12 fevereiro 2009

A questão da tecnociência no centro da discussão contemporânea
“Politizar as Novas Tecnologias” - O Impacto Sócio-técnico da Informação Digital e Genética . (Editora 34, 2003) Laymert Garcia dos Santos*

“Politizar as Novas Tecnologias” trata de um panorama complexo, de um mundo de transformações vertiginosas, como um relógio de potência supersônica cuja mecânica não é sequer sonhada pelo comum dos mortais, seja pela velocidade extraordinária, seja pelo ocultamento sistemático de informações. Amalgamado de forma indistinguível ao capital global, o novo conhecimento digital e genético veste o manto do sigilo empresarial.Contrapondo-se porém à máxima que reza que “o segredo é a alma do negócio”, os ensaios de Laymert Garcia fazem barulho e mapeiam para o leigo caminhos que há alguns anos fariam sentido apenas em páginas de ficção científica.
Entrevista concedida ao jornalista Alvaro Machado, colaborador da "Folha de S. Paulo" (http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1777,1.shl)

Qual o sentido da palavra “politizar” no título do seu livro?
Laymert Garcia dos Santos:
É no sentido de trazer para o centro da discussão contemporânea a questão da tecnociência. Na medida em que até mesmo o sentido do que é humano vai sendo radicalmente desconstruído, é preciso que a sociedade ao menos se dê conta dessa transformação. É preciso que ela diga se a deseja ou não, que estabeleça em quais circunstâncias se dará esse processo e em que velocidade ele deve acontecer.
Você tem de fato esperanças de que a sociedade se organize e manifeste algo parecido?
Laymert:
Acho que não se trata da quantidade de gente que daria conta dessa transformação. É preciso, pelo menos, instaurar a discussão, até para se explorar as possibilidades de tirar o corpo fora, literalmente, dessa história. Pois temos, na cultura contemporânea, uma tendência cada vez mais apocalíptica, e essa “narrativa do apocalipse” pode estar preparando a aceitação de uma vertente que pode se tornar extremamente perigosa. O sentido de “politizar” é, na verdade, afirmar: “É possível, sim, pensar outros cenários, outras possibilidades, e elaborar a crítica dessa maneira de pensar”.
Esse hipotético “outro cenário” não poderia, no entanto, refutar a evidência da modificação atual da natureza humana, não é?
Laymert:
Tudo deve ser colocado urgentemente em discussão, na medida em que essa modificação da natureza humana pode ser irreversível, ou seja, esse pode ser o processo de constituição de uma outra natureza humana.
Mas, segundo seus textos, parece ser, já, um processo irreversível...
Laymert: Realmente não dá para voltar atrás, mas não chegamos ainda ao ponto em que começamos a criar uma segunda natureza. Nos encontramos no limiar de uma transformação enorme. Veja, por exemplo, a discussão que agita hoje a filosofia. De um lado há Fukuyama, de outro Habermas, de outro Zizek, de outro os deleuzianos... E todos discutem o futuro do humano. Eles argumentam: a transformação da natureza humana é aceitável ou não? A ruptura com a natureza humana é algo que destrói os parâmetros do humanismo moderno ou não?
Trata-se, enfim, da própria noção de dignidade humana, que se encontra não apenas na base do pensamento filosófico moderno, mas do sistema jurídico ocidental, das instituições, das constituições... Quando chegamos ao fundamento das estruturas, encontramos invariavelmente a noção da dignidade humana. Ora, vários desses pensadores que observam a questão da biotecnologia e de seus rumos -não só na filosofia, mas na antropologia, na sociologia etc.- já consideram que a noção de dignidade humana acabou, ou ao menos já foi desmontada enquanto tal.
