e segmentos da sociedade que atuam no campo da ciência, tecnologia e inovação para a importância de se abrir canais de investigação e prospecção a respeito do impacto que as TCs poderão trazer no futuro da sociedade, promovendo uma verdadeira revolução nas relações Natureza e Sociedade.

A nova convergência de tecnologias tem por objetivo promover a interação entre sistemas vivos e artificiais, na busca de novos dispositivos que sirvam para expandir ou melhorar as capacidades cognitivas e comunicativas, a saúde e a capacidade física dos seres humanos, sendo capazes de trazer modificações significativas na sociedade e no ambiente. Chega-se mesmo a pensar no “renascimento da ciência”. Isto é, uma nova era da ciência e da tecnologia resultante do agrupamento dessas áreas (nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciência cognitiva), e que poderá fazer diferença na sociedade do futuro.

O Transhumanismo (às vezes simbolizado por >H ou H+) é uma filosofia emergente que analisa e incentiva o uso da ciência e da tecnologia, especialmente da biotecnologia, da neurotecnologia e da nanotecnologia, para superar as limitações humanas, e, assim, poder melhorar a própria condição humana. O termo transhumanismo foi criado pelo biólogo Julian Huxley em 1957, que o definiu como a doutrina do "homem continuando homem, mas transcendendo, ao perceber novas possibilidades de e para sua natureza humana". Essa definição, conquanto historicamente originária, não é a mais usada, que dela difere significantemente. Em 1966, FM-2030 (F.M. Esfandiary), um futurista estadunidense da New School University, começou a identificar como "transhumano" (uma referência a "humano transitório") — como pessoas que adaptavam tecnologias, estilos de vida, e visões de mundo transicionais à uma pós-humanidade.

A caracterização atual do termo, porém, deve-se a Max More, PhD.Oxford University. Em suas palavras, "transhumanismo é a classe de filosofias que busca nos guiar a uma condição pós-humana”. Ele inclui muitos elementos do humanismo, como o respeito pela razão e pela ciência, o compromisso pelo progresso, e a valorização da existência humana (ou transumana). Anders Sandberg, Dr., descreve o transhumanismo moderno como "a filosofia que diz que podemos e devemos nos desenvolver a níveis maiores, seja fisicamente, mentalmente ou socialmente, usando métodos racionais", enquanto Robin Hanson, Dr., o descreve como "a idéia de que, de vários modos, nossos descendentes não irão ser considerados 'humanos'."

4.2. A EVOLUÇÃO DA NATUREZA . O CONCEITO DE "NEXT NATURE"

'The Next Nature' ou a 'Próxima Natureza' é um conceito de filosofia pós-moderna que foi cunhado recentemente no ensaio do artista e cientista holandês Koert van Mensvoort – “Explorando a Próxima Natureza”, influenciado pela hiper-realidade e pela fenomenologia, o qual afirma que, através da atividade cultural humana, uma próxima natureza surgirá. A “Antiga Natureza”, percebida como árvores, plantas, animais, átomos ou o clima, tornar-se-á crescentemente controlada e governada pelo homem e isto irá transformando-a numa categoria cultural. Por outro lado, os produtos culturais, que são usados para entreter e controlar o homem, tendem a superá-lo e a tornarem-se autónomos. No passado, o reino dos que “nasciam” pertencia à natureza e a cultura era vista como um reino do “fabricado”. Mas por intermédio da ciência humana estas categorias tornaram-se cada vez mais indistintas.

A idéia principal contida na 'Próxima Natureza' é o conceito de natureza como força dinâmica em profunda interação com um meio técnico-científico-informacional já presente em nossa sociedade e cada vez mais se expandindo em velocidades geométricas, gerando grandes revoluções no conhecimento e no modo de viver das futuras gerações. A 'Próxima Natureza', a natureza da era cibernética, implica em um paradigma para explicar a atual relação entre a cultura e a natureza. O desenvolvimento tecnológico e os novos campos de pesquisa, como a Nanotecnologia, Manipulação Genética, Inteligência Artificial, Tecnologia da Informação, Neurociência interferem radicalmente no nosso sentido de o que é 'natural'. Eles estão conectados à visão natural da próxima natureza. Com o progresso da cultura, as forças da natureza mudam de endereço. A ‘Próxima Natureza’ está portanto, emergindo culturalmente da própria natureza.


trechos extraidos do paper 'Geografia, Natureza e Sociedade . Indagações sobre a construção de novos patamares evolutivos' . mestrado UFPR . mai2008 .
Annamaria Pires, Angelita Moura, Julio França
A questão da tecnociência no centro da discussão contemporânea
“Politizar as Novas Tecnologias” - O Impacto Sócio-técnico da Informação Digital e Genética . (Editora 34, 2003) Laymert Garcia dos Santos*

“Politizar as Novas Tecnologias” trata de um panorama complexo, de um mundo de transformações vertiginosas, como um relógio de potência supersônica cuja mecânica não é sequer sonhada pelo comum dos mortais, seja pela velocidade extraordinária, seja pelo ocultamento sistemático de informações. Amalgamado de forma indistinguível ao capital global, o novo conhecimento digital e genético veste o manto do sigilo empresarial.Contrapondo-se porém à máxima que reza que “o segredo é a alma do negócio”, os ensaios de Laymert Garcia fazem barulho e mapeiam para o leigo caminhos que há alguns anos fariam sentido apenas em páginas de ficção científica.
Entrevista concedida ao jornalista Alvaro Machado, colaborador da "Folha de S. Paulo" (http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1777,1.shl)

Qual o sentido da palavra “politizar” no título do seu livro?
Laymert Garcia dos Santos:
É no sentido de trazer para o centro da discussão contemporânea a questão da tecnociência. Na medida em que até mesmo o sentido do que é humano vai sendo radicalmente desconstruído, é preciso que a sociedade ao menos se dê conta dessa transformação. É preciso que ela diga se a deseja ou não, que estabeleça em quais circunstâncias se dará esse processo e em que velocidade ele deve acontecer.
Você tem de fato esperanças de que a sociedade se organize e manifeste algo parecido?
Laymert:
Acho que não se trata da quantidade de gente que daria conta dessa transformação. É preciso, pelo menos, instaurar a discussão, até para se explorar as possibilidades de tirar o corpo fora, literalmente, dessa história. Pois temos, na cultura contemporânea, uma tendência cada vez mais apocalíptica, e essa “narrativa do apocalipse” pode estar preparando a aceitação de uma vertente que pode se tornar extremamente perigosa. O sentido de “politizar” é, na verdade, afirmar: “É possível, sim, pensar outros cenários, outras possibilidades, e elaborar a crítica dessa maneira de pensar”.
Esse hipotético “outro cenário” não poderia, no entanto, refutar a evidência da modificação atual da natureza humana, não é?
Laymert:
Tudo deve ser colocado urgentemente em discussão, na medida em que essa modificação da natureza humana pode ser irreversível, ou seja, esse pode ser o processo de constituição de uma outra natureza humana.
Mas, segundo seus textos, parece ser, já, um processo irreversível...
Laymert: Realmente não dá para voltar atrás, mas não chegamos ainda ao ponto em que começamos a criar uma segunda natureza. Nos encontramos no limiar de uma transformação enorme. Veja, por exemplo, a discussão que agita hoje a filosofia. De um lado há Fukuyama, de outro Habermas, de outro Zizek, de outro os deleuzianos... E todos discutem o futuro do humano. Eles argumentam: a transformação da natureza humana é aceitável ou não? A ruptura com a natureza humana é algo que destrói os parâmetros do humanismo moderno ou não?
Trata-se, enfim, da própria noção de dignidade humana, que se encontra não apenas na base do pensamento filosófico moderno, mas do sistema jurídico ocidental, das instituições, das constituições... Quando chegamos ao fundamento das estruturas, encontramos invariavelmente a noção da dignidade humana. Ora, vários desses pensadores que observam a questão da biotecnologia e de seus rumos -não só na filosofia, mas na antropologia, na sociologia etc.- já consideram que a noção de dignidade humana acabou, ou ao menos já foi desmontada enquanto tal.
Alguns até dizem que se pode frear o processo. Já outros afirmam que é bom perceber dessa forma, pois já era fato consumado. A questão desmorona nossas bases, mas talvez não signifique o fim do mundo. É, talvez, o fim de um mundo. Essa questão é interessante: o fim de um mundo não é o fim do mundo. Mas para que esse novo mundo que está surgindo não se revele de uma carga negativa violentíssima, é preciso estabelecer uma discussão sobre as possibilidades que se abrem na nova configuração. Essa é a discussão.
Para você, essa perda da dignidade humana é fato?
Laymert: Não dá para voltar ao mundo pré-descobertas da genética. O grande problema, para mim, já havia sido indicado por Heiner Müller: existe hoje uma estratégia de aceleração total, econômica e tecnocientífica, muito pouco discutida. O escritor colocava-se contra ela, dizia que é totalitária, que impõe um ritmo que boa parte da população mundial não pode alcançar -e quem não alcança esse ritmo entra automaticamente na faixa de exclusão, queira ou não.
Dessa forma, se estabelece um novo tipo de polarização entre excluídos e incluídos. Müller dizia: por que essa estratégia é totalitária? Porque não admite outras temporalidades, e as minorias trazem à cena outras temporalidades que não a da aceleração total. Ele dizia, em resumo, que o terreno das temporalidades será palco de uma luta extremamente política, que colocará em outros termos a questão da inclusão e da exclusão.
A estratégia política de aceleração é um fato nítido, mas isso não significa que a tecnociência deva obedecer necessariamente a essa velocidade e a essa estratégia. Há muitas maneiras de desenvolver ciência e tecnologia, e isso não representa voltar para trás: podemos desenhar uma outra via.
Essa estratégia não foi adotada quando a ciência cessou de considerar a questão ética?
Laymert:
Desmontou-se o referencial antigo, tradicional, e também o referencial moderno. Enquanto se desmontava apenas o referencial clássico, que foi o que a cultura moderna fez, estava tudo bem, todos achavam que uma vez destruído o primeiro referencial, todos embarcariam no novo projeto. Entretanto, desde os anos 70 começou a ficar claro que esse outro tempo não é para todo mundo. O projeto, ou sonho, de que todos estariam incluídos na modernidade não existe mais.
Tal projeto tinha fortes raízes no pensamento socialista, não?
Laymert: Mas não só, já que o próprio capitalismo também acreditava ser inclusivo -e ele o era até a década de 70. Quando o capitalismo passou a não mais ser inclusivo, aumentou o fosso entre os que estão dentro e os que estão fora do novo projeto. Houve a aceleração brutal do desenvolvimento tecnocientífico e da própria sociedade onde ele se verifica.
Existe, hoje, algo como uma espécie de trem-bala do conhecimento e existe, também, a ilusão de que estamos todos nesse trem. Mas Müller dizia: não dá para embarcar nesse trem em movimento. Muita gente que quer, ou que não quer, não se encontra nele. E a estratégia daqueles que se encontram no trem é totalitária com relação aos que lá não estão, pois esse trem não admite outra velocidade que a sua.
Não existe mais, também, a influência dos Estados ditos socialistas, cujo contraponto freava tal processo.
Laymert:
Se não temos mais utopias, há, por outro lado, a própria realização da utopia, mas de modo acelerado, numa velocidade que não é para todos, e isso conduz à ruptura com o próprio projeto moderno. Na verdade, o desenrolar desse processo já quebra o referencial moderno, como o próprio moderno demolia os referenciais tradicionais. Do ponto de vista da informação digital e genética, ou do pensamento cibernético, tanto faz se o elemento é tradicional ou moderno, pois tudo será passível de recombinações.

Destruídos o referencial antigo e o moderno, seria preciso constituir uma nova ética, não?
Laymert: Construir um outro projeto, diferente do moderno e do tradicional, pois naquilo que está acontecendo agora não existe ética alguma.