Alguns até dizem que se pode frear o processo. Já outros afirmam que é bom perceber dessa forma, pois já era fato consumado. A questão desmorona nossas bases, mas talvez não signifique o fim do mundo. É, talvez, o fim de um mundo. Essa questão é interessante: o fim de um mundo não é o fim do mundo. Mas para que esse novo mundo que está surgindo não se revele de uma carga negativa violentíssima, é preciso estabelecer uma discussão sobre as possibilidades que se abrem na nova configuração. Essa é a discussão.
Para você, essa perda da dignidade humana é fato?
Laymert: Não dá para voltar ao mundo pré-descobertas da genética. O grande problema, para mim, já havia sido indicado por Heiner Müller: existe hoje uma estratégia de aceleração total, econômica e tecnocientífica, muito pouco discutida. O escritor colocava-se contra ela, dizia que é totalitária, que impõe um ritmo que boa parte da população mundial não pode alcançar -e quem não alcança esse ritmo entra automaticamente na faixa de exclusão, queira ou não.
Dessa forma, se estabelece um novo tipo de polarização entre excluídos e incluídos. Müller dizia: por que essa estratégia é totalitária? Porque não admite outras temporalidades, e as minorias trazem à cena outras temporalidades que não a da aceleração total. Ele dizia, em resumo, que o terreno das temporalidades será palco de uma luta extremamente política, que colocará em outros termos a questão da inclusão e da exclusão.
A estratégia política de aceleração é um fato nítido, mas isso não significa que a tecnociência deva obedecer necessariamente a essa velocidade e a essa estratégia. Há muitas maneiras de desenvolver ciência e tecnologia, e isso não representa voltar para trás: podemos desenhar uma outra via.
Essa estratégia não foi adotada quando a ciência cessou de considerar a questão ética?
Laymert:
Desmontou-se o referencial antigo, tradicional, e também o referencial moderno. Enquanto se desmontava apenas o referencial clássico, que foi o que a cultura moderna fez, estava tudo bem, todos achavam que uma vez destruído o primeiro referencial, todos embarcariam no novo projeto. Entretanto, desde os anos 70 começou a ficar claro que esse outro tempo não é para todo mundo. O projeto, ou sonho, de que todos estariam incluídos na modernidade não existe mais.
Tal projeto tinha fortes raízes no pensamento socialista, não?
Laymert: Mas não só, já que o próprio capitalismo também acreditava ser inclusivo -e ele o era até a década de 70. Quando o capitalismo passou a não mais ser inclusivo, aumentou o fosso entre os que estão dentro e os que estão fora do novo projeto. Houve a aceleração brutal do desenvolvimento tecnocientífico e da própria sociedade onde ele se verifica.
Existe, hoje, algo como uma espécie de trem-bala do conhecimento e existe, também, a ilusão de que estamos todos nesse trem. Mas Müller dizia: não dá para embarcar nesse trem em movimento. Muita gente que quer, ou que não quer, não se encontra nele. E a estratégia daqueles que se encontram no trem é totalitária com relação aos que lá não estão, pois esse trem não admite outra velocidade que a sua.
Não existe mais, também, a influência dos Estados ditos socialistas, cujo contraponto freava tal processo.
Laymert:
Se não temos mais utopias, há, por outro lado, a própria realização da utopia, mas de modo acelerado, numa velocidade que não é para todos, e isso conduz à ruptura com o próprio projeto moderno. Na verdade, o desenrolar desse processo já quebra o referencial moderno, como o próprio moderno demolia os referenciais tradicionais. Do ponto de vista da informação digital e genética, ou do pensamento cibernético, tanto faz se o elemento é tradicional ou moderno, pois tudo será passível de recombinações.