E pode nem chegar a existir nenhuma.
Laymert:
Sim. O filósofo inglês Keith Ansell Pearson, por exemplo, lembra que o pós-modernismo afirmava que todas as grandes narrativas estavam destruídas. No entanto, hoje se constrói uma nova grande narrativa, à qual o filósofo se opõe. Essa narrativa é a da obsolescência do humano, e nós a encontramos nas artes visuais, no cinema, na literatura, e principalmente em ramos da tecnociência que pensam a superação do humano pelo chamado pós-humano.
Há duas vertentes distintas: uma privilegia a superação do humano segundo a hipótese de que o humano nada mais é que um “computador de carne” que pode ser superado por outros suportes, e essa é a linha da robótica contemporânea. Sobre esse assunto, recentemente o caderno “Mais!”, da “Folha de S. Paulo”, publicou o texto “Humano 2.0”, de Kurzweill, uma prospectiva de robótica. O humano não consegue processar o que é necessário na velocidade esperada, e portanto estaria em extinção... Isso tudo parece ficção científica, mas quando começamos a estudar, vemos que os cientistas já concretizam essa ficção científica.
Outra linha, menos ambiciosa, não procura realizar o “download” do espírito em outros suportes que não o humano e, portanto, a obsolescência do humano não importaria tanto. Para esta vertente, o que conta é a transformação do humano e, no limite, uma nova eugenia.
Ora, Pearson, entre outros, opõe-se a esse pensamento. Para ele, é preciso desmontar politicamente tal narrativa. Não há volta para trás porque não é possível voltar a ser moderno ou tradicional. Porém, o que podemos propor como contraponto? Podemos pensar que o humano talvez não tenha se esgotado, que justamente agora ele poderá se desenvolver de um modo completamente novo e diferente.
Seria como uma nova grande prova?
Laymert: Sim, o devir está em aberto, o humano não está selado, seu destino é aberto. Existe nessa reflexão uma positividade muito grande, que não está sendo considerada pelo “mainstream” da tecnociência.
Queira-se ou não, essa mudança atinge a todos, tanto incluídos como excluídos. Não há como se isolar, certo?
Laymert: Não há, e isso aprendi trabalhando nas ONGs em torno de comunidades indígenas brasileiras. Um belo dia descobre-se que uns norte-americanos foram lá coletar material humano -unhas, pele e cabelos daquela população, enfim, material genético- sem dizer para o que servirá E por que eles coletaram ali? Porque, na verdade -e essa é uma das coisas que tento desenvolver neste livro-, depois do advento da informação digital e genética, o campo do virtual tornou-se mais importante que o campo do atual. Isso significa que, tanto do ponto de vista da tecnociência quando do capital, o que pode vir a existir é mais importante do que aquilo que já existe.
Um exemplo: quando, na década de 80, descobriu-se que havia a extinção em massa de espécies, que se deu em função do próprio desenvolvimento da sociedade moderna, o que se fez para coibir essa perda gigantesca de biodiversidade? Praticamente nada. Em vez de tentar mudar o modo de exploração e o relacionamento com o meio ambiente, os países industrializados começaram a constituir bancos genéticos ex situ, isto é, fora dos lugares onde essa biodiversidade existe ameaçada, para que, após o desaparecimento completo daquelas espécies, eles tenham os elementos, os tijolos moleculares, para reconstruir aquilo que julguem necessário ou aquilo que interesse.
Trata-se de um processo de seleção...
Laymert: De apropriação, seleção e controle ao mesmo tempo. De que forma isso se dá? Exercendo-se controle sobre essa riqueza que desaparece, controlando-a não como recurso biológico, mas como recurso genético, já num plano da informação constitutiva desses recursos, dessa vida.
Ao mesmo tempo em que havia esse movimento para superar o desaparecimento das espécies, evoluía o Projeto Diversidade do Genoma Humano, cuja ambição era, com relação às minorias, a mesma que com os recursos biológicos. Ou seja, já que as populações tradicionais estão desaparecendo -elas que são portadoras de patrimônios genéticos específicos, que podem eventualmente servir para algo num futuro próximo-, a tecnociência trata de perenizar a existência desse patrimônio em bancos de dados genético, em vez de garantir o não-desaparecimento dos próprios indivíduos contemporâneos portadores dessas características.
Garante-se a disponibilidade dos anticorpos de uma população indígena específica para servir aos escolhidos para sobreviver, mas não para servir àqueles que não poderão sobreviver, incluindo-se aí a própria população da qual se tomou tais dados genéticos.
Essa é, de fato, a essência do celebrado mundo das virtualidades.
Laymert:
Um mundo no qual trabalho, vida e linguagem não são considerados em sua existência, mas como virtualidades daquilo que poderá ou não ser concretizado no futuro. Quando esse se torna o objeto principal da riqueza, quando o capital e a tecnociência se aliam para explorar esse campo, o que se tem é um direcionamento da ponta do sistema para o futuro. E a grande discussão é: quem terá acesso a essas virtualidades e como elas serão exploradas? Isso inclui desde a biodiversidade amazônica, tratada nos primeiros capítulos do livro, até a questão do direito de exploração das virtualidades do humano.
Abarca inclusive o campo da arte?
Laymert: Sim. Nós nos perguntamos, hoje, por que a arte contemporânea é objeto de tanto interesse por parte da alta finança. É porque a elas interessa, de fato, o território das grandes virtualidades. Mais que as inscrições relevantes na história da arte, interessa saber como a virtualidade está sendo explorada na ponta, inclusive pelos artistas.
Isso tudo estaria conectado a um processo de seleção muito acirrado, a uma extrema especialização?
Laymert:
A melhor palavra é seleção, pois o que está em jogo na aceleração total -econômica e tecnocientífica- é a relação entre vida e sobrevivência. Do ponto de vista de quem se encontra na ponta do trem-bala, a questão é: vamos garantir a nossa sobrevivência, antecipando o futuro e nos apoiando nas virtualidades que podem nos servir mais adiante. Opondo-se a essa posição de sobrevivência, ou dos sobreviventes, encontra-se tudo aquilo que apenas vive: todas as outras formas de vida, todas as outras temporalidades, as minorias e espécies que de uma ou outra maneira estão fora da aceleração e são objeto de pura especulação por esse grupo na ponta do processo.

Desse grupo altamente especializado.
Laymert:
Sim, desse grupo muito especializado, que detém a informação e a torna exclusiva sua, de modo a transformá-la em valor. E, na medida em que esse grupo sabe perfeitamente que sua exploração é predatória, pois pactua com a destruição de muita coisa, temos, obviamente, o projeto de garantia de sobrevivência de uma elite mundial.

Quem, na literatura, anteviu esse quadro radical?
Laymert: Uma das coisas que gosto em Müller é a sua antevisão desse processo. Ele dizia, generosamente, “ou todos ou nenhum”, o que configurava, de certo modo, uma posição anti-seleção. Porém, no ultimo texto de meu livro, “Tecnologia e Seleção”, há uma referência a uma jovem filósofa francesa brilhantíssima, Barbara Stiegler, autora de “Nietzsche e a Biologia” (Presses Universitaires de France, 2001). Nessa obra, ela recorda que a questão foi apontada por Nietzsche muito claramente, já em suas duas vias: a da constituição de uma nova eugenia, a “grande política”, e a da afirmação da vida, a “grande saúde”.
Nietzsche já havia pensado nisso quando politizou a biologia, na “Genealogia da Moral”. Ele afirmava pensar para aqueles que viriam 100 ou 200 anos depois dele. Efetivamente, do modo como ela o analisa, percebemos que ele tinha razão em dizer isso, e que ela tem razão em apontar. Pois os dilemas colocados hoje pela biogenética são dilemas a respeito não da criação de uma raça superior, mas de uma nova eugenia, de um quadro no qual existem aqueles cujo patrimônio será melhorado, e existe, de outro lado, o resto.
A diferença entre esses pólos já começa a se construir e em breve será tão grande que percebemos claramente que o discurso da obsolescência do humano prepara, na verdade, o advento de um humano superior, que evidentemente dominará os demais. Instaurada no plano molecular, a eugenia assume dimensões assustadoras.
Então a ficção científica estava certa?
Laymert:
Eu nem trato disso no livro, mas, por exemplo, no início do novo livro de Fukuyama, sobre o futuro do homem, quando ele analisa a forma como a biogenética destrói as bases da democracia (e olhe que ele está pensando a democracia norte-americana...), diz que Huxley estava certo, que estamos de fato às portas de um admirável mundo novo.
A ficção científica adquiriu um interesse novo, e as ciências humanas se ocupam cada vez mais dela, porque se trata de uma literatura de antecipação. E hoje assistimos à antecipação no mercado financeiro, no tratamento das questões ambientais, na tecnociência, na arte e na guerra. Quando Bush desencadeou sua operação não foi contra uma agressão iraquiana -ele antecipou um “possível” ataque aos EUA com armas de destruição em massa. O vocabulário utilizado nesse episódio vincula-se claramente a estratégias de antecipação da realidade.
O escritor Philip K. Dick tem um texto maravilhoso, no qual explica por que escreve ficção científica (reproduzido em “Politizar as Novas Tecnologias): ele diz que não escreve para explorar as tecnologias do futuro, mas para pensar aquilo que a sociedade não é, ou aquilo que ela ainda não é: suas virtualidades e os possíveis tratamentos ou concretizações dessas virtualidades.
Você fala em tecnociência, um termo cujo significado parece sofrer transformações.
Laymert:
Refiro-me a um modus operandi que não separa mais a ciência como um conhecimento desinteressado e a tecnologia como aplicação. Ao contrário, a tecnociência já indicia, de modo intenso e imanente, o conhecimento das aplicações, e assim temos a alimentação mútua entre ciência e tecnologia. A tecnociência já se constitui enquanto sistema, e isso é algo relativamente recente. Ela possui sua lógica própria e sua ética é subordinada, de certo modo, à afirmação de que “o conhecimento não tem limite”, ou de que não existe limite externo que possa ser contraposto a esse sistema.

Trata-se, então, de uma não-ética?
Laymert: O cientista dirá que está buscando o bem da humanidade, o bem-estar de todos os humanos e o florescimento da humanidade. Qualquer questionamento é taxado de obscurantismo. É um dogma que não se discute: não se pode sequer sugerir politizar a tecnociência. O dogma é “nenhum limite para a tecnociência”, da mesma maneira que o capital exige. A aliança entre esses dois termos não admite, igualmente, nenhum questionamento.

Esbarra-se, assim, na questão religiosa?
Laymert: Acredito que podemos questionar, isto sim, o que informa a fé na tecnologia. Isso é possível perguntar. Existe uma ambição desmedida por parte da tecnociência, e aí sem dúvida os territórios se misturam.

Seu encontro com Heiner Müller, em Berlim, parece ter sido uma experiência muito forte.
Laymert: Sim, pois foi algo totalmente inesperado. Consegui a entrevista por um estalo, e ela foi realizada na casa dele. Após esse encontro, percebi claramente o caráter não só da divisão entre Oriente e Ocidente, advinda da Guerra Fria, mas também, e principalmente, consegui entender o sentido da História. Müller tinha uma consideração muito forte sobre a História: ele a enxergava como tragédia, ou seja, achava que a maneira como existimos no mundo atual é uma maneira de carregar a História como nossa tragédia. Não temos mais os deuses que decidem os nossos destinos, mas uma História que trama o nosso destino muito além da nossa vontade. Essa seria a nossa tragédia.
E onde se coloca a criação nesse panorama? Como se pode escolher o próprio destino? O futuro do humano, para Müller, não pode ser estabelecido pela tecnociência. Para ele, aquilo que existe de virtual no ser humano, o que ainda poderá ser realizado, deverá acontecer ao largo da História, escapando dela, ou desvencilhando-se dela.
Qual seria o agente desse processo à margem da História?
Laymert:
Ora, trata-se daquilo que está vivo e ainda não foi capturado. Seria aquilo que existe de virtual no humano, mas ainda não pôde ser colonizado pela História, ou pelas forças da História. Isso é escapar da História, mas de certa maneira também significa construir outras possibilidades de História.

Seriam instâncias mais sutis do que aquelas já identificadas e armazenadas, novas formas de resistência?
Laymert: Exatamente. Onde estão as resistências de hoje? Estão, também elas, no campo das virtualidades, e é aí, justamente, que se encontram mais ameaçadas, uma vez que a aliança entre o capital global e as tecnociências projetam a colonização do virtual. O embate se dá no próprio lugar onde se encontra a fonte da resistência, onde se encontra a vida.

Por isso, o que existe atualmente é o embate entre a sobrevivência e a vida. Os que estão trabalhando para se estabelecer como aqueles que sobreviverão no futuro, aqueles que buscam a supra-existência, encontram-se em uma linha de tensão com aqueles que querem simplesmente viver, e não criar uma sobrevida. Porém, estes portam virtualidades que são objeto de apropriação por parte daqueles que querem sobreviver. Basta ler o livro de Susan George, “O Relatório Lugano”, para entender isso.
Você tem viajado bastante para conferências e seminários, no Brasil e no exterior. Vê alguma sociedade comportar-se de forma criativa para superar esse impasse global?
Laymert:
Não vejo isso. Na Europa, a questão se coloca de forma diferente. Nosso foco de visão é diverso porque somos os perdedores desse processo de aceleração, embora não queiramos reconhecê-lo. Fazemos um esforço gigantesco para nos mantermos no trem enquanto nacional, como um todo. Por outro lado, a sociedade deles está toda no trem.
Desde essa perspectiva, o positivo e o negativo são percebidos de forma diferente. Para eles, não faz sentido a frase “Nós somos todos descartáveis”, do sub-comandante Marcos, pois aqueles que se encontram no interior do trem em movimento não se julgam de forma nenhuma descartáveis. Isso faz toda uma diferença, e é preciso entender que eles raciocinam desde um outro ponto de vista.

Doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII, Laymert Garcia dos Santos é professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e membro do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP e do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental.

14 dezembro 2008

LUGAR, NÃO LUGAR E CIBERCIDADES: A QUESTÃO DA IDENTIDADE

É preciso conhecer a realidade para saber como nela atuar. Neste tempos pós-modernos a rapidez das mudanças tem gerado alterações significativas na realidade.
Estudar e entender o processo de convivência das cibercidade e da cidade real é umdesafio, no sentido de que:
1º. O indivíduo possa entender a sua realidade;
2º. O indivíduo possa se situar em sua realidade;
3º. O indivíduo possa capitalizar os benefícios dos avanços (tecnológicos, informacionais, cibernéticos, etc...) em prol da sociedade da cidade real
.

O advento de novas tecnologias de comunicação, desenvolvimento tecnológico e informacional e o surgimento de novos campos de pesquisa como a Nanotecnologia, Manipulação Genética, Inteligência Artificial, Neurociência vem gerando neste início de século, transformações importantes nas cidades pós-industriais, “caracterizando um movimento crescente de desterritorialização dos mundos simbólicos e esfacelamento de fronteiras entre o arcaico e o moderno, entre o local e o global, a cultura letrada e a audiovisual (Barbero, 2003).

Surge um novo domínio, o ciberespaço “um espaço relacional capaz de colocar em contato, através de técnicas de comutação eletrônica, pessoas do mundo todo, portanto é um espaço midiático de comunicação e compartilhamento”. (Lemos, 2002) Com o ciberespaço, a partir dos anos 70, surgem as cidades digitais, as cibercidades, consolidando-se, no transcorrer da última década, com a difusão da Internet _ o mais poderoso meio transnacional de comunicação interativa.