Destruídos o referencial antigo e o moderno, seria preciso constituir uma nova ética, não?
Laymert: Construir um outro projeto, diferente do moderno e do tradicional, pois naquilo que está acontecendo agora não existe ética alguma.

E pode nem chegar a existir nenhuma.
Laymert:
Sim. O filósofo inglês Keith Ansell Pearson, por exemplo, lembra que o pós-modernismo afirmava que todas as grandes narrativas estavam destruídas. No entanto, hoje se constrói uma nova grande narrativa, à qual o filósofo se opõe. Essa narrativa é a da obsolescência do humano, e nós a encontramos nas artes visuais, no cinema, na literatura, e principalmente em ramos da tecnociência que pensam a superação do humano pelo chamado pós-humano.
Há duas vertentes distintas: uma privilegia a superação do humano segundo a hipótese de que o humano nada mais é que um “computador de carne” que pode ser superado por outros suportes, e essa é a linha da robótica contemporânea. Sobre esse assunto, recentemente o caderno “Mais!”, da “Folha de S. Paulo”, publicou o texto “Humano 2.0”, de Kurzweill, uma prospectiva de robótica. O humano não consegue processar o que é necessário na velocidade esperada, e portanto estaria em extinção... Isso tudo parece ficção científica, mas quando começamos a estudar, vemos que os cientistas já concretizam essa ficção científica.
Outra linha, menos ambiciosa, não procura realizar o “download” do espírito em outros suportes que não o humano e, portanto, a obsolescência do humano não importaria tanto. Para esta vertente, o que conta é a transformação do humano e, no limite, uma nova eugenia.
Ora, Pearson, entre outros, opõe-se a esse pensamento. Para ele, é preciso desmontar politicamente tal narrativa. Não há volta para trás porque não é possível voltar a ser moderno ou tradicional. Porém, o que podemos propor como contraponto? Podemos pensar que o humano talvez não tenha se esgotado, que justamente agora ele poderá se desenvolver de um modo completamente novo e diferente.
Seria como uma nova grande prova?
Laymert: Sim, o devir está em aberto, o humano não está selado, seu destino é aberto. Existe nessa reflexão uma positividade muito grande, que não está sendo considerada pelo “mainstream” da tecnociência.
Queira-se ou não, essa mudança atinge a todos, tanto incluídos como excluídos. Não há como se isolar, certo?
Laymert: Não há, e isso aprendi trabalhando nas ONGs em torno de comunidades indígenas brasileiras. Um belo dia descobre-se que uns norte-americanos foram lá coletar material humano -unhas, pele e cabelos daquela população, enfim, material genético- sem dizer para o que servirá E por que eles coletaram ali? Porque, na verdade -e essa é uma das coisas que tento desenvolver neste livro-, depois do advento da informação digital e genética, o campo do virtual tornou-se mais importante que o campo do atual. Isso significa que, tanto do ponto de vista da tecnociência quando do capital, o que pode vir a existir é mais importante do que aquilo que já existe.
Um exemplo: quando, na década de 80, descobriu-se que havia a extinção em massa de espécies, que se deu em função do próprio desenvolvimento da sociedade moderna, o que se fez para coibir essa perda gigantesca de biodiversidade? Praticamente nada. Em vez de tentar mudar o modo de exploração e o relacionamento com o meio ambiente, os países industrializados começaram a constituir bancos genéticos ex situ, isto é, fora dos lugares onde essa biodiversidade existe ameaçada, para que, após o desaparecimento completo daquelas espécies, eles tenham os elementos, os tijolos moleculares, para reconstruir aquilo que julguem necessário ou aquilo que interesse.
Trata-se de um processo de seleção...
Laymert: De apropriação, seleção e controle ao mesmo tempo. De que forma isso se dá? Exercendo-se controle sobre essa riqueza que desaparece, controlando-a não como recurso biológico, mas como recurso genético, já num plano da informação constitutiva desses recursos, dessa vida.
Ao mesmo tempo em que havia esse movimento para superar o desaparecimento das espécies, evoluía o Projeto Diversidade do Genoma Humano, cuja ambição era, com relação às minorias, a mesma que com os recursos biológicos. Ou seja, já que as populações tradicionais estão desaparecendo -elas que são portadoras de patrimônios genéticos específicos, que podem eventualmente servir para algo num futuro próximo-, a tecnociência trata de perenizar a existência desse patrimônio em bancos de dados genético, em vez de garantir o não-desaparecimento dos próprios indivíduos contemporâneos portadores dessas características.
Garante-se a disponibilidade dos anticorpos de uma população indígena específica para servir aos escolhidos para sobreviver, mas não para servir àqueles que não poderão sobreviver, incluindo-se aí a própria população da qual se tomou tais dados genéticos.
Essa é, de fato, a essência do celebrado mundo das virtualidades.
Laymert:
Um mundo no qual trabalho, vida e linguagem não são considerados em sua existência, mas como virtualidades daquilo que poderá ou não ser concretizado no futuro. Quando esse se torna o objeto principal da riqueza, quando o capital e a tecnociência se aliam para explorar esse campo, o que se tem é um direcionamento da ponta do sistema para o futuro. E a grande discussão é: quem terá acesso a essas virtualidades e como elas serão exploradas? Isso inclui desde a biodiversidade amazônica, tratada nos primeiros capítulos do livro, até a questão do direito de exploração das virtualidades do humano.
Abarca inclusive o campo da arte?
Laymert: Sim. Nós nos perguntamos, hoje, por que a arte contemporânea é objeto de tanto interesse por parte da alta finança. É porque a elas interessa, de fato, o território das grandes virtualidades. Mais que as inscrições relevantes na história da arte, interessa saber como a virtualidade está sendo explorada na ponta, inclusive pelos artistas.
Isso tudo estaria conectado a um processo de seleção muito acirrado, a uma extrema especialização?
Laymert:
A melhor palavra é seleção, pois o que está em jogo na aceleração total -econômica e tecnocientífica- é a relação entre vida e sobrevivência. Do ponto de vista de quem se encontra na ponta do trem-bala, a questão é: vamos garantir a nossa sobrevivência, antecipando o futuro e nos apoiando nas virtualidades que podem nos servir mais adiante. Opondo-se a essa posição de sobrevivência, ou dos sobreviventes, encontra-se tudo aquilo que apenas vive: todas as outras formas de vida, todas as outras temporalidades, as minorias e espécies que de uma ou outra maneira estão fora da aceleração e são objeto de pura especulação por esse grupo na ponta do processo.