Neste contexto, conforme apresentado por Castells, as cidades deixam de ser um local: "Defenderei que, por causa, da natureza da sociedade baseada em conhecimento, organizada em torno de redes e parcialmente formada de fluxos, a cidade informacional não é uma forma, mas um processo, um processo caracterizado pelo predomínio estrutural do espaço de fluxos" (Castells, 1999, p. 423).

Para Lemos, as cibercidades são espaços urbanos cibernéticos, ou seja, são artefatos (como o são todas as cidades) digitais, fundando a partir de formas novas de fluxos comunicacionais e de transporte, por meio de ação à distância, uma nova instância de conviviabilidade, assim como de vida social e política; são formas espaço-temporais que se constróem pelo movimento: transporte e comunicação. Cidade e circuitos eletrônicos mantêm assim uma analogia que vai além da mera metáfora: ambas fazem circular (transporte) informação pelos mapeamentos de objetos e instrumentos provocando situações de comunicação.

O “lugar”_ como um lugar de identidade, relacional e histórico, carregado de significações pessoais, de memórias, de referências para a identidade pessoal ou grupal, com a cibercultura, se vê transformado, de agora em diante, em espaço de fluxo. E é substituído cada vez mais pelo “não lugar” _ espaços de anonimato, de não-memórias e de não-encontros.

Porém, não deixa de ser paradoxal que, enquanto existem cada vez mais “espaços de não-encontro”, existam paralelamente, em outra dimensão, cada vez mais “encontros sem lugar”, encontros em um espaço virtual, possibilitados pelo advento da Internet, e que constituem a modalidade contemporânea de relacionamento humano.

O cidadão passa a experimentar uma sensação de “abolição do espaço” e circula em um território transnacional, desterritorializado, no qual as referências de lugar e caminhos que ele percorre para se deslocar de qualquer ponto a outro modificam-se substancialmente.

A sociedade urbana contemporânea está submersa num mar de informações, modelos desencontrados, possibilidades alternativas, que a colocam em permanente confronto com suas próprias crenças e com os modelos de conduta que porventura já tenha internalizado. Encontra-se no estado de “multifrenia”, termo com o qual Gergen(1991) designa a condição humana nos contextos culturais da pós-modernidade: a identidade já não é vivenciada como una e estável, mas sim sujeita a uma multiplicidade de manifestações, por vezes díspares e inusitadas aos olhos de um observador externo. Em outras palavras, já não existe mais uma essência individual à qual a pessoa permanece fiel ou comprometida, mas “a identidade é continuamente emergente, re-formada e redirecionada na medida em que a pessoa se move num mar de relacionamentos em constante mudança” (p. 139). Todas as possibilidades estão abertas, a identidade passa a ser vista como potencialidade, virtualidade, possibilidade permanente de expressão de uma subjetividade multifacetada e contextual.

A falta de referentes estáveis de tempo e espaço, o rompimento com as tradições culturais e a perda do papel modelador e moderador da autoridade religiosa, expõem a indivíduo ao desafio de manter um frágil equilíbrio entre o seu núcleo de identidade pessoal – do qual são parte importante as memórias que lhe dão a sensação de ser um só, apesar de tantos – e as virtualidades, os simulacros, as novas formas de organização social.

Os referentes de espaço são fundamentais para o senso de identidade pessoal, e para a manutenção de um senso segurança ontológica. Diante das dramáticas mudanças por que passa a noção de espaço (e tempo) nas sociedades contemporâneas, é necessária a reflexão sobre os impactos que as novas ordenações espaciais têm sobre a noção de identidade. A realidade da “compressão do tempo-espaço”, “saturação social”, “não-lugares”, “ciberespaço”, traz profundas implicações para a expressão da identidade pessoal: “As ordenações simbólicas do espaço e do tempo fornecem uma estrutura para a experiência mediante a qual aprendemos quem ou o que somos na sociedade” (Harvey, 1992, p.198).

Até à Modernidade, o conceito de comunidade era baseado na proximidade geográfica. Atualmente, com a evolução que ocorreu principalmente nas últimas décadas, a comunidade é baseada na informação, na comunicação em rede, sendo a cultura a base da organização, desaparecendo a referência identitária a um lugar. Ou seja, na rede o indivíduo pode pertencer a um lugar que não existe, já que este se apresenta como simulacro.

Assim, as sociedades, que antes estavam enraizadas em seu território, e a isto estava relacionado o sentimento de pertencimento, passaram por um processo de “desterritorialização”. O mundo em rede torna as culturas acessíveis a todos, criando uma realidade onde as barreiras temporais e geográficas já não têm tanta importância. É o que Lemos chama de territorialidade simbólica. “Com o ciberespaço, as pessoas podem formar coletivos mesmo vivendo em cidades e culturas bem diferente. Criam-se assim territorialidades simbólicas” (Lemos, 2004). “Com as relações sociais a migrarem de um suporte físico para novos espaços virtuais, os cidadãos e as localidades estão cada vez mais a abstraírem-se de seu sentido geográfico e histórico, pois com o rompimento dos padrões espaciais através da interação com as redes, o “espaço dos fluxos” passou a substituir o ‘espaço dos lugares’”(Vidigal, 2002).

A ausência de uma localização geográfica, embora o ciberespaço funcione como espaço público fundamental para as comunidades virtuais, comprova que é a identificação com o outro que vai definir as comunidades. Enquanto na Modernidade esses grupos eram formados por pessoas que viviam em determinado território; agora, com o desenvolvimento é o indivíduo “desterritorializado” que adquire o poder de escolha, baseado em traços identitários comuns.

Essa nova dimensão espaço-temporal, de não- lugares, distancia-se cada vez mais da idéia clássica de sociedade. Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades, dentre as quais parece ser impossível fazer uma escolha (Hall, 2001). As características que fazem com que o indivíduo sinta-se parte de determinada nação, tais como religião, sotaque e etc., tornam-se deslocadas, já que, no mundo pós-moderno, a cultura não pertence apenas a uma nação.

Na sociedade em rede, a cultura não tem pátria e a identidade passa a ser construída a partir da leitura que fazemos sobre determinado traço cultural, de que nos apropriamos. As comunidades virtuais serão formadas por indivíduos que buscam interesses comuns, traços de identificação, que nada mais são que o sentimento de pertencimento. Assim, o indivíduo é provido de liberdade para ser o que deseja e, logo em seguida, deixar de sê-lo quando quiser. Se na Modernidade os indivíduos possuem funções definidas e os grupos formam-se de forma contratual, na atualidade, as pessoas (personas) desempenham diversos papéis e como as comunidades _ também chamadas de tribos por Maffesoli (2006) _ baseiam-se em interesses comuns, essas funções modificam-se para constituir essas tribos afetivas.

A nova cultura em rede instala uma forma de ver o real, na qual a segregação emerge da seleção de diversos tipos de relações societárias que desejamos vivenciar. Na verdade, o ordenamento da cibercidade implica a sua partilha por diversas tribos que se juntam por laços de afetividade cultural, sexual, racial etc.