Desse grupo altamente especializado.
Laymert:
Sim, desse grupo muito especializado, que detém a informação e a torna exclusiva sua, de modo a transformá-la em valor. E, na medida em que esse grupo sabe perfeitamente que sua exploração é predatória, pois pactua com a destruição de muita coisa, temos, obviamente, o projeto de garantia de sobrevivência de uma elite mundial.

Quem, na literatura, anteviu esse quadro radical?
Laymert: Uma das coisas que gosto em Müller é a sua antevisão desse processo. Ele dizia, generosamente, “ou todos ou nenhum”, o que configurava, de certo modo, uma posição anti-seleção. Porém, no ultimo texto de meu livro, “Tecnologia e Seleção”, há uma referência a uma jovem filósofa francesa brilhantíssima, Barbara Stiegler, autora de “Nietzsche e a Biologia” (Presses Universitaires de France, 2001). Nessa obra, ela recorda que a questão foi apontada por Nietzsche muito claramente, já em suas duas vias: a da constituição de uma nova eugenia, a “grande política”, e a da afirmação da vida, a “grande saúde”.
Nietzsche já havia pensado nisso quando politizou a biologia, na “Genealogia da Moral”. Ele afirmava pensar para aqueles que viriam 100 ou 200 anos depois dele. Efetivamente, do modo como ela o analisa, percebemos que ele tinha razão em dizer isso, e que ela tem razão em apontar. Pois os dilemas colocados hoje pela biogenética são dilemas a respeito não da criação de uma raça superior, mas de uma nova eugenia, de um quadro no qual existem aqueles cujo patrimônio será melhorado, e existe, de outro lado, o resto.
A diferença entre esses pólos já começa a se construir e em breve será tão grande que percebemos claramente que o discurso da obsolescência do humano prepara, na verdade, o advento de um humano superior, que evidentemente dominará os demais. Instaurada no plano molecular, a eugenia assume dimensões assustadoras.
Então a ficção científica estava certa?
Laymert:
Eu nem trato disso no livro, mas, por exemplo, no início do novo livro de Fukuyama, sobre o futuro do homem, quando ele analisa a forma como a biogenética destrói as bases da democracia (e olhe que ele está pensando a democracia norte-americana...), diz que Huxley estava certo, que estamos de fato às portas de um admirável mundo novo.
A ficção científica adquiriu um interesse novo, e as ciências humanas se ocupam cada vez mais dela, porque se trata de uma literatura de antecipação. E hoje assistimos à antecipação no mercado financeiro, no tratamento das questões ambientais, na tecnociência, na arte e na guerra. Quando Bush desencadeou sua operação não foi contra uma agressão iraquiana -ele antecipou um “possível” ataque aos EUA com armas de destruição em massa. O vocabulário utilizado nesse episódio vincula-se claramente a estratégias de antecipação da realidade.
O escritor Philip K. Dick tem um texto maravilhoso, no qual explica por que escreve ficção científica (reproduzido em “Politizar as Novas Tecnologias): ele diz que não escreve para explorar as tecnologias do futuro, mas para pensar aquilo que a sociedade não é, ou aquilo que ela ainda não é: suas virtualidades e os possíveis tratamentos ou concretizações dessas virtualidades.
Você fala em tecnociência, um termo cujo significado parece sofrer transformações.
Laymert:
Refiro-me a um modus operandi que não separa mais a ciência como um conhecimento desinteressado e a tecnologia como aplicação. Ao contrário, a tecnociência já indicia, de modo intenso e imanente, o conhecimento das aplicações, e assim temos a alimentação mútua entre ciência e tecnologia. A tecnociência já se constitui enquanto sistema, e isso é algo relativamente recente. Ela possui sua lógica própria e sua ética é subordinada, de certo modo, à afirmação de que “o conhecimento não tem limite”, ou de que não existe limite externo que possa ser contraposto a esse sistema.