Nesse sentido, mais uma vez, podemos observar o virtual como extensão do real. A sociedade contemporânea da multimídia, da realidade virtual e das redes telemáticas, não é mais literária, individual e racional, mas simultânea, como diria McLuhan, presenteísta, tribal e estética como afirma Maffesoli (2006) e “simulacro” dela mesma como nos explica Baudrillard.

Na rede não há fronteiras para as práticas sociais das tribos eletrônicas; diversos grupos de pessoas se identificam e passam a ter uma relação afetiva com um espaço virtual, que é, de fato, o próprio espaço geográfico, só que na dimensão global. Segundo Maffesoli (2006), estaríamos assistimos hoje a passagem (ou a desintegração) do indivíduo clássico à (na) tribo. A erosão e o esgotamento da perspectiva individualista da modernidade é correlata à formação das mais diversas “tribos” contemporâneas (fenômeno mundial com grupos religiosos, esportivos, hedonistas, musicais, ambientalistas, tecnológicos, etc.). Através dos diversos “tribalismos” contemporâneos, a organização da sociedade cede lugar, pouco a pouco, à organicidade da socialidade, agora tribal e não mais racional ou contratual.

Porém, neste tempo pós-moderno, há ainda que se considerar um outro importante aspecto, vital para entendermos os dilemas que a cibersociedade poderá se defrontar: as novas convergências de tecnologias (Nanotecnologia, Biotecnologia, Tecnologia da Informação, Ciência Cognitiva) têm por objetivo promover a interação entre sistemas vivos e artificiais, na busca de novos dispositivos que sirvam para expandir ou melhorar as capacidades cognitivas e comunicativas dos seres humanos, sua saúde e capacidade física, sendo capazes de trazer modificações significativas na sociedade e no ambiente.

Chega-se mesmo a pensar no “renascimento da ciência”, numa nova era da ciência e da tecnologia resultante do agrupamento dessas áreas, e que poderá fazer diferença na sociedade do futuro: visões de próteses tão inteligentes que, em última instância, apenas o cérebro permanecerá orgânico no sentido hoje atribuído a esta palavra. Transplantes, próteses perfeitas de membros, chips implantados, clones humanos, saem progressivamente da ficção. Agreguemos o aumento da importância quantitativa e qualitativa da imagem e da virtualidade na guerra, na ciência, na tecnologia, na política, na economia, nas interações sociais e na construção de comunidades imaginadas (Ribeiro,1996). Defrontamo-nos com uma ampliação do universo dos simulacros e simulações, com outro regime de visualidade com suas implicações para as formas de perceber e representar o mundo, implicações com impactos que se estendem da formação da subjetividade à formação de coletividades.

Segundo Gustavo Lins Ribeiro, o impulso de ampliação, via tecnologia, da capacidade corporal e da mente, “coloniza cada vez mais nosso mundo, problematizando díades antes consideradas fixas e intransponíveis como natureza/cultura, orgânico/inorgânico, real/imaginário, criando ou exacerbando porosidades, trânsitos, fusões, novas relações entre os elementos destes pares”.

Como pano de fundo, vemos o capital que _ via biotecnologia _ alcançou a própria lógica da cadeia da vida, e _ via ciberespaço _ realiza seus desígnios de poder e acumulação no próprio universo virtual. “O homem, por assim dizer, tornou-se uma espécie de ‘Deus de prótese’. Quando faz uso de todos os seus órgãos auxiliares (os objetos por ele criados), ele é verdadeiramente magnífico; esses órgãos, porém, não cresceram nele e, às vezes, ainda lhe causam muitas dificuldades”. (Ribeiro, 1996)

A narrativa brinca permanentemente com a linha humano/nãohumano, ou melhor dito, a linha humano/humano-criado-pelo-humano como que a antecipar o futuro onde, de acordo com Rabinow, a nova genética “deixará de ser uma metáfora biológica para a sociedade moderna e, ao invés, se tornará uma rede de circulação de termos de identidade em torno da qual e através da qual um tipo verdadeiramente novo de autoprodução emergirá: a‘biosociabilidade’, onde a natureza será modelada na cultura entendida como prática.

A natureza será conhecida e refeita através da técnica e finalmente se tornará artificial, da mesma forma que a cultura se tornará natural. Se este tipo de projeto realmente vier à luz, representará a base para ultrapassar a divisão natureza/cultura” (Rabinow 1992).

Entre a dupla face utópica (paradisíaca) e distópica (apocalíptica) da tecnologia e da informática, num tempo em que surgem dois regimes de sociabilidade, a tecnosociabilidade e a biosociabilidade (o corpo agora pode ser engenheirado, reconstruído, reformatado, reconfigurado; sonhos de felicidade instantânea, vida eterna, convivem com temores de perda de memória, identidade, integridade e poder; somos ao mesmo tempo um produto da cultura e da biologia (Geertz 1978)), contrapõem-se:

1._ o entusiasmo que permeia propostas e intervenções tecno-racionais, apoiadas na maravilha que se levanta da ampliação das qualidades e ações humanas, na ideologia do progresso e de uma visão evolutiva da história da tecnologia;

2._ com o discurso distópico do conhecimento técnico e seus efeitos em relação às diversas formas de poder (administrativo, legal e físico), que se desdobram em imagens de governos repressivos, sociedades violentas, lugares desagradáveis, perda de referência para a identidade pessoal, invenções controladas por grupos específicos, enfim, uma visão pós-apocalíptica da sociedade industrial e das grandes cidades, sugerindo perspectivas pouco promissoras para as cidades contemporâneas.

Este é o estado das relações atuais entre o humano e sua perda de referências, a tal ponto que surgem termos como pós-biológico, pós-humano, pós-histórico para nomear este afastamento daquilo que nos definia. Talvez por isto as múltiplas possibilidades de presença tenham se tornado cotidianamente viáveis e o ciborgue apareça como um dos novos rostos desta identidade de fluxos, conexões maquínicas, identidades híbridas de posição como os novos espaços da teoria foucaultiana.

Assistimos a uma redefinição antropológica da condição humana, quando na contemporaneidade todos os processos humanos são coisificados pela hiperbiologização do homem e sua realidade é progressivamente mediada pela tecnologia.

No discurso tecno-científico contemporâneo há uma insatisfação ou um desconforto com o humano, levando-nos ao pós-orgânico, ao pós-humano, proporcionados por uma potencialidade de atividades. A visão do homem-máquina é cada vez mais acentuada, visando sua re-construção, sua re-modelação. Desta forma, entendemos que o conhecimento tecno-científico modifica a corporeidade dos seres humanos. É Foucault quem diz que o controle da sociedade se faz também pelo corpo e com o corpo, sendo a tecno-ciência o saber que produz poder.

Este novo horizonte tecno-científico coloca algumas questões de suma importância, como por exemplo, o futuro da espécie humana frente os avanços da biotecnologia e da engenharia genética, a nova representação humana frente ao desenvolvimento da tecnologia da informática e da comunicação, a vida humana em meio aos objetos técnicos.