Trata-se, então, de uma não-ética?
Laymert: O cientista dirá que está buscando o bem da humanidade, o bem-estar de todos os humanos e o florescimento da humanidade. Qualquer questionamento é taxado de obscurantismo. É um dogma que não se discute: não se pode sequer sugerir politizar a tecnociência. O dogma é “nenhum limite para a tecnociência”, da mesma maneira que o capital exige. A aliança entre esses dois termos não admite, igualmente, nenhum questionamento.

Esbarra-se, assim, na questão religiosa?
Laymert: Acredito que podemos questionar, isto sim, o que informa a fé na tecnologia. Isso é possível perguntar. Existe uma ambição desmedida por parte da tecnociência, e aí sem dúvida os territórios se misturam.

Seu encontro com Heiner Müller, em Berlim, parece ter sido uma experiência muito forte.
Laymert: Sim, pois foi algo totalmente inesperado. Consegui a entrevista por um estalo, e ela foi realizada na casa dele. Após esse encontro, percebi claramente o caráter não só da divisão entre Oriente e Ocidente, advinda da Guerra Fria, mas também, e principalmente, consegui entender o sentido da História. Müller tinha uma consideração muito forte sobre a História: ele a enxergava como tragédia, ou seja, achava que a maneira como existimos no mundo atual é uma maneira de carregar a História como nossa tragédia. Não temos mais os deuses que decidem os nossos destinos, mas uma História que trama o nosso destino muito além da nossa vontade. Essa seria a nossa tragédia.
E onde se coloca a criação nesse panorama? Como se pode escolher o próprio destino? O futuro do humano, para Müller, não pode ser estabelecido pela tecnociência. Para ele, aquilo que existe de virtual no ser humano, o que ainda poderá ser realizado, deverá acontecer ao largo da História, escapando dela, ou desvencilhando-se dela.
Qual seria o agente desse processo à margem da História?
Laymert:
Ora, trata-se daquilo que está vivo e ainda não foi capturado. Seria aquilo que existe de virtual no humano, mas ainda não pôde ser colonizado pela História, ou pelas forças da História. Isso é escapar da História, mas de certa maneira também significa construir outras possibilidades de História.

Seriam instâncias mais sutis do que aquelas já identificadas e armazenadas, novas formas de resistência?
Laymert: Exatamente. Onde estão as resistências de hoje? Estão, também elas, no campo das virtualidades, e é aí, justamente, que se encontram mais ameaçadas, uma vez que a aliança entre o capital global e as tecnociências projetam a colonização do virtual. O embate se dá no próprio lugar onde se encontra a fonte da resistência, onde se encontra a vida.

Por isso, o que existe atualmente é o embate entre a sobrevivência e a vida. Os que estão trabalhando para se estabelecer como aqueles que sobreviverão no futuro, aqueles que buscam a supra-existência, encontram-se em uma linha de tensão com aqueles que querem simplesmente viver, e não criar uma sobrevida. Porém, estes portam virtualidades que são objeto de apropriação por parte daqueles que querem sobreviver. Basta ler o livro de Susan George, “O Relatório Lugano”, para entender isso.
Você tem viajado bastante para conferências e seminários, no Brasil e no exterior. Vê alguma sociedade comportar-se de forma criativa para superar esse impasse global?
Laymert:
Não vejo isso. Na Europa, a questão se coloca de forma diferente. Nosso foco de visão é diverso porque somos os perdedores desse processo de aceleração, embora não queiramos reconhecê-lo. Fazemos um esforço gigantesco para nos mantermos no trem enquanto nacional, como um todo. Por outro lado, a sociedade deles está toda no trem.
Desde essa perspectiva, o positivo e o negativo são percebidos de forma diferente. Para eles, não faz sentido a frase “Nós somos todos descartáveis”, do sub-comandante Marcos, pois aqueles que se encontram no interior do trem em movimento não se julgam de forma nenhuma descartáveis. Isso faz toda uma diferença, e é preciso entender que eles raciocinam desde um outro ponto de vista.

Doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII, Laymert Garcia dos Santos é professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e membro do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP e do Conselho Diretor do Instituto Socioambiental.

Um comentário:

Oficina projetos disse...

Que interessante essa entrevista. A sociedade tem mesmo é que abrir os olhos para as novas relações humanas que surgem no mundo comtemporâneo e se posicionar com consciência. O homem está abrindo mão de sua capacidade criadora e ativa para incorporar um robô, uma máquina financeira ignorante de sua própria ruína. Acompanho o blog sempre e está de parabéns pela iniciativa!

 
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