Uma das possíveis atualizações do biopoder pode ser vista através das reflexões feitas por Paul Rabinow (2002), que discute as mudanças de nossas práticas de vida e éticas sociais com o avanço da biosociabilidade, gerada pelo esquadrinhamento genético possibilitado pelas novas tecnologias.

É incontestável que mudanças profundas estão ocorrendo nos âmbitos culturais, sociais, espaciais, a nível local, nacional, global. Mas, para Rabinow, as mudanças colocadas pelas novas tecnologias são apenas partes dessa situação confusa.

O autor considera a aparição da biosociabilidade como lugar primário da identidade: “uma biologização da identidade que não se assemelha às outras categorias preexistentes (como raça e gênero) no que compreendemos como manipulável e passível de aperfeiçoamento” (Rabinow, 1999).

Cabe notar que o conceito de biopoder proposto por Foucault volta a ser central nessa discussão, ainda que Rabinow insista que seja preciso repensar o que podemos caracterizar como bíos na modernidade, uma vez que já está claro que os novos conhecimentos sobre genômica implicarão mudanças radicais nos âmbitos social e político, mas o que ainda está pendente é como as mudanças referidas à bíos irão interagir com as velhas e as novas relações de poder.

O “quarto motor” de Paul Virilio (1996) _vai modificar totalmente a relação com o real, na medida em que permite duplicar a realidade através de uma outra realidade, que é uma realidade imediata, funcionando em tempo real, livre.

Portanto, o estudo da Cidade Contemporânea, resultante da integração da Cibercidade e da Cidade Tradicional é um estudo muito complexo, pois envolve inúmeras variáveis de diversas áreas de conhecimento, muitas das quais estão surgindo e se apresentando com o próprio desenvolvimento das TIC,Nanotecnologia, Inteligência Artificial,Manipulação Genética, Neurociências e para qualquer estudo todas estas áreas de expressão na vida cotidiana da cidade, devem ser consideradas como atuantes dentro desta nova realidade.

Como vem se dando e poderá se aprimorar a sinergia entre o espaço de fluxos planetário e o espaço de lugar das cidades “reais”, nesta nova sociedade cibernética?
tema pesquisado por arq. Annamaria H. De S. Pires


02 outubro 2008

APOCALYPSE NOW!
Sobre a relação entre emancipação e pessimismo cultural
Robert Kurz (diante da atual crise financeira mundial o que dizer desta análise feita em 1998?)

O medo de um colapso mundial dominou várias culturas. Não raro, a ele se liga a imagem do dia do Juízo Final, como no Apocalipse de João. Esses pensamentos não carecem de um certo núcleo racional e altamente terreno, que dormita sob a roupagem religiosa. Pois toda elite social, que se funda na ''dominação do homem sobre o homem'' (Marx) e sob cujo desígnio são criadas cada vez mais pobreza, miséria e opressão, carrega em seu coração o medo tão oculto quanto bem fundado do dia da vingança.

Na pós-modernidade globalizada do capitalismo, no fim do século 20, as elites liberais há muito não temem mais a vingança de Deus, mas, sim, a possibilidade de uma nova crise global de vulto, na qual a ''mão invisível'' de seu sagrado mercado poderia acarretar ainda mais destruição e morte do que já faz atualmente. Sob o signo dessa crise, a desordem da sociedade ameaça assumir proporções tais que a civilização do dinheiro, hoje aparentemente triunfante, em breve talvez seja engolida pela história, como recentemente o seu parente pobre antagônico, o socialismo de Estado burocrático. Cada acontecimento que aponta nesse sentido (como a atual crise na Ásia) é divisado com um interessado horror.

Para seu divertimento, o mundo liberal escuta a ''profecia'' da crise como uma história da carochinha. Mas, como a cultura pós-moderna da mídia não pode mais, de toda forma, distinguir entre realidade e ''filme'', seus adeptos acreditam que tudo não passa de um jogo, depois do qual todos sairão confortavelmente para jantar. Por isso, não só os profetas da crise de conjuntura, mas também os propagandistas pós-modernos de uma jovialidade equívoca, tentam zombar de toda e qualquer advertência da crise como um pensamento ''milenarista'', irracional e apocalíptico. Os verdadeiros bobos da corte do capitalismo não são, hoje em dia, os arautos das más novas, mas esses ''apaziguadores'' pós-modernos, que retiraram do lixo da história os despojos do progresso burguês e deles fizeram uma moda ''de segunda mão''.

O apocalipse não é tão evidentemente irracional e reacionário quanto os últimos palhaços pós-modernos da razão liberal querem fazer crer. Desde sempre, esse conceito não significou só o Juízo Final sobre um mundo já indigno da vida e o seu colapso, mas também o surgimento de um mundo novo e melhor depois da catarse da grande crise. Nesse sentido, a precisa teoria da crise de Marx, com sua prova lógica de um limite interno absoluto do capitalismo, foi de certa maneira o pensamento apocalíptico racional da modernidade, já que continha também a esperança de um futuro pós-capitalista.

O sombrio pensamento reacionário, ao contrário, quer apenas estabelecer o ponto final da aniquilação: se o mundo antigo não pode mais subsistir, tampouco existirá um mundo novo e um futuro diverso. Oswald Spengler, em seu ''Declínio do Ocidente'', ansiava unicamente pelo final ''heróico'' de uma catástrofe universal. E, quando Hitler viu que a guerra estava perdida, desejou a extinção de todos na Alemanha, pois eles não se tinham mostrado ''dignos'' dele. Quanto mais se evidencia a nova crise do capitalismo, mais o liberalismo global de hoje começa a assumir, com militância, uma postura análoga diante de todo o mundo: se a economia de mercado destrói-se a si mesma, a humanidade deve igualmente cair por terra, e nada de novo poderá mais nascer sob o sol.

O pós-modernismo, como ideologia cultural que guarnece a globalização da economia de mercado, ainda não foi tão longe; antes, ele gostaria de obter ainda um certo progresso da cultura capitalista. Por isso, cada novo surto de crise que destrói a civilização moderna e a aproxima da barbárie é redefinido como uma ''oportunidade''. Sufocamos, por assim dizer, numa inflação de ''oportunidades''. Desse ponto de vista, naturalmente, não é possível uma crítica de base do atual desenvolvimento cultural. Crítica cultural emancipatória e reacionária aparecem como idênticas, pois a mais nova tendência do momento tem de ser automaticamente a melhor e uma cornucópia de ''possibilidades'', mesmo se, de fato, beire as raias do desvario.

Como em relação à crise ou ao ''apocalipse'', há também na questão da crítica cultural um conteúdo diametralmente oposto. O que tanto agrada aos reacionários no passado é uma sociedade de ''senhores e escravos'' com uma cultura autoritária de definições claras, na qual ninguém pode afastar-se do padrão prescrito da tradição obtusa. Só na retrospectiva romântica de tais relações é que eles censuram a cultura comercial de massas do capitalismo tardio. Em oposição a isso, uma crítica cultural emancipatória não quer, obviamente, transpor-se para algum passado glorificado. Inversamente, porém, ela também não pode aceitar toda e qualquer conjuntura nova imposta pelo tempo e dela tentar extrair algum mel, pois uma tal postura seria apenas o reverso do romantismo reacionário.

Em vez disso, trata-se de mostrar a dialética negativa da história capitalista e sua cultura: cada progresso é obtido às custas de um retrocesso, cada possibilidade positiva transforma-se em seu próprio desmentido. O cativeiro babilônico das tradições agrárias foi substituído pelas pragas egípcias do mercado total. O pós-modernismo é a melhor e a mais recente prova disso, pois o seu imperativo é: faça o quiser, mas seja lucrativo! Esta é a fórmula clássica de um ''double bind'', no sentido de Gregory Bateson.

Tal dialética negativa mostra-se hoje mais do que nunca no descompasso entre conquistas técnico-científicas e pobreza global. Uma potência mundial, que envia carrinhos de brinquedo a Marte, deixa 11 milhões de suas próprias crianças expostas à fome. À sombra da arquitetura mais ousada dos cinco continentes vegeta uma miséria de massas que nem a mais debilitada sociedade agrária pré-moderna foi capaz de produzir. Em retrospectiva às últimas décadas do capitalismo, o retrocesso social elementar no fim do século 20 é palpável. O barroco pós-moderno fornece a tais relações uma estética da ignorância, que qualifica a compaixão e indignação social como falta de gosto, o que a remete espiritualmente ao século 18.

Hoje, a cultura pós-moderna dos jovens de classe média lembra um pouco o comportamento dos belos e degenerados Eloi no romance utópico e pessimista ''A Máquina do Tempo'', de H.G. Wells (1895), que sempre estão à busca de diversão, não conseguem mais se concentrar em nada e não mostram interesse algum pela verdadeira situação do mundo. Ao que parece, todas as imagens de horror e as utopias negativas dos últimos cem anos são reverenciadas como modelos positivos no pós-modernismo. Como, entretanto, uma cultura do apartheid social e do canibalismo econômico vinga-se (a longo prazo) nos próprios grupos sociais dominantes, fica demonstrado o declínio intelectual da chamada burguesia. Se algo tornou-se ''sempre pior'', esse algo foi o nível de educação e o standard cultural das elites capitalistas.

O pessimismo cultural da Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer não vivia da nostalgia de normas e tradições empoeiradas, mas consistia no ceticismo diante da esperança de que fosse possível extrair dos dominantes algum bem do conhecimento ou da cultura digno de menção. De uma sociedade que deixa apodrecer seus museus, suas bibliotecas e seus monumentos culturais, bem como suas universidades e sua literatura, a fim de gastar dinheiro em automóveis, nada mais há para herdar senão uma montanha de sucata. Os conservadores, que no passado ao menos eram educados pelos clássicos, hoje fundam seu próprio conservadorismo em Hollywood. Mesmo suas mansões deveriam ser desapropriadas para afastá-las da paisagem e não ferir os olhos humanos. Se o analfabetismo secundário é verificado nos altos círculos, que cultura restaria ainda para ser transformada? Querer tornar acessível ''a todos'' os hábitos de alimentação, de leitura ou de vida em geral dos ''upper ten'' acabariam por difundir a mais absoluta insipidez.

Mas _e a cultura de massas? Ela não poderia conter conteúdos emancipatórios? Poderia, mas não os possui atualmente. Não é preciso que haja sempre a formação clássica engomada. As histórias em quadrinhos também podem mobilizar humor e verdade. O problema não é a cultura de massas como tal, mas o fato de seu conteúdo esgotar-se na forma comercial. Os meios técnicos não são indepedentes das relações sociais em que se manifestam. Nesse sentido, a discussão atual sobre a cultura de massas pós-moderna lembra a controvérsia entre Adorno e Walter Benjamin nos anos 30 e 40. Adorno via nas novas técnicas de reprodução artísticas (o filme, por exemplo) sobretudo uma nova maneira da expropriação intelectual e cultural das massas, no que respeita a toda percepção autônoma e crítica do mundo; as pessoas, por meio do poder da oferta capitalista, seriam degradadas como nunca a consumidores passivos. Benjamin, pelo contrário, entrevia nas técnicas do filme a possibilidade de uma ampliação de capacidades sensíveis e cognitivas do público.

No entanto, nem Adorno argumentava contra a nova técnica de reprodução como tal nem Benjamin queria tratar somente do aspecto técnico. Antes, ele via na ''participação consciente das massas'' nas novas técnicas culturais, por intermédio das formas de ''apercepção coletiva'', uma possibilidade emancipatória, cujo pano de fundo social era formado pelo movimento operário da época. A ''estetização fascista da política'' deveria ser respondida com a ''politização socialista da arte''. Mas, após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo encontrou uma terceira possibilidade: a individualização comercial de toda vida, inclusive da política e da cultura. O televisor foi o início de uma nova cultura dos ''indivíduos isolados'', que hoje desemboca na ''estética da existência'' pós-moderna e individual, com suas ''tecnologias do eu'' (Foucault) capitalistas, varridas de toda a esperança emancipatória. Hoje, são assassinos em série e criminosos de renome que executam à perfeição a estética pós-moderna.

O capitalismo, na verdade, nunca teve uma cultura própria, pois ele nada mais representa que o vazio bocejante do dinheiro. Em termos artísticos, isso foi inconscientemente representado por K.S. Malévitch, já antes da Primeira Guerra Mundial, com o seu célebre ''Quadrado Negro''. Depois disso, só puderam surgir diversos epílogos. O que apareceu como cultura capitalista foram sempre traços de cultura pré-moderna, que se converteram aos poucos em objetos de mercado, ou formas de protesto cultural contra o próprio capitalismo, que igualmente foram adaptadas para os fins comerciais. Hoje o capitalismo devorou tudo, ocupando-se agora em digeri-lo ou transformá-lo em lixo. Com isso, a modernidade chegou ao fim de suas possibilidades, justamente porque não há mais protestos.

O pós-modernismo imagina ser capaz de, ecleticamente, tornar disponível toda a história da cultura para si próprio (''anything goes''); na verdade, ele apenas remexe desesperadamente os depósitos de lixo e os excrementos do passado capitalista, para talvez ainda encontrar restos para a ''reciclagem'' cultural. Pode ser que justamente tal reciclagem pós-moderna, com sua simulação pop de um ''bom humor'' superficial, exija aquela versão reacionária do apocalipse, segundo a qual não poderá mais surgir um novo mundo das ruínas do antigo. Esperança existiria apenas num novo movimento social de massas que se apropriasse dos potenciais emancipatórios latentes das modernas técnicas de reprodução e os voltasse contra sua forma comercial.
Publicado na Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 11.01.1998 com o título Os bobos da corte do capitalismo. Tradução de José Marcos Macedo. Original alemão Apocalypse Now! disponível em
Deutsch http://obeco.planetaclix.pt/rkurz14.htm
 
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